Conselheiro aponta mobilidade urbana como questão de saúde pública em Ponta Grossa
Mário Rodrigues Montemór Netto compara a estrutura de Ponta Grossa ao sistema circulatório do corpo humano em avaliação de reportagem especial do Grupo aRede

O conselheiro da área da Saúde do Grupo aRede, Mário Rodrigues Montemór Netto, compara a estrutura de mobilidade de Ponta Grossa ao sistema circulatório do corpo humano. Na análise da reportagem especial "Caminhos do Pedal: entre o potencial turístico e os desafios de conexão em PG", o médico defende que, assim como os vasos precisam estar conectados para garantir a circulação adequada de sangue e oxigênio, ciclovias, calçadas e demais estruturas de mobilidade ativa precisam formar uma rede contínua e segura para garantir deslocamentos e qualidade de vida.
Para ele, a descontinuidade da infraestrutura cicloviária, o avanço dos equipamentos autopropelidos e a falta de integração entre mobilidade, áreas verdes e planejamento urbano devem ser tratados também sob a perspectiva da saúde pública.
Confira abaixo a opinião na íntegra de Mário, que é médico, Diretor de Saúde da Acipg, presidente da AMPG, professor do curso de Medicina da UEPG e conselheiro de Saúde do Portal aRede:

"DIAGNÓSTICO URBANO: O Sistema Capilar da Mobilidade, a ‘Cidade de 15 Minutos’ e a Regra "3-30-300" para a Saúde Única
Por: Dr. Mário Rodrigues Montemór Netto
Conselheiro de Saúde do Grupo aRede, Diretor de Saúde da ACIPG, Presidente da Associação Médica do Paraná – Regional Ponta Grossa (AMPG) e Professor do curso de Medicina da UEPG.
Introdução: A Fisiologia da Malha Urbana
Na fisiologia humana, enquanto as grandes artérias transportam volumes maciços de sangue sob alta pressão, é a intrincada rede do sistema capilar que garante a entrega minuciosa de oxigênio e nutrientes a cada célula do corpo. Ao transpormos essa lógica biológica para o nosso organismo urbano, se as rodovias e avenidas de grande fluxo representam as artérias logísticas de Ponta Grossa, a mobilidade ativa (ciclovias, ciclofaixas e passeios de pedestres) constitui esse sistema capilar vital.
Contudo, a recente radiografia realizada pelo Portal aRede revela um diagnóstico clínico e urbanístico que demanda atenção: a nossa rede capilar de mobilidade padece de graves rupturas e descontinuidades estruturais.
1. A "Isquemia" da Descontinuidade e a Prevenção da Epidemia do Trauma
Ponta Grossa conta atualmente com 53,5 quilômetros de infraestrutura cicloviária. Trata-se de um patrimônio viário expressivo e um avanço importante, mas que padece de uma patologia severa: a descontinuidade da malha. Como cirurgicamente diagnosticou o arquiteto e urbanista Henrique Zulian, conselheiro do Grupo aRede, "quilometragem sem conectividade não gera transporte de massa".
Na prática médica, um vaso sanguíneo que termina abruptamente causa isquemia (falta de oxigenação), necrose e colapso do tecido. No urbanismo, uma ciclofaixa que "desaparece" de forma repentina lança o ciclista diretamente no tráfego pesado de veículos motorizados de mais de uma tonelada.
Do ponto de vista da medicina preventiva e da traumatologia, essa falha de planejamento é a causa primária da "Epidemia do Trauma". A lacuna na infraestrutura contínua não é apenas um erro de projeto; é uma questão de Justiça de Mobilidade e um problema crônico de saúde pública. A exposição de ciclistas e pedestres — na imensa maioria, trabalhadores — a trechos desprovidos de proteção física gera um fluxo constante de politraumatismos, traumatismos cranioencefálicos (TCE) e fraturas complexas, sobrecarregando de forma implacável os prontos-socorros, centros cirúrgicos e leitos de UTI do SUS e da rede suplementar.
2. A Nova Fisiologia Urbana: Autopropelidos, a Lei Municipal nº 16.027/2026 e a "Arritmia" do Trânsito
O metabolismo de mobilidade do nosso município passa por uma mutação acelerada com a proliferação massiva de equipamentos autopropelidos, como patinetes elétricos, e-bikes e monociclos. Embora vitais para viabilizar pequenos deslocamentos, esses dispositivos alteram profundamente a dinâmica espacial.
Uma extensa revisão científica recém-publicada pela Simon Fraser University (Canadá, 2022) alerta que a falta de infraestrutura segregada adequada é a principal barreira para a adoção sustentável desses modais e a maior causadora de conflitos. Conter no mesmo espaço limitado a tração humana (pedestres e bicicletas convencionais) e veículos elétricos que atingem facilmente 20 km/h gera uma perigosa "arritmia" de velocidades, aumentando a fricção cinética e o risco de colisões severas.
Nesse cenário, a Lei Municipal nº 16.027/2026, proposta pelo vereador Léo Farmacêutico com base nas resoluções do CONTRAN, atua como uma indispensável prescrição preventiva:
- Uso Obrigatório de Capacete: Medida clinicamente inegociável. A física do trauma comprova que a energia dissipada na queda de um patinete a 20 km/h contra o meio-fio é suficiente para desencadear um TCE severo ou letal.
- Limites de Velocidade: Fixação de 6 km/h em calçadas (prioridade absoluta ao pedestre) e 20 km/h nas ciclovias.
- Dispositivos de Segurança: Exigência de iluminação, sinalização refletiva, campainha e sistema de frenagem.
Entretanto, as normas de conduta precisam estar em sintonia com a engenharia da via. A legislação exige fiscalização contínua, ações pedagógicas e um planejamento técnico de longo prazo para a readequação e o alargamento das faixas, garantindo ultrapassagens seguras e infraestrutura dedicada.
3. Evidência Científica Internacional: Pirâmide Invertida e a "Cidade de 15 Minutos"
A ciência urbana e a epidemiologia de tráfego já estabeleceram o tratamento adequado. Estudos científicos de referência internacional — como os do pesquisador Mark Nieuwenhuijsen na prestigiada revista Environment International (2021) — demonstram que as cidades mais saudáveis do mundo estão aplicando a Inversão da Pirâmide de Mobilidade.
Isso significa atualizar a lógica espacial do século passado: o planejamento orçamentário moderno deve colocar pedestres, pessoas com deficiência e ciclistas no topo absoluto das prioridades, reavaliando de forma equilibrada o espaço destinado ao automóvel particular.
Essa inversão é o pilar da "Cidade de 15 Minutos", modelo urbanístico em que o cidadão consegue satisfazer suas necessidades essenciais — trabalho, educação, serviços de saúde e lazer — a uma distância de até 15 minutos a pé ou de bicicleta. Quando a rede capilar é segura, a mobilidade ativa atua como uma vacina de alto custo-benefício contra a obesidade, hipertensão, diabetes tipo 2, transtornos de ansiedade e doenças respiratórias.
4. A "Sutura" Urbana, a Regra "3-30-300" e o Paradigma da Saúde Única (One Health)
A legislação disciplina a conduta, mas não constrói caminhos. O tratamento definitivo para as fraturas viárias de Ponta Grossa exige Neuroplasticidade Urbana. O planejamento público deve atuar como um cirurgião vascular, realizando a "sutura" dos trechos isolados da nossa malha.
Projetos estruturantes, como o Projeto Interparques (orçado preliminarmente em R$ 120 milhões para o longo prazo), apontam para esse caminho ao integrar a macrodrenagem dos rios Olarias, Pilão de Pedra e Ronda à criação de parques lineares, ciclovias e eixos verdes. Para guiar essas intervenções sob o rigor científico, a saúde pública adota a Regra "3-30-300":
- 3 Árvores: Cada cidadão deve conseguir visualizar pelo menos 3 árvores de porte de sua janela.
- 30% de Cobertura Vegetal: Cada bairro deve possuir no mínimo 30% de cobertura de copa de árvores para purificar o ar e mitigar ilhas de calor.
- 300 Metros: Nenhuma residência deve estar a mais de 300 metros de um parque, praça ou via verde acessível.
Essa métrica reflete com precisão o princípio estrutural da Saúde Única (One Health) da OMS: a premissa inegociável de que a saúde humana, o bem-estar animal e a sustentabilidade ambiental constituem um único metabolismo indissociável.

