Debates
Cássio, de herói no campo a guerreiro pela educação inclusiva
Da Redação | 28 de agosto de 2025 - 00:40

Por André Naves
Querido Cássio, herói do Corinthians, herói do Cruzeiro,
herói do Brasil. Neste momento, o clubismo passa longe, e todos nós brasileiros
solidarizamo-nos com seu drama. Acredite, sua dor é também a de muitos
brasileiros, principalmente dos mais desassistidos. Que a sua voz una-se a de
todos nós, ativistas pela inclusão social e pela educação inclusiva. A história
de Maria Luíza, sua filha, não é apenas um caso isolado de exclusão; é a
exposição de um fedor que exala de uma ferida aberta e sistêmica em nossa
sociedade.
A sua voz, amplificada pela admiração que o Brasil tem por
você, Cássio, transforma uma dor particular em um chamado coletivo. A luta pela
educação inclusiva é, em sua essência, a luta pela alma do Brasil. É a defesa
da dignidade, o combustível para a criatividade e a mola mestra da inovação,
sendo, portanto, um pilar indispensável para o desenvolvimento econômico e
social do nosso país.
A recusa de uma escola em matricular uma criança com
deficiência não é uma mera "falta de preparo" ou uma decisão
discricionária. É uma afronta direta à dignidade humana e um ato ilegal. A Lei
Brasileira de Inclusão (LBI - Lei nº 13.146/2015) é categórica ao estabelecer,
em seu Art. 27, que a educação é um direito da pessoa com deficiência,
assegurando um "sistema educacional inclusivo em todos os níveis e
aprendizado ao longo de toda a vida".
Recusar matrícula é crime, previsto no Art. 8º da Lei nº
7.853/89. Portanto, a atitude dessas escolas em Belo Horizonte, como você bem
disse, é nefasta e nojenta não apenas moralmente, mas também juridicamente. A
Inclusão não é um favor; é um direito inalienável que garante que cada
indivíduo seja visto em sua plenitude e potencial. Um ambiente escolar
homogêneo, que segrega o "diferente", é um ambiente intelectualmente
pobre. A criatividade floresce no encontro de múltiplas perspectivas. Crianças
que convivem com a diversidade desde cedo aprendem a resolver problemas de
formas inovadoras, desenvolvem a alteridade, a colaboração e a flexibilidade
cognitiva — habilidades essenciais para a economia do século XXI.
Quando uma escola exclui uma criança como a Maria Luíza, ela
não está apenas negando um direito somente a ela. Está roubando de todos os
outros alunos a oportunidade de crescerem como seres humanos mais completos e
cidadãos mais preparados. Está privando a sociedade de futuros profissionais
que enxergam o mundo para além das caixas e dos padrões. A inovação social e
tecnológica depende de mentes que foram ensinadas a acolher, e não a excluir.
Os números mostram que, felizmente, a luta pela inclusão tem
gerado frutos. Segundo dados do Anuário Brasileiro da Educação Básica de 2024,
91% das matrículas de estudantes com deficiência na Educação Básica em 2023
foram realizadas em classes comuns. Isso demonstra que a inclusão é a regra e o
caminho que o Brasil escolheu seguir. Contudo, o desafio permanece imenso. A
mesma pesquisa aponta que a taxa de analfabetismo entre pessoas com deficiência
é de 19,5%, um abismo quando comparada aos 4,1% entre pessoas sem deficiência.
Isso nos mostra que não basta matricular; é preciso garantir a permanência, o
aprendizado e o desenvolvimento pleno.
A exclusão não acontece só na porta da escola, mas dentro
dela, na falta de recursos, de formação de professores e de um olhar
verdadeiramente acolhedor. Cássio, convido-o para uma "grande luta"!
A sua fama e a sua penetração social são ferramentas poderosas para amplificar
a voz de milhares de pais e mães anônimos que enfrentam essa batalha todos os
dias.
Investir em educação inclusiva é a política econômica mais
inteligente que uma nação pode adotar. Gera retorno em capital humano, em
coesão social, em redução de desigualdades e no fortalecimento da nossa
democracia. Cada criança incluída hoje é um cidadão mais autônomo, produtivo e
engajado amanhã.
Que a sua voz, Cássio, se una à nossa. Vamos juntos construir um Brasil onde nenhuma criança fique para trás. Um país onde a beleza da diversidade humana seja celebrada em cada sala de aula, transformando nossas escolas em verdadeiros berços de um futuro mais digno, criativo e justo para todos.
* André Naves é Defensor Público Federal formado em Direito
pela USP, especialista em Direitos Humanos e Inclusão Social; mestre em
Economia Política pela PUC/SP; Cientista Político pela Hillsdale College e
doutor em Economia pela Princeton University. Comendador Cultural, Escritor e
Professor (Instagram: @andrenaves.def).