Segundo mais antigo do Paraná, Banco de Leite Humano da UEPG completa 42 anos
Para marcar a data, os Hospitais Universitários organizaram uma homenagem, na tarde desta quinta-feira (29), a todas as pessoas que fizeram parte dessa história

O Banco de Leite Humano da Universidade Estadual de Ponta Grossa (BLH-UEPG) completou 42 anos em 2026. Em cada gota de leite humano recebida e processada ao longo dessas décadas há muita vida, e uma história de cuidado e de solidariedade que atravessa gerações. Para marcar a data e celebrar a longevidade daquele que é o segundo mais antigo em funcionamento ininterrupto no Paraná, os Hospitais Universitários organizaram uma homenagem, na tarde desta quinta-feira (29), a todas as pessoas que fizeram parte dessa história.
Entre as atividades do Banco estão o cadastro de doadoras, a coleta, a análise, a pasteurização e a distribuição de leite materno. O serviço também promove o aleitamento materno por meio do atendimento e da orientação às mães sobre a pega correta, o manejo da amamentação e tratamentos especializados, como a laserterapia para fissuras mamárias. A atuação inclui ainda campanhas de conscientização e articulação com políticas públicas de estímulo à doação, como a lei municipal que amplia a licença-maternidade para servidoras doadoras.
Desde 2002, ano em que a Rede de Bancos de Leite Humano começou a registrar os números das unidades associadas, o Banco de Ponta Grossa já alcançou números impressionantes. São 20.742 mulheres que decidiram doar seu leite; mais de 33 mil litros de leite humano coletado; 16.057 bebês que receberam o alimento e tiveram suas vidas salvas. Dentre os atendimentos em grupo e individuais, foram 67.489 registros. Esse montante representa apenas cerca de metade da história do BLH-UEPG, enfatiza a coordenadora do banco de leite, Gabriele Alves de Paula Chemin. “Cada gota de leite doado representa a redução da mortalidade infantil, o fortalecimento da imunidade de bebês internados nas UTIs neonatais e a esperança renovada para as centenas de famílias. O leite materno não é apenas nutrição, é medicamento, afeto e proteção”, reforça.
A coordenadora aproveitou o momento comemorativo para anunciar que o BLH-UEPG foi convidado a atuar como referência na tutoria da Estratégia Amamenta e Alimenta Brasil, do Ministério da Saúde. “Esse reconhecimento consolida o nosso serviço como uma verdadeira referência em aleitamento materno e alimentação complementar saudável, chancelando a qualidade técnica e o cuidado humano praticados por toda a nossa equipe”, comemora Gabriele. “Assumir essa tutoria significa que continuaremos multiplicando o conhecimento, capacitando profissionais da atenção primária e fortalecendo a promoção da saúde desde os primeiros dias de vida”.
“Nosso banco de leite tem uma história muito sensível, muito bonita e de muitas conquista. Tudo isso é resultado do trabalho de quem em algum momento desses 42 anos atuou, desenvolveu as suas atividades, voltou seus esforços e seus olhares para que a gente pudesse chegar hoje nessa comemoração tão importante”, celebrou a diretora-geral dos HUs da UEPG, professora Fabiana Postiglione Mansani. Ela destacou ainda a importância dos investimentos realizados nos últimos anos em estrutura e equipes, para que a unidade possa atender cada vez mais e melhor à comunidade.
Início
Os Bancos de Leite Humano são um dos maiores exemplos de uma política de saúde pública bem-sucedida. O primeiro surgiu em Viena, em 1909. No Brasil, o Instituto Nacional de Puericultura, hoje Instituto Fernandes Figueira, da Fiocruz, criou o pioneiro em 1943.
O BLH de Ponta Grossa foi criado em 11 de maio de 1984, no Hospital Infantil Presidente Getúlio Vargas (prédio onde hoje funciona a 3ª Regional de Saúde). O objetivo era fornecer nutrição segura a recém-nascidos prematuros ou de baixo peso internados na UTI. Em 1996, quando foi construído o Hospital da Criança João de Oliveira Vargas (atual Hospital Universitário Materno-Infantil), o Banco de Leite foi junto; e a administração passou a ser responsabilidade da UEPG em 2020. Em 2024, o serviço foi transferido para o Ambulatório Universitário Amadeu Puppi, com uma estrutura ampliada.
