Brasileiros no exterior relatam o que mudou com o coronavírus | aRede
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Brasileiros no exterior relatam o que mudou com o coronavírus

Da América do Norte e da Europa, ponta-grossenses e cidadãos de outras cidades da região contam como cada país está enfrentando a pandemia

Gratte-ciels, Villeurbanne, Lyon.
Gratte-ciels, Villeurbanne, Lyon. -

Da Redação

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Da América do Norte e da Europa, ponta-grossenses e cidadãos de outras cidades da região contam como cada país está enfrentando a pandemia

Espanha 

No noroeste da Espanha, na cidade de Corunha, mora a ponta-grossense Fabiane Carla Rodrigues Ruiz, de 35 anos, com suas duas filhas, de 10 e 13 anos de idade. Apesar das fortes medidas de isolamento decretadas no país, os casos de coronavírus não param de subir, já são mais de 28 mil infectados, e 1756 mortos.

O exército e a polícia estão nas ruas verificando se não há pessoas para fora de suas casas sem autorização – concedida em casos pontuais, como para ir ao supermercado ou farmácia, ou se for profissional de alguma área essencial, como da saúde. No caso de descumprimento, a multa varia de 600 a mil euros, havendo ainda a possibilidade de prisão.

Nos supermercados, a entrada é controlada e quantidade de produtos por cliente também é limitada. Os produtos frescos, como carnes e verduras são os mais difíceis de encontrar. Álcool em gel, luvas e máscaras não se encontram em nenhum lugar físico.

As aulas foram suspensas e para tentar proteger as filhas, quando sai da residência, Fabiane toma o máximo de precaução. “Quando chegar em casa tem que se lavar, no meu caso eu tinha vindo da rua, fui tomar banho sem permitir que minhas filhas me tocassem. A roupa que eu vim da rua eu coloquei tudo dentro da lavadora”, comenta a brasileira.

O governo proibiu as empresas de demitirem seus funcionários e distribui alimento para as pessoas que estão desamparadas. No caso daquelas que moram sozinhas, também são enviados servidores para ajudá-las em atividades domésticas e com compras. O auxílio aos mais velhos também parte da população, que sem nenhum interesse se dispõe para fazer o mercado e ajudar no que for preciso.

Fabiane demonstra preocupação ao pensar no que pode acontecer no Brasil com o avanço da doença. “Eu vejo que o brasil não está tomando em sério, está de brincadeira, acham que não é nada, e o Brasil não está preparado, a saúde não está preparado. Aqui na Espanha, eles passaram por guerra, eles viveram, eles sabem o que é passar fome, o Brasil não sabe e não está preparado”, comenta.

Canadá

Neste domingo (22), o Canadá registrava 1470 casos confirmados de coronavírus, com 21 mortes. O brasileiro Pedro Bertolli, de 28 anos, há um ano e meio mora na cidade de Québec, capital da província que leva o mesma nome e que soma cinco mortes pelo covid-19.

Logo que surgiram os primeiros casos, o governo local tomou uma série de medidas para tentar impedir a propagação do vírus. Escolas e faculdades tiveram as aulas suspensas por tempo indeterminado. As fronteiras e locais públicos como academias e estações de ski foram fechadas no dia 15 de março.

Às empresas foi sugerido que começassem a se organizar para que os profissionais trabalhassem em casa, situação que para a maior parte da população não é nova. Durante o inverno rigoroso as tempestades e chuvas congelantes tornam impossível sair de casa para trabalhar.

A relação com o frio, com gripes e resfriados frequentes também fez com que as pessoas por lá se habituassem a praticar as recomendações de higiene tão reforçadas agora, como tossir levando o braço à boca e o uso do álcool em gel. O produto inclusive é gratuito em alguns supermercados da cidade.

De acordo com o relato do brasileiro, os hospitais locais têm boa estrutura, entretanto, já sofriam com a falta de profissionais de saúde antes, o que deve se mostrar um problema ainda maior agora. 

Usando a China como modelo, Pedro sabe que a luta contra o coronavírus vai demorar meses, e reforça a importância das pequenas atitudes individuais. “Se cuide e seja responsável com você mesmo que consequentemente os outros também estarão bem”.

EUA

Os Estados Unidos se aproximam de contabilizar 33 mil casos de pessoas infectadas com o novo coronavírus, com 412 mortes confirmadas. É lá, na cidade de Oldsmar, na Flórida, que reside o empresário carambiense Orlei Ventura Ribeiro, de 32 anos.

O brasileiro relata que a cidade acompanhou as notícias sobre o coronavírus, mas não teve um período de preparação, apenas quando a Disney anunciou o fechamento dos seus parques que a ‘chave virou’ para o que realmente estava acontecendo.

