O que se sabe sobre o caso do ex-policial acusado de matar fotógrafo em posto de Curitiba
Ronaldo Massuia Silva é julgado por homicídio triplamente qualificado e sete tentativas de homicídio

Quatro anos depois de um ataque a tiros que terminou com a morte do fotógrafo André Muniz Fritoli, de 32 anos, e deixou outras sete pessoas como vítimas de tentativas de homicídio, o ex-policial federal Ronaldo Massuia Silva começou a ser julgado nesta quarta-feira (9), em Curitiba. O Tribunal do Júri da capital reservou três dias para o julgamento, que deve terminar na sexta-feira (11).
Massuia é acusado de homicídio triplamente qualificado e sete tentativas de homicídio triplamente qualificadas. As qualificadoras são motivo fútil, perigo comum e recurso que dificultou a defesa das vítimas. O processo considera oito vítimas no total.
O réu está preso desde o dia do crime e foi excluído dos quadros da Polícia Federal. No primeiro dia de julgamento, o Conselho de Sentença foi formado por sete jurados — quatro homens e três mulheres —, que permanecem incomunicáveis durante os trabalhos.
A defesa sustenta que Massuia sofre de alcoolismo e transtorno de estresse pós-traumático e afirma que ele não tinha condições de compreender plenamente os próprios atos. Já a assistência de acusação defende a condenação pelos crimes apontados na denúncia.
Como aconteceu o ataque no posto de combustíveis
O crime aconteceu em 1º de maio de 2022, em uma loja de conveniência de um posto de combustíveis no bairro Cristo Rei, em Curitiba.
De acordo com a acusação descrita no processo, Massuia estava no local quando começou uma discussão com funcionários e clientes. A motivação apontada pela denúncia foi considerada fútil e relacionada a um desentendimento no estabelecimento.
Após sair da loja, o então policial federal teria retornado armado. Segundo o processo, ele utilizou uma pistola Glock calibre 9 mm pertencente à Polícia Federal e começou a efetuar disparos contra pessoas que estavam na conveniência.
As imagens das câmeras de segurança registraram parte da ação. Clientes aparecem correndo e tentando se proteger dos tiros.
Segundo a denúncia, os disparos atingiram ou foram direcionados contra sete pessoas que sobreviveram. No deck do estabelecimento, Massuia atirou contra André Muniz Fritoli e Milena Christie Brotto. André foi atingido e morreu. Milena sobreviveu.
A acusação sustenta que os disparos foram feitos contra pessoas que estavam em um momento de lazer e que algumas delas chegaram a estar caídas no chão, sem possibilidade de reação.
André tinha 32 anos e havia acabado de sair de um show
André Muniz Fritoli estava com a namorada quando decidiu parar no posto para fazer um lanche depois de sair de um show.
O fotógrafo tinha 32 anos, trabalhava com eventos e morava com os pais e o irmão. A família conta que ele tinha planos para o futuro e que a morte provocou uma ruptura que, quatro anos depois, ainda é sentida.
Em entrevista à Ric RECORD, a mãe de André, Greyce Fritoli, falou sobre a dor de perder o filho e afirmou que ainda se lembra das imagens do ataque.
“Você leva o meu menino. Você leva o meu menino. Por quê, Deus?” Lamenta a mãe.
Greyce também criticou a atuação de Massuia e afirmou esperar que o julgamento resulte em condenação.
A família é representada pelos advogados Elias Mattar Assad, Thaise Mattar Assad, Eduardo Antonio Perine, Rogério Nicolau, Edson Luiz Facchi Jr. e Maria Teresa dos Santos Vicari, entre outros integrantes da assistência de acusação.
Em nota, os advogados afirmaram que o processo está dentro da legalidade e que o Ministério Público e a assistência de acusação esperam a condenação de Massuia pelos atos que classificam como “injustificáveis”.
O que diz a defesa de Ronaldo Massuia
A defesa do ex-policial federal apresenta uma versão diferente para o que aconteceu.
Em entrevista ao repórter Ricardo Pereira, da Ric RECORD, o advogado Heitor Bender afirmou que Massuia é diagnosticado com alcoolismo e transtorno de estresse pós-traumático. Segundo ele, os problemas emocionais já existiam antes do ataque.
“Esse homem virou uma bomba-relógio que poderia explodir a qualquer momento”, afirmou o advogado.
A defesa sustenta que a Polícia Federal tinha conhecimento das condições psicológicas do então agente e que ele deveria ter sido afastado.
O advogado também afirmou que a tese apresentada no Tribunal do Júri não busca simplesmente a absolvição de Massuia, mas que ele seja submetido a tratamento e internação, em vez de cumprir uma eventual pena em unidade prisional.