A enfermeira Virte Lasari foi pioneira no BLH de Ponta Grossa. Como já conhecia a rotina do primeiro Banco do Paraná, o do Hospital de Clínicas da Universidade Federal, foi convidada pelo médico pediatra Silvio Fernandes da Silva a auxiliar na montagem de uma unidade de recepção e processamento de leite humano no Hospital Infantil. Na época, havia poucas enfermeiras na cidade, e também poucos pediatras especialistas.
Um grupo de pediatras, do qual ele fazia parte, identificou a necessidade crítica de oferecer o alimento para bebês internados nas unidades hospitalares da cidade. “Nos hospitais da cidade, não tinha UTI, mas tinha o que a gente chamava de berçário de alto risco”, conta Virte. Na época, a neonatologia e o incentivo ao aleitamento materno no Brasil ainda estavam se estruturando, e o Banco de Leite Humano de Ponta Grossa foi debatido como caso de sucesso: no VI Congresso Médico de Ponta Grossa, junto ao também pediatra Alberto Calvet Neto, Silvio apresentou os resultados práticos da estruturação inicial do projeto, com um trabalho intitulado “Banco de Leite Humano de Ponta Grossa – montagem, rotina e resultados”.
Como conta Virte, o BLH de Ponta Grossa foi o terceiro a ser criado no Paraná, depois de Curitiba e Londrina. No entanto, segundo relata em artigo publicado em 1993 a enfermeira que hoje dá nome ao Banco de Leite do Hospital Universitário de Londrina, Maria Lúcia Monti Magalhães, a unidade de Londrina, no Hospital Mater-Dei, foi logo inativada por falta de estrutura e reaberta em 1988 em outro espaço, no Hospital da UEL. Portanto, hoje o Banco de Leite da UEPG é considerado o segundo mais antigo do Paraná.
Contratada em 6 de abril de 1984, a enfermeira Virte trabalhou com afinco para deixar o Banco pronto para inauguração na sexta-feira anterior a uma data emblemática: o Dia das Mães. “Na época, era tudo difícil. Os pediatras e obstetras se uniram, marcaram um jantar para arrecadar dinheiro e comprar o que precisavam: freezer, esgotadeira e outros equipamentos”, lembra. A partir daí, o serviço oferecido às mães e aos bebês só cresceu. Outro momento marcante lembrado por Virte foi no ano seguinte, 1985, quando se começou a pasteurizar o leite, por conta da epidemia de AIDS.
Foram 18 anos da vida de Virte dedicados ao hospitais infantis e ao Banco de Leite. O sentimento da enfermeira, que hoje aposentada ainda se dedica às consultorias de amamentação, é de muita satisfação por ter feito parte dessa história. “É unânime a importância do leite materno e é uma alegria muito grande ter participado disso e saber que salvamos muitas crianças”, diz. “Leite materno é humanização, é conforto, é defesa, é salvar vidas”.
Vidas
Era 2 de março de 1985. No Hospital São Lucas, uma pequena bebê nasceu prematura, pesando apenas 1 kg. Para que a Patrícia Gonçalves sobrevivesse, um elemento foi essencial: o leite recebido do recém-criado Banco de Leite Humano de Ponta Grossa.
Agora, é 2026. O local onde funcionava o Hospital São Lucas já foi o Pronto-Socorro Municipal de Ponta Grossa e hoje abriga o Ambulatório Universitário Amadeu Puppi, para onde foi transferido aquele mesmo Banco de Leite. E a Patrícia se tornou técnica de laboratório e trabalha na recepção, triagem e pasteurização do leite.
“Anos depois, eu estou aqui, viva, trabalhando, e fazendo parte do mesmo Banco de Leite que um dia fez parte da minha luta pela vida”, conta Patrícia. “Eu não apenas acredito na importância da doação de leite materno. Eu sou consequência dela”. Ao voltar, todos os dias, ao lugar que salvou sua vida, ela pensa no gesto de amor das mães que doam seu leite sem ao menos conhecer os rostos dos bebês que estão salvando; e também na luta dos recém-nascidos que dependem deste alimento para sobreviver. “Eu tenho uma profunda gratidão por fazer parte desta equipe. Quero homenagear também minhas colegas, que fazem seu trabalho com tanto amor, empenho, cuidado e compromisso. Cada gesto, cada palavra e cada esforço de vocês fazem a diferença na vida de tantos bebês e de tantas famílias”, declara.
Para a técnica de enfermagem Maria Rosa Pedroso do Nascimento, que também trabalha no Banco, a rotina também tem um significado especial. Em cada bebê que vai receber o leite processado pela unidade, ela lembra também da luta pela vida do filho Guilherme, que nasceu prematuro e precisou permanecer em cuidados intensivos. “Como é lindo esse gesto das mães de doarem, de poder dar uma nova vida para os bebês”, reflete. “Você está proporcionando que essa criança possa ir para casa, que a mãe possa pegar no colo, ter esse filho com ela”.
