Caminhos do Pedal: entre o potencial turístico e os desafios de conexão em PG | aRede
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Caminhos do Pedal: entre o potencial turístico e os desafios de conexão em PG

Com 53,5 quilômetros de ciclovias e ciclofaixas, Ponta Grossa mantém a extensão da rede desde 2025; ciclistas apontam dificuldades de conexão e segurança

A cidade possui atualmente 53,5 quilômetros de ciclovias e ciclofaixas
A cidade possui atualmente 53,5 quilômetros de ciclovias e ciclofaixas -

Milena Batista

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Para quem pedala por Ponta Grossa, o desafio nem sempre está em encontrar uma ciclovia. Em muitos casos, a dificuldade começa justamente quando ela termina.

A cidade possui atualmente 53,5 quilômetros de ciclovias e ciclofaixas, segundo a prefeitura. São aproximadamente 20 quilômetros de ciclovias e 33,5 quilômetros de ciclofaixas. O número foi informado pelo município em dezembro de 2025, após a entrega de um novo trecho de 1,3 quilômetro no bairro Uvaranas.

Desde então, a extensão oficial da rede não aumentou. O dado ajuda a revelar um dos principais desafios da mobilidade sobre duas rodas no município. Embora existam estruturas em diferentes regiões e projetos de expansão, a própria administração reconhece que a rede ainda apresenta trechos implantados de forma descontínua e em etapas.

Ao mesmo tempo, a bicicleta ganhou diferentes funções na cidade. É utilizada para deslocamentos, esporte e lazer e como instrumento de turismo, especialmente no distrito de Itaiacoca.

Em 2022, Ponta Grossa entregou a estrutura cicloviária Estélio Viatroski, com 17,6 quilômetros, ligando o bairro Uvaranas ao Passo do Pupo. No mesmo ano, foi inaugurado o Circuito das Nascentes, com 47,6 quilômetros de percurso voltado ao cicloturismo.

Esses números, porém, não devem ser simplesmente somados aos 53,5 quilômetros atuais. O Circuito das Nascentes inclui estradas rurais e possui outra finalidade, enquanto a extensão divulgada atualmente pela prefeitura corresponde à rede de ciclovias e ciclofaixas.

Agora, além de discutir a expansão e a conexão da infraestrutura, Ponta Grossa também precisa lidar com novos usuários desses espaços. Patinetes, monociclos e outros equipamentos autopropelidos passaram a ter regras específicas após a aprovação da Lei Municipal nº 16.027, em 2026.

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Uma rede de 53,5 quilômetros

A infraestrutura atual está relacionada às diretrizes do Plano de Mobilidade Urbana, aprovado em 2022.

Segundo a Prefeitura, os 53,5 quilômetros são compostos por aproximadamente 20 quilômetros de ciclovias e 33,5 quilômetros de ciclofaixas.

As ciclovias possuem espaço fisicamente separado dos veículos, enquanto as ciclofaixas são demarcadas na própria via. Na prática, os dois modelos podem cumprir funções importantes, mas apresentam diferentes níveis de separação em relação ao tráfego de veículos.

Entre os principais eixos apontados pelo município estão Uvaranas–Itaiacoca/Estélio Viatroski; Uvaranas–Centro–Lago de Olarias; a ligação pela Avenida Bispo Dom Geraldo Pellanda e pelas ruas Francisco Manoel da Silva, Euclides da Cunha e Lauro Cunha Fortes; o eixo Interparques; e a ligação entre a região da Monteiro Lobato e a Rua Euzébio Batista Rosas.

A existência desses eixos, entretanto, não significa que toda a rede seja contínua. A própria prefeitura informa que há trechos implantados de forma descontínua e em diferentes etapas.

“A ligação do novo segmento de Uvaranas com a Avenida Bispo Dom Geraldo Pellanda está conectada. Entretanto, a rede ainda apresenta trechos implantados de forma descontínua e em etapas”, declarou a prefeitura.