Uma das primeiras ações tomadas pelo governo foi pedir a população que procurasse comprar o que era necessário nos pequenos comércios, porque eles seriam os mais prejudicados. “Entao, diariamente estão pedindo para que, preferencialmente, optemos por small business”, comenta Orlei.

Orientações também foram passadas para que o mesmo espaço não fosse compartilhado por mais de dez pessoas, além do fechamento de muitos estabelecimentos como restaurantes, academias, shoppings e praias.

Assim como em outros lugares, o movimento nos mercados aumentou, e apesar da maioria dos alimentos serem encontrados normalmente, alguns produtos de limpeza como desinfetante, sabonete, e álcool em gel desapareceram. “Tem vídeo de pessoas brigando por papel higiênico na fila do mercado também. Então dizer que fora do Brasil isso não acontece é mentira”, conta Orlei.

No celular do empresário mensagens repassadas pelo governo chegam a todo momento via aplicativo, passando novas instruções e atualizações. Mesmo com os números de infectados se multiplicando diariamente, o empresário é positivo: “Eu acredito que isso vai passar! Eu sou do tipo que o copo está sempre meio cheio. Com a crise também vem a oportunidade! Observemos!”.

Para Orlei o que será determinante na superação desse momento, é a união. “Agora não é hora de politizar! Não importa se você é direita ou esquerda, se é a favor ou contra o governo. Agora é hora de fraternidade, solidariedade e empatia! Só assim esse período difícil poderá ser superado de uma forma menos nociva a todos”, comenta.

 Alemanha      

Decretado no sábado (21), o toque de recolher esvaziou as ruas de Munique, capital da Baviera, maior estado da Alemanha, e onde reside o brasileiro Cristhian Rafael Gomes Bonilha, de 25 anos. O país registra mais de 27 mil casos do novo coronavírus, com 93 mortes.

Agora, as pessoas não podem sair de casa, salvo algumas exceções como ir ao mercado, farmácia, ou praticar exercício físico ao ar livre, sozinhas. Anteriormente, o governo tentou controlar a propagação do vírus com o fechamento do comércio e locais de lazer, além de instruções para que as pessoas não se aglomerassem.

O apelo, entretanto, não foi levado a sério por todos. Quando Cristhian foi comprar alimento na última sexta (20) - quando o toque ainda não havia sido estabelecido – as ruas não estavam tão vazias como ele imaginava. “Fui ao mercado e vi pessoas (inclusive idosos) na rua interagindo, então eu diria que nem todos estão seguindo as instruções à risca”, comenta.

Na empresa em que o engenheiro de software trabalha, ações já vinham sendo tomadas há várias semanas. Comunicados internos informavam sobre o que estava acontecendo, medidas de higiene foram redobradas, como a quantidade de vezes que os recintos eram limpos e o posicionamento de álcool em gel nos corredores e escritórios. E uma semana antes das primeiras medidas do governo para fechamento de alguns estabelecimentos, a empresa já havia dispensando os funcionários para que trabalhassem em casa, fornecendo laptops e monitores, tornando possível a realização das atividades.

Vendo os dias passar pela janela do apartamento que divide com um amigo, o jovem conta que sua maior preocupação é com os pais que moram em Curitiba, onde os casos de Coronavírus têm aumentado. “Sabemos que o sistema de saúde pode não ser capaz de suportar um número muito alto de pessoas ao mesmo tempo”, comenta. Ele também espera que o momento traga aprendizados e mudanças de prioridades para o mundo. “Espero que os governos invistam mais na área da saúde e que as pessoas se conscientizem mais sobre suas higienes pessoais”.

Irlanda 

Na pequena Vila de Enfild, no condado de Meath, na Irlanda, mora a brasileira Silvana Nogueira Duda. Já são quase 800 pessoas infectadas pelo vírus e três mortes no país.

De acordo com o relato da brasileira, a população está bastante assustada. “Tenho uma amiga que desde que começou lá na china ela já estava guardando comida, ela anda em pânico”, comentou Silvana, que diz que os amigos mais calmos, são os religiosos, que encontram a paz na fé cristã.

O desespero de alguns fez com nas duas primeiras semanas da pandemia o estoque de muitos produtos desaparecesse das prateleiras. Aos poucos, eles foram sendo repostos, e nos mercados além do pedido de distanciamento que está escrito por todos os lados, há álcool em gel nas entradas e saídas. Nas farmácias os clientes não podem tocar em nada, é o atendente que procura e entrega o produto para a pessoa.

O governo aos poucos vai tomando ações diferentes à medida que os números mudam. Os tradicionais pubs e alguns restaurantes foram fechados, e os idosos e pessoas do grupo de risco foram colocados em quarentena.