No atendimento às mães com dificuldades, Rosa busca trazer consigo a experiência materna. “Além de olhar como profissional, eu olho como mãe e mãe de prematuro”, explica. “Porque só quem passa sabe como é”.
Gestos
Para doar leite humano, é preciso estar saudável, não tomar nenhum medicamento que interfira na amamentação e possuir refrigerador com congelador ou freezer. Após realizar o cadastro, a doadora recebe materiais e as orientações necessárias para a coleta. Em Ponta Grossa, é oferecida a coleta domiciliar, em que uma funcionária do Banco vai semanalmente pegar os frascos na residência da doadora. O contato pode ser feito pelo WhatsApp, no número (42) 33118527.
Quem sabe bem o que é doar leite é Izaura Gonçalves, que trabalha na equipe de higienização do Ambulatório Amadeu Puppi. Há 26 anos, quando nasceu seu segundo filho, ela iniciou um período de dois anos em que doou – e muito! – para o Banco. “Era toda semana. Conforme a semana, elas iam duas vezes, porque o refrigerador era pequenininho, né?”, lembra. “Eu gostava. Era muito gostoso saber que meu leite estava ajudando outras crianças”.
As lembranças vieram com tudo quando ela chegou à integração de funcionários do Ambulatório, em que são repassadas informações sobre o funcionamento do espaço e dos Hospitais Universitários. “Parece que eu voltei 26 anos atrás, sabe? [Lembrei] das meninas indo lá, eu tirar a sacola do leite para entregar a elas, elas virem com a sacolada de vidro”, sorriu. “É, eu me senti bem. Veio uma sensação muito boa”.
“E veja só como o mundo gira?”, disse Izaura. Anos depois, os netos, gêmeos, nasceram prematuros. Um não sobreviveu, mas o outro teve uma chance de vida graças ao suporte da UTI Neonatal e ao alimento do Banco de Leite. “Lá atrás eu doei, e agora o meu neto precisou. Como eu fiz há 26 anos foi preciso um ano e meio atrás para o meu neto. E se não tivesse o Banco de Leite, como é que ia ser? Então outra mãe também teve a consciência de que outras crianças precisavam”.
Para as mães, ela incentiva sobre a importância da doação de leite. “É uma coisa que ajuda, não é só para beleza. É necessário e é uma vida que você tá salvando”, aconselha. “Olha, você não vai ter preocupação, eles vão buscar. Não vai precisar gastar nada, só naquele tempinho para colocar ali no vidro”.
Doar-se
Ao longo dos anos, foram várias as pessoas que se dedicaram a ações de solidariedade que trouxeram melhorias e viabilizaram atividades do Banco de Leite, desde aquele primeiro jantar organizado pelos médicos obstetras e pediatras para adquirir equipamentos. Na cerimônia desta quinta-feira (29), a coordenação do Banco homenageou essas pessoas em nome de duas que estiveram envolvidas com a Associação de Proteção à Maternidade, Infância e Família (APMIF) João e Maria: Neuza Helena Postiglione Mansani e Leda Terezinha Weingartner. O evento lembrou ainda da contribuição fundamental da Associação Amigos do Hospital da Criança de Ponta Grossa.
A professora Neuza Mansani conta que a Associação surgiu a partir da reunião de um grupo de mulheres para ajudar a resolver demandas do Hospital da Criança. “Nós reunimos 20 mulheres para trabalhar e elas continuam trabalhando”, lembra. Com as ações, eventos e intermediando doações da sociedade civil, a APMIF conseguiu equipar e estruturar não só o Banco de Leite, mas o hospital como um todo.
“O que ficou de proposta para nós foi isso: fazer o Banco de Leite funcionar, ser mais ágil, né?”, recorda a atual vice-presidente da Associação, Leda Terezinha Weingartner. Foram várias melhorias, como um carro para buscar leite na casa das doadoras, freezer, esgotadeiras, poltronas, mobiliário e frascos. “Nós fizemos nosso trabalho de coração. Nós fizemos o bem sem olhar a quem”.
Como legado, a vontade de que as mães e as crianças sejam atendidas sempre com carinho e dignidade. “Queremos deixar aqui o nosso abraço e estímulo a essas divinas pessoas, que assumem o trabalho no Banco de Leite, pensando, amando, trabalhando”, desejou a professora Neuza.
