Rede estadual amplia cursos técnicos e prepara jovens para o mercado de trabalho
Oferta reúne cursos em áreas como tecnologia, administração, indústria, saúde e agronegócio; NRE de Ponta Grossa tem 8.960 alunos matriculados

A formação profissional durante o Ensino Médio tem ganhado espaço na rede estadual de ensino como uma alternativa para aproximar os estudantes do mercado de trabalho e ampliar as possibilidades para o futuro. Na região de abrangência do Núcleo Regional de Educação (NRE) de Ponta Grossa, a oferta reúne cursos técnicos em diferentes áreas e atende atualmente 8.960 estudantes.
O levantamento do NRE mostra 96 ofertas distribuídas em 25 cursos, contemplando áreas como Gestão e Negócios, Informação e Comunicação, Recursos Naturais, Ambiente e Saúde, Produção Industrial, Controle e Processos Industriais, Turismo, Produção Alimentícia, Formação e Segurança.
Entre as opções estão Administração, Agronegócio, Logística, Marketing, Desenvolvimento de Sistemas, Inteligência Artificial e Dados, Agropecuária, Farmácia, Enfermagem, Biotecnologia, Química, Eletromecânica, Eletrotécnica, Gastronomia e Segurança do Trabalho.
A formação ocorre em diferentes modalidades, incluindo cursos integrados ao Ensino Médio e cursos subsequentes, com aulas nos períodos da manhã, tarde, noite ou em período integral. Em Ponta Grossa, instituições como CEEP PG, Colégio Estadual Cívico-Militar Professor Colares, Regente Feijó, Elzira Correia de Sá, Instituto de Educação, Kennedy e Polivalente estão entre as unidades que oferecem formação profissional.
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Preparação para o mercado
No Colégio Estadual Regente Feijó, os cursos técnicos em Administração e Logística combinam conhecimentos específicos das profissões com o desenvolvimento de habilidades comportamentais.
Segundo a professora Marilete Rosa, responsável pelos cursos, os estudantes trabalham tanto conteúdos técnicos quanto aspectos relacionados ao comportamento, personalidade, conduta e ética nas relações de trabalho.
A aproximação com o mercado também ocorre por meio de parcerias com agências de emprego e intermediadoras de mão de obra. Os estudantes participam ainda de visitas técnicas, nas quais podem conhecer empresas e observar ambientes profissionais relacionados às áreas em que estão se formando.
A professora destaca que os resultados podem aparecer ainda durante o Ensino Médio. Segundo ela, há estudantes que ingressam como jovens aprendizes já no primeiro ano e outros que conseguem oportunidades de estágio. Alguns acabam efetivados após o período de aprendizagem ou estágio.
Para a escola, a experiência profissional também contribui para mudanças no comportamento dos estudantes. Conforme Mari Rosa, alunos que começam a estagiar passam a demonstrar maior responsabilidade e disciplina no ambiente escolar.
Tecnologia e inovação
No Colégio Estadual Cívico-Militar Professor Colares, a formação técnica também busca aproximar a educação das transformações do mercado. A instituição oferece cursos de Automação Industrial, Biotecnologia e Inteligência Artificial em modalidade intercomplementar, em parceria com o SENAI.
Segundo o diretor Douglas Gebeluka, a proposta permite que o estudante conclua a Educação Básica e, simultaneamente, obtenha uma formação técnica. Cada curso trabalha competências específicas.
Na Automação Industrial, por exemplo, os alunos desenvolvem conhecimentos relacionados à tecnologia, aos processos produtivos e aos sistemas automatizados. Já a Biotecnologia trabalha conhecimentos científicos, laboratoriais e de inovação. A formação em Inteligência Artificial envolve programação, análise de dados e criação de soluções tecnológicas.
A parceria com o SENAI possibilita o acesso a laboratórios, equipamentos, metodologias e atividades práticas. O colégio também realiza visitas técnicas e atividades que aproximam os estudantes de profissionais, empresas e processos produtivos.
Para Gebeluka, a formação técnica ajuda os jovens a compreenderem a aplicação prática dos conteúdos aprendidos em sala e amplia as possibilidades de construção de projetos de vida.
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Mais oportunidades
O NRE de Ponta Grossa informa que houve autorização para a abertura de novas turmas de cursos já existentes e também para novas formações. Entre as novidades estão os cursos de Cuidador de Idoso e Estética.
Para aproximar os estudantes das empresas, as escolas precisam firmar parcerias para possibilitar a oferta de estágios. O NRE conta atualmente com duas técnicas pedagógicas dedicadas exclusivamente à área de Empregabilidade, com o objetivo de viabilizar o encaminhamento de estudantes para campos de estágio e oportunidades no mercado de trabalho.
