Crise do enxofre muda mercado de fertilizantes e reduz produção no país
Alta nos custos de produção e desaceleração do consumo no campo pressionam a operação de indústrias de fosfatados no Brasil e no exterior

A crise do setor de fertilizantes fosfatados entrou em uma nova fase operacional. O gargalo da indústria ultrapassou o encarecimento do enxofre, as incertezas de importação e o risco de escassez de insumos, afetando diretamente a capacidade de processamento e operação das plantas fabris.
Diante desse cenário, grande parte dos fabricantes tem ajustado e retraído a sua oferta. A Mosaic interrompeu atividades em unidades operacionais e avalia a venda de sua planta fabril situada em Araxá (MG). A empresa de origem russa EuroChem aplicou layoff em sua fábrica na Serra do Salitre (MG), empreendimento que já desempenhou papel de destaque em seus investimentos. No âmbito global, a OCP, importante produtora de fertilizantes fosfatados sediada no Marrocos, diminuiu cerca de 30% da sua produção total devido ao quadro desfavorável.
Essa readequação de oferta ocorre simultaneamente a um período de desaceleração na demanda consumidora, adicionando maior complexidade ao mercado. O setor nacional convive com dois fatores simultâneos desde o início do ano: a redução do poder de compra dos produtores rurais, enfraquecido pelos valores elevados de insumos, crédito mais restrito e aperto financeiro, e a alta do custo industrial de fabricação de fosfatados impulsionada pelo enxofre.
Conforme a análise divulgada pela CNN Brasil, as elevadas despesas de fabricação superaram os preços praticados para venda ao mercado final em determinadas linhas de fosfatados, o que motivou a paralisação das operações da Mosaic em unidades produtoras no Brasil e nos Estados Unidos. O cenário gera um efeito em cadeia: o insumo encarece, o agricultor adia ou limita o volume adquirido, a procura enfraquece, mas a elevação dos custos impede a manutenção do ritmo industrial habitual. Logo, o recuo do consumo não alivia automaticamente o gargalo produtivo.
As discussões registradas em julho focavam a contradição entre as metas de ampliação da segurança nacional de fertilizantes e a desaceleração da capacidade fabril interna. Embora os fosfatados apresentem o maior índice de participação e fabricação interna na comparação com os demais nutrientes, o setor já indicava perdas operacionais que evoluíram para o encerramento temporário ou reorganização das estruturas produtivas atuais.
O quadro de retrações não sinaliza um desabastecimento geral e imediato no território brasileiro, uma vez que a agricultura local ainda dispõe do volume de produtos importados, estoques armazenados e redirecionamentos logísticos entre mercados. A própria Mosaic apontou a opção de destinar excedentes de suas unidades na América do Norte para atender o mercado brasileiro, condicionado à demanda e à disponibilidade de insumos.
Apesar disso, existe uma oscilação crítica entre a presença imediata do insumo e a agilidade da capacidade industrial em retomar os níveis de processamento caso ocorra uma recuperação do consumo. Como a procura nacional registra retração ao longo do ano, cotações de insumos como o SSP (superfosfato simples) registraram quedas aproximadas de 30% entre o início do mês de maio e o final do mês de agosto, decorrentes do desinteresse brasileiro por compras externas.
Entretanto, as fabricantes seguem com margens pressionadas pelos custos elevados do enxofre. A paralisação da infraestrutura produtiva pode evitar um desabastecimento agudo enquanto o consumo continuar moderado. Por outro lado, caso ocorra um reaquecimento nas compras antes do restabelecimento do fornecimento regular de enxofre, a demanda pode pressionar um setor industrial que operará abaixo da sua capacidade máxima.
O panorama atual reflete gargalos estruturais no agronegócio e na indústria química. O aumento da autonomia nacional de suprimentos não exige apenas depósitos minerais de rocha fosfática ou plantas industriais montadas, dependendo fortemente de competitividade na cadeia de suprimentos de matérias-primas e capacidade econômica contínua. O enxofre, elemento tratado como secundário na formulação de políticas públicas do setor no passado, passa a atuar como determinante na viabilidade e no ritmo de fabricação de fertilizantes no país.
LEIA ABAIXO UM RESUMO DA NOTÍCIA
- Retração operacional da indústria: Em resposta ao encarecimento do enxofre e ao desequilíbrio das margens, grandes produtoras como Mosaic, EuroChem e OCP reduziram sua produção, paralisaram unidades e promoveram layoffs e revisões estruturais no Brasil e no exterior.
- Impacto no poder de compra do produtor: O enfraquecimento da demanda nacional é impulsionado pelo elevado custo dos insumos e pelas condições restritivas de crédito ao agricultor, provocando quedas nas cotações de fosfatados, a exemplo do SSP, sem resolver o problema de custos da indústria.
- Gargalo estrutural de matérias-primas: A crise evidencia que a dependência de insumos essenciais como o enxofre restringe a autonomia da produção nacional de fertilizantes, condicionando a viabilidade das jazidas e fábricas brasileiras à estabilidade internacional da matéria-prima.