Conclusão e Diretrizes Técnicas para o Conselho de Saúde
Uma cidade verdadeiramente "Inteligente" não avalia o avanço de sua infraestrutura cicloviária apenas pelo acúmulo de quilômetros pavimentados, mas sim pela funcionalidade de sua conexão — afinal, espaços isolados representam planejamento ineficaz, e não política de saúde pública preventiva. O valor real de uma via reside em sua capacidade fisiológica de permitir que o cidadão pulse junto com o ecossistema urbano, deslocando-se com autonomia, respirando ar limpo e sem arriscar a própria vida no trânsito.
Como Conselheiros de Saúde, propomos um pacto pela vida e recomendamos formalmente aos gestores públicos e aos órgãos de controle as seguintes diretrizes construtivas:
1. Foco Estratégico na "Sutura" de Trechos: Condicionar o planejamento e a liberação de recursos de novas ciclovias à conexão imediata dos 53,5 km já existentes, eliminando os pontos de descontinuidade que geram acidentes.
2. Adequação Desenho-Específica para Autopropelidos: Promover estudos para o alargamento de vias de grande movimento e a implantação de sinalização clara de prioridade, prevenindo conflitos entre pedestres, bicicletas e equipamentos elétricos.
3. Comitê Intersetorial de Saúde Única: Estabelecer um Grupo de Trabalho Permanente, reunindo as secretarias de Saúde, Planejamento e Meio Ambiente, para submeter projetos viários à avaliação de seu impacto na redução de internações por traumas e morbidades crônicas.
O nosso corpo social exige conexão, fluidez verde e respeito absoluto à vida. Somente com planejamento integrado evitaremos que o adoecimento e a letalidade sejam vistos como custos normais do nosso desenvolvimento".