Importância
Não é de hoje que as mulheres ajudam a alimentar os bebês de outras mães. Registros de diferentes culturas e épocas documentam essa prática, presente em textos religiosos, como a Bíblia e o Alcorão, nas mitologias grega e romana e em documentos que remontam a 2250 a.C. As chamadas amas de leite, mulheres que amamentavam diretamente ao seio os filhos de outras, fizeram parte dessa história por séculos. No entanto, o surgimento dos Bancos de Leite cria a oportunidade de controle sanitário e diminui os riscos à saúde dos bebês. O Bancos de Leite deu novos contornos a essa solidariedade, possibilitando a doação de leite com controle sanitário e procedimentos que reduzem os riscos de transmissão de doenças.
Hoje, são mais de 230 Bancos de Leite Humano em funcionamento no Brasil, segundo dados da Rede Brasileira de Bancos de Leite Humano (rBLH/Fiocruz). No primeiro semestre de 2026, em todo o país foram coletados 132 mil litros de leite, número 7,5% maior que o do mesmo período do ano anterior. São 100,2 mil doadoras, e esse montante permitiu a distribuição de mais de 95 mil litros do líquido para recém-nascidos prematuros ou de baixo peso internados em UTIs neonatais pelo Brasil.
Com a criação da rBLH-BR em 1998, uma rede colaborativa, há uma padronização no funcionamento das unidades em todo o país. Além de coletar, processar e distribuir leite, os BLHs têm um diferencial importante no Brasil, que os torna referência mundial: as ações de promoção, proteção e apoio ao aleitamento materno.
O brilho no olhar de Cláudia Cancian ao falar sobre o Banco de Leite diz muito sobre a dedicação de 18 anos no trabalho com mães, bebês e leite. Muito leite. “É uma satisfação inenarrável. A cada mãe que a gente consegue ajudar, vem uma sensação de poder ajudar a natureza”, diz.
Para ela, é encantador ter uma taxa de mais de 90% de sucesso nos casos de dificuldades na amamentação que procuram o atendimento do Banco. “O número de mães que vêm com um buraco no chão da vida, dizendo ‘eu não consigo’, e a gente diz: ‘olha, tenha paciência, pode dar certo’, e dá certo”. Quanto às doadoras de leite, muitas retornam, e a satisfação é mútua. “A gente vê assim: doou no primeiro filho, daqui a pouco você vê que doa também no segundo filho, no terceiro. E quem doa tem uma satisfação, um brilho no olhar. É um presente para elas, tanto quanto é para nós”.
Bióloga, Cláudia já trabalhava há sete anos como técnica de laboratório no Hospital da Criança quando optou pela transferência ao Banco de Leite, em 2008. Já chegou fazendo mudanças: informatizou a unidade e ensinou as colegas a usarem o computador. E por ali ficou. “Me encantei com o mundo da amamentação, com as técnicas do processamento de leite, com a riqueza e a seriedade que é a Rede Brasileira de Bancos de Leite”, conta. “Tem gente que acha que é repetitivo [o trabalho no BLH]. Para mim não, para mim cada caso é uma história. Cada leite vai para uma criança em específico”.
Ao longo desses anos, ela plantou amor pela doação de leite humano: um líquido que é como um medicamento, como repetiu milhares de vezes. Para os estudantes que passaram pelo espaço depois da incorporação pela UEPG, deixou conselhos para abrir novas frentes de trabalho em outros hospitais e cidades. “Para todo mundo eu dizia assim: ‘Olha, vocês saem daqui, vocês podem abrir bancos de leite em outros hospitais, vocês podem ser multiplicadores onde vocês forem. Vocês podem abrir frentes de trabalho'”.
A chegada da Universidade trouxe, além de uma melhoria na infraestrutura, nos espaços e no tamanho da equipe, a possibilidade de unir o serviço com o aprendizado, bem como tornar o atendimento cada vez mais multidisciplinar. “Hoje a gente tem uma equipe muito mais preparada, muito mais profissional”, destaca Cláudia.
Ao longo do tempo, o Banco de Leite mudou de espaços e de estruturas, mas para Cláudia, mesmo depois de tantos anos e com a proximidade da aposentadoria, o trabalho continua sendo fonte de encantamento. “O Banco de Leite é um lugar de vida”, resume. “As mães vêm cheias de sonhos e de planos… A gente está numa fase mágica, que é o começo de qualquer vida. E a gente poder proporcionar o melhor alimento para o bebê é bem legal. Se for na mãe, então, na melhor forma… Ah, é bem, bem massa”.
Com informações da UEPG.