Entre os cursos integrados com maior procura estão Técnico Agrícola, Administração, Desenvolvimento de Sistemas e Eletromecânica. Na modalidade subsequente, destacam-se Segurança do Trabalho e Enfermagem.
A expansão da oferta também contempla novos cursos previstos para 2027. Entre eles estão Administração, Logística, Inteligência Artificial, Formação de Docentes, Estética, Cuidador de Idoso e Desenvolvimento de Sistemas. Algumas formações também deverão ser ofertadas pela Secretaria de Estado da Educação (Seed) em unidades da região.
O cenário mostra uma tentativa de diversificar a formação profissional e aproximar a escola pública das demandas do mundo do trabalho. Ao mesmo tempo, a oferta passa por reorganizações, com alguns cursos que não serão ofertados em 2027 ou que ainda estão sob avaliação.
A proposta é que o estudante possa concluir o Ensino Médio não apenas com a formação geral, mas também com conhecimentos técnicos que ampliem suas possibilidades de inserção profissional, estágio, aprendizagem ou continuidade dos estudos.

Qualificação aproxima jovens das oportunidades do mercado de trabalho em Ponta Grossa
O crescimento econômico de Ponta Grossa tem ampliado a demanda por profissionais qualificados em diferentes setores. Com uma economia marcada pela presença de indústrias, empresas de logística, comércio e serviços, o município enfrenta o desafio de preparar trabalhadores para acompanhar as transformações do mercado de trabalho. Nesse cenário, a formação profissional ganha importância especialmente entre os jovens que buscam a primeira oportunidade de emprego.
Segundo a secretária municipal de Indústria, Comércio e Qualificação Profissional, Tônia Mansani, o município vive um momento de expansão econômica. De acordo com dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) apresentados pela Secretaria, o Produto Interno Bruto (PIB) de Ponta Grossa passou de R$ 19,4 bilhões em 2021 para R$ 25,5 bilhões em 2023, crescimento de 31% em dois anos.

Para Tônia, a expansão também evidencia a necessidade de preparar profissionais para as vagas disponíveis. "As empresas abrem vagas, mas muitas vezes têm dificuldade para encontrar profissionais com o conhecimento técnico que a função exige. O mercado pede pessoas preparadas tanto do ponto de vista técnico quanto comportamental, com responsabilidade, capacidade de adaptação e disposição para aprender", afirma.
A indústria é um dos setores que mais demandam mão de obra especializada no município. Levantamentos apresentados pelo Núcleo das Indústrias de Ponta Grossa (30+ NDI) apontam necessidades de capacitação em mecânica industrial, usinagem, manutenção e automação. Entre as formações prioritárias estão tornearia geral, usinagem CNC, ajustagem mecânica, metrologia, manutenção pneumática e hidráulica, programação de controladores lógicos programáveis (CLPs) e automação industrial.
A secretária destaca que a aproximação entre empresas e instituições de ensino é fundamental para direcionar a oferta de cursos às necessidades locais. "Nosso papel tem duas frentes: ofertamos cursos gratuitos por meio do Qualifica+ e, ao mesmo tempo, articulamos com as instituições de formação profissional, que têm estrutura e recursos para atender essas demandas, para que os cursos estejam conectados ao que as empresas realmente precisam", explica.
Em 2026, o programa Qualifica+ registrou, até setembro, 36 turmas de cursos gratuitos, com 632 vagas ofertadas e 296 pessoas formadas. As capacitações são realizadas em parceria com instituições como SENAI, SESI, SEST/SENAT, SOS e outras entidades.
Formação técnica como diferencial
Na avaliação de Micheli Schopchaki Kapp, representante do NDI +30 da Associação Comercial, Industrial e Empresarial de Ponta Grossa (Acipg) e ligada à empresa Águia Sistemas, que atua nos segmentos metalúrgico e de intralogística, os jovens que concluem cursos profissionalizantes chegam ao mercado de trabalho com vantagens em relação àqueles que possuem apenas a formação regular do Ensino Médio.

Segundo Micheli, estudantes que passam por instituições de formação técnica, como Senai e Instituto Federal do Paraná (IFPR), costumam apresentar maior familiaridade com a rotina industrial, normas de segurança e processos de trabalho.
"A vantagem é gigantesca. Um candidato com formação técnica, como Mecânica, Eletromecânica ou Logística, já possui familiaridade com o vocabulário do setor, entende normas de segurança e ferramentas básicas. Para a Águia Sistemas, isso significa uma curva de aprendizado muito mais rápida e menor tempo de treinamento básico, o que o coloca à frente de candidatos apenas com o Ensino Médio", destaca.