Durante o primeiro dia do julgamento, a defesa também apresentou questionamentos sobre documentos e vídeos que teriam sido incorporados ao processo. Segundo Bender, a defesa alegou que alguns documentos de processos sigilosos foram juntados de maneira irregular e que determinados vídeos não poderiam constar nos autos.
A magistrada responsável pelo julgamento acolheu parcialmente um dos pedidos e determinou a retirada de um vídeo, além de autorizar a substituição de uma testemunha de defesa que não foi localizada.
Ex-policial diz que não se lembra dos disparos
Em uma entrevista exclusiva à Ric RECORD realizada no Complexo Médico Penal de Pinhais, Ronaldo Massuia falou pela primeira vez sobre o caso após quatro anos.
Durante a conversa, exibida pelo Balanço Geral, ele reconheceu ser a pessoa que aparece nas imagens de segurança, mas afirmou não se lembrar do momento dos disparos.
Questionado se poderia ser chamado de assassino, respondeu: “Não.”
Ao ser perguntado sobre o motivo, disse que não se recorda do que aconteceu naquele momento.
Massuia também afirmou que reconhece fisicamente a si mesmo nas imagens, mas que não consegue associar as cenas à própria consciência ou vontade.
“Eu não consigo me entender por que tirar a vida de uma pessoa que eu nunca vi na vida”, diz o ex-policial.
Massuia afirmou ainda estar arrependido e pediu perdão à família de André. “Peço perdão e arrependimento para essa mãe e é do fundo do meu coração.”
Durante a entrevista, Massuia contou que já enfrentava problemas relacionados ao consumo de álcool e afirmou ter passado por um episódio que, segundo ele, desencadeou transtorno de estresse pós-traumático após uma abordagem policial em Santa Catarina.
Ele, porém, também admitiu que não estava em tratamento psicológico ou psiquiátrico na época do ataque. Ao falar sobre a situação atual, afirmou acreditar que é uma pessoa doente e que precisa de tratamento.
O que está sendo discutido no Tribunal do Júri
O julgamento deve analisar se Massuia tinha consciência e capacidade de compreender os próprios atos quando efetuou os disparos.
A acusação sustenta que ele agiu de forma consciente e deliberada, enquanto a defesa tenta demonstrar que problemas psiquiátricos e o consumo de álcool comprometeram sua capacidade no momento do crime.
A responsabilidade criminal e as circunstâncias do ataque serão analisadas pelo Conselho de Sentença.
O julgamento começou com a fase de requerimentos e, após a pausa para o almoço, estavam previstas as oitivas das testemunhas de acusação. A defesa informou que o interrogatório de Massuia deve ocorrer apenas no final dos trabalhos, possivelmente na sexta-feira (11), dependendo do andamento das audiências.
O julgamento reúne 18 testemunhas de defesa e cinco de acusação, além dos depoimentos das vítimas. A expectativa é de que os debates entre acusação e defesa ocorram somente na sexta-feira, podendo avançar pela madrugada.
Ao final, caberá aos sete jurados decidir se Massuia deve ser condenado ou absolvido pelas acusações que o levaram ao Tribunal do Júri.
Ronaldo Massuia foi demitido da Polícia Federal
Além do processo criminal, Massuia também respondeu a um procedimento administrativo dentro da Polícia Federal.
Em abril de 2025, ele foi demitido da corporação por decisão do então ministro da Justiça, Ricardo Lewandowski. A decisão administrativa considerou que o ex-agente havia cometido infrações incompatíveis com a função policial e que teria se valido de sua condição de funcionário público. Desde o ataque, Massuia permanece preso.
Com informações da Banda B, parceira do Portal aRede.
Confira um resumo da notícia
Início do julgamento: O ex-policial federal Ronaldo Massuia Silva começou a ser julgado nesta quarta-feira (9), em Curitiba, pelo assassinato do fotógrafo André Muniz Fritoli e por sete tentativas de homicídio ocorridas em um posto de combustíveis em maio de 2022.
Argumentos da defesa e da acusação: A acusação pede a condenação do réu por homicídio triplamente qualificado, enquanto a defesa alega que ele sofre de alcoolismo e transtorno de estresse pós-traumático, afirmando que Massuia não tinha plena consciência dos atos e solicitando tratamento em vez de pena prisional.
Dinâmica do Tribunal do Júri: O julgamento, previsto para durar três dias, conta com o depoimento de testemunhas e vítimas, com a expectativa de que o interrogatório do réu e a decisão final do Conselho de Sentença ocorram na sexta-feira (11).