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  • Parque Linear em Oficinas
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A expansão de 2025

Em dezembro de 2025, a prefeitura entregou 1,3 quilômetro de nova ciclofaixa nas ruas Francisco Manoel da Silva, Euclides da Cunha e Lauro Cunha Fortes.

O trecho foi conectado à estrutura existente na Avenida Bispo Dom Geraldo Pellanda. As ruas passaram a ter sentido único em direção ao Centro e receberam sinalização horizontal e vertical, além de cruzamentos pintados em vermelho.

A obra fazia parte de uma rota projetada de aproximadamente 17 quilômetros entre Uvaranas e o Lago de Olarias, passando por diferentes bairros e pela região central.

Ciclofaixa localizada nas ruas Francisco Manoel da Silva, Euclides da Cunha e Lauro Cunha Fortes
Ciclofaixa localizada nas ruas Francisco Manoel da Silva, Euclides da Cunha e Lauro Cunha Fortes |  Foto: Prefeitura Municipal de Ponta Grossa

‘Quilometragem sem conectividade': o desafio da malha cicloviária

Ter 53,5 quilômetros de infraestrutura cicloviária é um dado objetivo, mas ele não mostra sozinho como é a experiência de quem utiliza a bicicleta.

Para um ciclista, não basta encontrar uma ciclofaixa. É preciso conseguir continuar o trajeto quando ela termina.

Uma interrupção pode obrigar o usuário a compartilhar a pista com veículos, procurar outro caminho ou alterar completamente a rota.

Para quem pedala por lazer, isso pode significar apenas um desvio. Para quem utiliza a bicicleta para trabalhar, estudar ou chegar a um equipamento público, a falta de continuidade pode interferir diretamente na escolha do modal.

O arquiteto e urbanista Henrique Zulian, conselheiro do Grupo aRede, coloca a conexão como um dos principais pontos da discussão.

“Uma rede cicloviária precisa, antes de tudo, ser uma rede. Ela não pode ter interrupções. Precisa conectar os bairros, os equipamentos públicos, os locais de trabalho, de lazer e fazer integração com o transporte público.”

Henrique Wosiack Zulian é conselheiro do Grupo aRede na área de Urbanismo
Henrique Wosiack Zulian é conselheiro do Grupo aRede na área de Urbanismo |  Foto: Arquivo/aRede

Na avaliação dele, a segurança também depende do desenho das estruturas.

“Nas vias onde a velocidade dos veículos é maior, é necessária uma separação física. Além disso, a rede precisa ter sinalização, pavimentação, conforto e um desenho que dê segurança para quem está utilizando.”

Zulian considera os 53,5 quilômetros insuficientes para Ponta Grossa.

“A gente tem uma quilometragem que é ínfima para o tamanho da cidade. Ponta Grossa precisa de muito mais.”

Para o arquiteto, entretanto, ampliar a extensão não deve ser o único objetivo. “Quilometragem sem conectividade não gera transporte de massa.”

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A experiência de quem pedala

A ciclista Júlia Pedroso pedala há cerca de dois anos, principalmente por saúde e lazer. Ela conta que costuma preferir regiões rurais e áreas mais afastadas porque encontra menos veículos e se sente mais segura.

“Eu prefiro pedalar em áreas rurais, mais afastadas, porque tem menos movimento e eu me sinto mais segura. Na cidade, dependendo do lugar, o trânsito acaba deixando o percurso mais complicado.”

Na avaliação dela, Ponta Grossa possui poucos espaços destinados aos ciclistas e a falta de conexão entre os trechos interfere na escolha dos trajetos.

“Eu acho a infraestrutura ruim. São poucas ciclovias e ciclofaixas, e muitas vezes elas não estão conectadas. Então você acaba tendo que mudar o caminho para procurar um trecho mais seguro.”

Júlia afirma que evita algumas regiões, especialmente o Centro da cidade, devido ao maior movimento de veículos e à falta de infraestrutura em determinados pontos.