Apesar dos avanços na formação profissional, ainda existem lacunas que precisam ser consideradas. Micheli aponta que os jovens apresentam facilidade para lidar com tecnologias e sistemas digitais, mas podem enfrentar dificuldades em conhecimentos matemáticos aplicados, leitura de desenhos técnicos e metrologia. As habilidades comportamentais também aparecem como um desafio.
"Os jovens estão chegando com extrema facilidade para lidar com novas tecnologias e sistemas digitais, o que é um ponto forte. Porém, as lacunas mais sensíveis estão nas habilidades matemáticas aplicadas, como trigonometria para leitura de desenho técnico e metrologia, e, principalmente, nas chamadas soft skills (habilidades comportamentais)", avalia.
Entre as competências valorizadas pelas empresas estão comprometimento com a segurança do trabalho, trabalho em equipe, proatividade, pontualidade e inteligência emocional. Na parte técnica, destacam-se conhecimentos em desenho técnico, metrologia, processos de fabricação, eletromecânica e raciocínio lógico-matemático.
Desafios para conquistar o primeiro emprego
A entrada no mercado de trabalho também exige que os jovens desenvolvam habilidades que vão além do conhecimento adquirido em sala de aula. Para Micheli, uma das dificuldades observadas pelas empresas está no alinhamento de expectativas dos profissionais em início de carreira, especialmente em relação ao tempo necessário para conquistar novas funções e evoluir profissionalmente.
Ela também menciona dificuldades de comunicação interpessoal e concentração, competências importantes em ambientes industriais, nos quais a atenção está diretamente relacionada à segurança e à qualidade dos processos.
Por outro lado, a representante empresarial ressalta que a falta de experiência não precisa ser um impedimento para a contratação. A disposição para aprender e a postura durante os processos seletivos podem fazer diferença.
"Na Águia Sistemas, costumamos dizer que a técnica nós podemos ensinar, mas o comportamento vem com o indivíduo. Um jovem sem experiência prévia, mas que demonstra curiosidade, faz perguntas, chega no horário, respeita os colegas e demonstra brilho nos olhos durante a entrevista, tem altíssimas chances de contratação", afirma.
Entre as áreas com oportunidades para profissionais recém-formados em Ponta Grossa estão a indústria metalmecânica, a indústria alimentícia, o agronegócio, o setor de embalagens e a logística e transporte. Entretanto, Micheli aponta dificuldades para encontrar jovens qualificados em funções específicas, como operadores de máquinas CNC, soldadores especializados, projetistas mecânicos com domínio de softwares 3D e técnicos em automação industrial.
Nesse contexto, programas de aprendizagem e estágio técnico são considerados importantes ferramentas de aproximação entre estudantes e empresas. "São a porta de entrada mais segura e eficiente tanto para a empresa quanto para o jovem", afirma Micheli. Segundo ela, essas iniciativas permitem que os estudantes conheçam a cultura e os processos das organizações, enquanto aprendem com profissionais mais experientes.
Educação e desenvolvimento regional
Para Tônia Mansani, a formação profissional ainda durante o Ensino Médio pode ampliar as possibilidades de escolha dos jovens e facilitar a entrada no mercado de trabalho. O contato com uma área técnica também permite conhecer diferentes profissões e identificar aptidões.
"É fundamental, porque permite que o jovem conclua o Ensino Médio já com conhecimentos e habilidades que facilitam sua entrada no mercado. Muitos terminam a escola sem saber qual profissão seguir. O contato com uma formação técnica ajuda a descobrir aptidões e amplia as escolhas", afirma.
A secretária também defende uma aproximação maior entre escolas, instituições de formação profissional e setor produtivo. Na avaliação dela, preparar os jovens para as oportunidades existentes no município pode contribuir para que permaneçam na região e construam suas carreiras em Ponta Grossa.
"Nosso objetivo é que o jovem possa estudar, se qualificar e encontrar trabalho ou empreender aqui mesmo, em Ponta Grossa, sem precisar sair da cidade para construir sua trajetória. Uma cidade que cresce como a nossa precisa reter os seus talentos", ressalta.
A qualificação profissional, portanto, representa um desafio compartilhado entre poder público, instituições de ensino e empresas. Enquanto a educação precisa acompanhar as transformações tecnológicas e as demandas dos setores produtivos, o empresariado também tem papel importante na abertura de oportunidades de aprendizagem, estágio e primeiro emprego.
A construção dessa conexão pode ampliar as possibilidades de inserção profissional dos jovens e, ao mesmo tempo, fortalecer a economia de Ponta Grossa e dos Campos Gerais, garantindo que o crescimento regional seja acompanhado pela formação de trabalhadores preparados para as novas demandas do mercado.