Silvana passa o dia todo em casa com o filho, tentando encontrando formas de distraí-lo e se entreter também, a leitura é um dos passatempos favoritos dela. Sair de casa, só quando é preciso comprar alguma coisa, mas o filho não sai em nenhuma circunstância. “Sabe como é criança, a gente vai no supermercado e fala, não toca nisso, não pega, e eles tão brincando, pegando em tudo”, comenta.

Na sexta foi o último dia de funcionamento do restaurante em que o esposo de Silvana trabalha. Em casa, ele assim como os demais moradores que ficarão desempregados vão receber 210 euros por semana. A previsão do governo é usar o dinheiro, emprestado da comunidade europeia, para auxiliar a população por seis semanas.

De acordo com Silvana, a ajuda é bem menor do que o salário que a maioria ganha, “mas as coisas mudam e a gente vai ter que economizar bastante”.

Reino Unido 

A assistente pessoal, Fabiola Bernadi, mora em Londres, capital inglesa, há 10 anos. Ao relatar as ações tomadas até o momento pelo governo, ela demostra apreensão, pelo que, segundo ela, vai na contramão de outros países europeus. O Reino Unido contabiliza mais de 5 mil casos de coronavírus, com 281 mortes confirmadas.

Apesar do clamor da população por medidas mais duras, a cidade segue funcionando. Apenas na última sexta (20), foi ordenado o fechamento de restaurantes, bares e áreas de lazer. Antes disso, atitudes foram tomadas apenas por iniciativa de empresas, que dispensaram seus funcionários para trabalhar em ‘home office’, e da própria população, como Fabiane, que desde a última quarta não levava a filha à escola, mesmo com pressão por parte da instituição para que a menina comparecesse. As aulas na rede pública, foram suspensas oficialmente na sexta.

Apesar do governo seguir com marcha lenta nas medidas de prevenção, os londrinos esvaziaram os supermercados. Produtos de limpeza, como papel higiênico não são encontrados há semanas. Os alimentos também sumiram, arroz, macarrão, e alguns outros são achados apenas em algumas lojinhas de bairros. Situação preocupante, que serve de alerta. “Não seja egoísta, não vá no supermercado e compre tudo, o que você quer ou não quer, o que você precisa e não precisa, pense nas pessoas que não têm dinheiro pra estocar, ou não tem força física pra levar uma sacola pesada pra casa, e precisa ir várias vezes ao supermercado”, ressalta a brasileira.

Em meio à atitudes que revelam o pior lado do ser humano, uma ação municipal está ajudando pessoas em vulnerabilidade. Cerca de 300 quartos de hotéis de Londres foram disponibilizados neste fim de semana para moradores de rua. A importância do pensamento coletivo é reforçado por Fabiana: “Se você tem dez litros de álcool em gel e seu vizinho não tem nada, ele não vai poder se proteger, e o mínimo de contato que ele tenha com você, vai te contaminar”.

França

O professor universitário Daniel Malanski mora em Lyon, na França, desde 2014. Na escalada do coronavírus o país registra mais de 16 mil casos confirmados e 674 mortes.

Os moradores da França estão confinados desde a última terça-feira (17) e só podem sair de casa com autorização. Em um sistema parecido com o que é aplicado na Espanha, caso o cidadão seja encontrado na rua sem um formulário que justifique a saída, ele é multado. A permissão é concedida em cinco situações: compras de primeira necessidade (comida e remédios), busca de ajuda médica (para o coronavírus ou outra doença), auxílio à familiares (como em casos de pais separados, ou ajuda à idosos), prática de exercícios físicos (próximo da casa e sozinho) ou para levar os pets para passear.

Daniel tem um casal de filhos pequenos, e conta que uma das maiores dificuldades do isolamento é manter as crianças ocupadas. “Quem sente mais são as crianças, porque não tem escola, creche, não dá para ir no parque, então elas acabam ficando irritadas com o passar do tempo, e essa parte é a mais difícil, tentar achar atividades para fazer com os filhos e tentar continuar trabalhando de casa”, relata Daniel.

De acordo com o professor, o governo ainda não disponibilizou nenhuma ajuda financeira para quem precise, mesmo assim, a maioria da população tem se mostrado favorável às medidas que vêm sendo adotadas. “Alguns acham que ele demorou pra agir, outros que ele foi precipitado com o confinamento. Mas, no geral, o que eu percebi por aqui foi que a população e a mídia apoiaram as medidas e que foram tomadas no momento em que deveriam ser tomadas. Se eles foram suficientes, só o tempo dirá. Existem países, como o Japão e a Coreia do Sul, que parecem ter se saído melhor que a França na luta contra a pandemia. Existem outros, como o Reino Unido e a Holanda, que têm evitado o confinamento e adotado medidas como o fechamento de escolas e boa parte do comércio pra evitar um colapso no sistema de saúde. Só o tempo dirá quais medidas são as mais eficazes”, comenta Daniel.