“Eu evito algumas partes da cidade, principalmente o Centro, porque tem bastante movimento e nem sempre tem um espaço adequado para a bicicleta.”

Ela também relata já ter passado por situações de risco durante os pedais.

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  • Falta de conexões atrapalha ciclistas
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Interparques: uma proposta de conexão

Entre os projetos que podem modificar a mobilidade ativa da cidade está o Interparques.

A proposta está inserida em um projeto mais amplo de recuperação ambiental e reurbanização desenvolvido pela Prefeitura em parceria com a Universidade Livre do Meio Ambiente (Unilivre).

O planejamento reúne macrodrenagem, recuperação de fundos de vale, arborização, parques lineares e estruturas para caminhada e circulação de bicicletas.

As bacias dos rios Olarias, Pilão de Pedra e Ronda estão entre as áreas contempladas. As projeções incluem ciclovias, caminhos iluminados e espaços de convivência integrados às intervenções ambientais.

O horizonte estimado para o projeto é de 25 a 30 anos, e a estimativa preliminar de investimento divulgada é de aproximadamente R$ 120 milhões.

Esse valor não representa o custo de uma obra cicloviária já executada. Trata-se de uma estimativa para o conjunto das intervenções previstas.

Para o arquiteto e urbanista Henrique Zulian, a integração entre os espaços é justamente o que pode diferenciar uma estrutura isolada de uma rede.

“Quando você tem uma ciclovia isolada, ela tende a ter um uso mais limitado. Quando você consegue integrar parques, bairros, equipamentos públicos, trabalho, educação e lazer, a bicicleta passa a ter uma função real de transporte.”

Mapa da malha cicloviária do município, divulgado no Plano de Mobilidade Urbana
Mapa da malha cicloviária do município, divulgado no Plano de Mobilidade Urbana |  Foto: Milena Batista

Patinetes e monociclos mudam a dinâmica das ciclovias em PG

Enquanto a expansão da rede permanece em debate, os espaços destinados às bicicletas também passaram a receber novos equipamentos.

Patinetes, monociclos e outros dispositivos autopropelidos ganharam regras específicas em Ponta Grossa com a Lei Municipal nº 16.027, que entrou em vigor em agosto de 2026. A legislação foi baseada no Código de Trânsito Brasileiro e na Resolução n.º 996/2023 do Conselho Nacional de Trânsito.

Entre as exigências estão capacete obrigatório, velocímetro, dispositivo sonoro, iluminação dianteira e traseira, sinalização refletiva e sistema de frenagem eficiente.

Também foram definidos limites de velocidade. Em calçadas compartilhadas devidamente sinalizadas, o limite é de 6 km/h, com prioridade para pedestres. Em ciclovias, ciclofaixas e ciclorrotas, o limite municipal é de 20 km/h, ou outro inferior definido pela autoridade competente.

A circulação em vias com velocidade regulamentada acima de 50 km/h também possui restrições, salvo nas situações previstas pela legislação.

A lei ainda estabelece regras para menores de 14 anos.

Espaços destinados às bicicletas também passaram a receber novos equipamentos
Espaços destinados às bicicletas também passaram a receber novos equipamentos |  Foto: Divulgação

Uma nova disputa pelo espaço

O autor da legislação, vereador Léo Farmacêutico, afirma que a proposta surgiu da preocupação com acidentes e com a falta de conhecimento dos usuários sobre as regras de circulação.

“Esses equipamentos foram chegando e, muitas vezes, eram vendidos como se não tivessem regra nenhuma. A preocupação principal é com a segurança, principalmente dos adolescentes.”

Léo Farmacêutico - Vereador
Léo Farmacêutico - Vereador |  Foto: Arquivo/aRede

Segundo ele, a legislação cria parâmetros de segurança e convivência, mas não determina a expansão da infraestrutura.

“A lei não vem para estimular diretamente a construção de novas ciclovias. A infraestrutura é uma responsabilidade do Executivo. O que a gente estabelece são regras para que esses equipamentos possam utilizar o espaço público com mais segurança.”

Da lei para as ruas

Em setembro de 2026, durante a Semana Nacional de Trânsito, a Superintendência de Trânsito realizou uma blitz educativa na Rua Balduíno Taques.

Agentes municipais, com participação da Guarda Civil Municipal, abordaram usuários de veículos elétricos e equipamentos autopropelidos, orientaram sobre as regras e distribuíram material informativo.

A ação mostra que a nova legislação começou a ser acompanhada por ações educativas.

Mulher é flagrada pilotando autopropelido sem capacete e com criança em Ponta Grossa
Mulher é flagrada pilotando autopropelido sem capacete e com criança em Ponta Grossa |  Foto: Divulgação

Léo Farmacêutico considera que a regulamentação é apenas o início de um processo maior. “Uma lei sozinha não resolve. É preciso fiscalização, educação e infraestrutura. A gente precisa trabalhar essas três frentes juntas.”

O debate também envolve a velocidade dos diferentes usuários.

A ciclista Júlia considera que equipamentos elétricos podem representar um risco adicional quando compartilham as estruturas cicloviárias.

“Eu acho que não deveria ser exatamente da mesma forma, porque alguns desses equipamentos conseguem andar mais rápido que uma bicicleta. Isso pode aumentar o risco de acidente.”

Já o arquiteto e urbanista Henrique aponta que o crescimento desses modais pode exigir adequações.

“Em alguns pontos, talvez seja necessário ter uma largura maior para permitir ultrapassagens. Também é preciso reforçar a sinalização e deixar muito claro quem tem prioridade em cada situação.”

Itaiacoca e a vocação turística

Se, na área urbana, o principal desafio é a conexão, em Itaiacoca a bicicleta ganhou outra função: o turismo.

Em 2022, foi inaugurada a estrutura Estélio Viatroski, com 17,6 quilômetros, paralela à PR-513, entre Uvaranas e Passo do Pupo. O trajeto permite acesso a atrativos como Capão da Onça, Recanto Botuquara, Buraco do Padre e Cachoeira Mariquinha.

No mesmo ano, Ponta Grossa inaugurou o Circuito das Nascentes do Cicloturismo, com 47,6 quilômetros. O circuito inclui aproximadamente 25 quilômetros de estradas rurais, áreas de mata, plantações, propriedades rurais e outros cenários naturais.

Cerca de 60 placas auxiliam na orientação dos ciclistas.

A rota vinha sendo trabalhada pelo município desde 2017 e foi apresentada como uma forma de consolidar Ponta Grossa no cicloturismo. Na inauguração, cerca de 250 ciclistas participaram do passeio.

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  • Circuito das Nascentes do Cicloturismo
    Circuito das Nascentes do Cicloturismo
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Mais do que quilômetros

A evolução da infraestrutura cicloviária de Ponta Grossa mostra que a cidade já percorreu um caminho importante, mas ainda possui diferentes etapas pela frente.

Em 2022, novas estruturas ampliaram o uso da bicicleta para o turismo e o lazer em Itaiacoca.

Em 2025, um novo trecho urbano conectou a estrutura da Avenida Bispo Dom Geraldo Pellanda às ruas de Uvaranas.

Em 2026, a legislação municipal passou a regulamentar novos equipamentos de mobilidade e ações educativas começaram a ser realizadas.

Ao mesmo tempo, a extensão oficial da rede permanece em 53,5 quilômetros e a própria prefeitura reconhece a existência de descontinuidades.

Os projetos futuros indicam possibilidades de expansão, mas ainda dependem de execução. É nesse intervalo entre o que existe, o que foi planejado e o que ainda precisa ser construído que está o principal desafio da mobilidade cicloviária de Ponta Grossa.

No fim, uma rede cicloviária não é apenas a soma de suas partes. É a conexão entre elas.

CONTEÚDO DE MARCA

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