Apesar das dificuldades enfrentadas, e da mudança na rotina e no cenário da cidade, que para o professor passam a “impressão de um país em guerra ou de um cenário pós-apocalíptico”, Daniel destaca que é importante acreditar que essa situação voltará, em algum momento, ao normal. “O melhor é tentar não pensar nisso agora e tentar aproveitar dos pequenos detalhes como um dia de sol na varanda ou o fato de ter mais tempo pra preparar o almoço”, explica Daniel.

Enquanto conversava com a nossa equipe, Daniel relatou ser interrompido pelo barulho dos vizinhos que saíram nas janelas e sacadas para aplaudir e agradecer os funcionários da saúde.

Itália

Depois da China, a Itália se tornou o país com mais infectados pelo  coronavírus. Estando neste domingo próximo da casa dos 60 mil infectados e mais de 5 mil vítimas fatais.

Mário Pereira, de 61 anos, trabalha junto à embaixada do Brasil em Roma como responsável e guardião do Monumento Votivo Militar Brasileiro de Pistoia, na região da Toscana. Não nasceu no Brasil, o pai sim, foi para o continente europeu durante a Segunda Guerra Mundial e não voltou mais, todavia, o coração de Mário é metade brasileiro.

Na cidade de Pistoia, foram tomadas muitas medidas de segurança, como no resto da Itália, mas que se tornaram evidentemente insuficientes. Primeiramente, fechamentos de escolas, regras de higiene, sem grandes restrições. Duas semanas depois, foi decretada a proibição de circulação (exceto por motivos de primeira necessidade), o que segundo Mário, também não adiantou. “As pessoas acharam que era tipo umas férias e foram aproveitando o tempo livre. Os litorais lotaram logo, favorecidos pelas condições meteorológicas”, relembra.

Posteriormente, foi lançado um apelo para convencer as pessoas que era preciso ficar em casa, pois essa era a única medida que impedia a circulação do vírus. Mas foi o crescimento disparado no número de infectados e mortos que parece ter feito com que as pessoas se conscientizassem.

Na região em que Mário reside a situação ainda está controlada, mas devido ao número de óbitos, a previsão é que o sistema entre em crise em breve. No país, o maior número de casos está concentrado na região da Lombardia. Os hospitais não conseguem mais atender a todos os casos graves e há uma seleção entre os que chegam, com muitos sendo deixados ao próprio destino.

Mário aponta que o sistema de saúde do país é um dos melhores do mundo. “Mesmo assim, insuficiente e sem preparo para enfrentar uma emergência deste tipo. Me vem pensar o que pode acontecer no meu Brasil, onde não tem uma estrutura sanitária adequada. O que pode acontecer quando o vírus for se espalhar nas favelas, nas áreas mais pobres do país. Isto aperta meu coração de uma forma que poucos podem entender”, relata.

Antes de ser proibida a circulação, Mário havia ido esquiar com a neta em uma área que, depois, foi considerada de risco por ter casos positivos para o coronavírus em pessoas que estiveram lá. Desde então, ele precisou ficar em quarentena, sem poder sair de casa, por ser considerado sujeito a risco de contágio. Isolamento que trouxe muitas reflexões. “Todos queremos voltar à nossa vida normal. Por isso é preciso manter uma postura racional e consciente para consigo e com os outros. Temos tecnologia suficiente para nos vermos sem precisar nos encontrar", comenta Mário.

Na varanda da casa, envolta por um jardim, ele deixa estendidas, lado a lado, as bandeiras dos seus dois países. “Aqui a gente expõe a bandeira italiana como símbolo de união. Não seria mal lançar uma campanha no Brasil de que quem expõe a bandeira nacional quer servir o próprio pais cumprindo as indicações do serviço de saúde. Nada de político, apenas uma tomada de consciência de ser um pais grande, que está correndo um grave risco”, sugere.

Com bastante experiência de vida, e muitas histórias na memória que ouviu  de quem sobreviveu à guerra, Mário espera ver um novo mundo quando tudo isso passar. “Espero que a gente deixe de correr atrás de dinheiro e poder e se dedique às coisas que valem na vida. Relações humanas, principalmente. Temos tudo para sermos felizes, e estamos em busca de algo que não existe. É momento de tentar reencontrar os valores que esta vida frenética tirou da gente”.

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