Ferrovia e aeroporto são importantes para expansão industrial de Ponta Grossa
Conselho de Desenvolvimento propõe que nova concessão da Malha Sul considere conjuntamente os conflitos ferroviários, a expansão do Aeroporto Santana e a área de expansão industrial do município

A discussão sobre o futuro da ferrovia em Ponta Grossa ganhou uma dimensão que vai além da mobilidade urbana. Na manifestação encaminhada à Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT), o Conselho de Desenvolvimento de Ponta Grossa defende que a nova concessão da Malha Sul seja utilizada para planejar, de forma integrada, a solução dos conflitos entre a ferrovia, a área urbana, o Aeroporto Comandante Hamilton Luiz Beraldo — Aeroporto Santana — e a expansão das atividades industriais e logísticas.
A proposta parte de uma constatação: decisões tomadas agora sobre a infraestrutura ferroviária poderão produzir efeitos durante décadas. Por isso, segundo o documento, os novos investimentos precisam ser pensados de maneira coordenada, evitando que uma solução adotada para um problema crie dificuldades futuras para outro empreendimento.
O Conselho defende duas frentes principais dentro da nova concessão: o desenvolvimento do Contorno Ferroviário de Ponta Grossa e a realização dos estudos necessários para solucionar a interferência da linha férrea na área do Aeroporto Santana.
A intenção não é antecipar qual solução de engenharia deverá ser executada, mas garantir que o tema seja incorporado ao planejamento da infraestrutura nacional.

Aeroporto Santana como peça do desenvolvimento regional
A interferência ferroviária também possui impacto direto sobre a possibilidade de expansão do Aeroporto Santana.
Segundo o documento encaminhado à ANTT, a linha férrea existente contorna uma das cabeceiras da pista e constitui uma condicionante para a ampliação do aeródromo. Atualmente, a pista possui aproximadamente 1.431 metros. Estudos municipais mais recentes apontam a possibilidade de ampliação para aproximadamente 2.490 metros, um acréscimo de cerca de 1.059 metros.
O estudo municipal atualizado em 2025 associou a expansão do aeroporto à implantação de aproximadamente 3.700 metros de novo traçado ferroviário, com o objetivo de afastar a linha da área necessária à ampliação do aeródromo.
É justamente nessa interseção que a discussão ganha importância regional.
A ampliação de um aeroporto não representa apenas uma obra física. Na avaliação apresentada pelo Conselho, uma infraestrutura aeroportuária maior pode ampliar a conectividade de Ponta Grossa e dos Campos Gerais, melhorar as condições de deslocamento de empresários e investidores, aumentar a atratividade do território e criar novas possibilidades para o desenvolvimento econômico.
Aeroporto em números
- Pista atual: aproximadamente 1.431 metros
- Possível extensão: aproximadamente 2.490 metros
- Ampliação indicada nos estudos: cerca de 1.059 metros
- Novo traçado ferroviário associado à expansão: aproximadamente 3.700 metros
Os números constam da manifestação institucional apresentada pelo Conselho de Desenvolvimento à ANTT e têm como referência estudos municipais. A solução definitiva depende de aprofundamento técnico.
Uma infraestrutura conectada à outra
O ponto central da proposta é evitar que ferrovia e aeroporto sejam tratados como projetos independentes.
O documento aponta que a futura infraestrutura ferroviária deveria considerar a possibilidade de compatibilização entre o Contorno Ferroviário, o novo traçado necessário à expansão do Aeroporto Santana e a área periférica do Distrito Industrial de Ponta Grossa.
Essa integração poderia transformar uma série de passivos de infraestrutura em uma oportunidade de planejamento para as próximas décadas.
A lógica é evitar investimentos isolados. Se uma obra for executada sem considerar os projetos que virão posteriormente, novas intervenções podem ser necessárias para corrigir conflitos de traçado, desapropriações ou limitações operacionais.
Por isso, o Conselho defende que os diferentes projetos sejam analisados conjuntamente, embora ressalte que a definição dos traçados deve permanecer condicionada aos estudos técnicos, de engenharia, ambientais e operacionais.

O que está em discussão?
Contorno Ferroviário
- Retirada do tráfego ferroviário de passagem das áreas urbanas consolidadas.
Aeroporto Santana
- Estudos para solucionar a interferência da linha férrea na área necessária à expansão do aeródromo.
Distrito Industrial
- Planejamento que considere a expansão da área periférica e a futura infraestrutura logística.
Malha Sul
- Uso da nova concessão como instrumento para organizar responsabilidades, estudos e investimentos.
Conectividade e competitividade
Ponta Grossa já possui uma característica que favorece a atividade econômica: sua localização e conexão com diferentes modais. O desafio, segundo a manifestação, é fazer com que essa vantagem geográfica seja acompanhada por uma infraestrutura compatível com o crescimento da região.
O documento associa a infraestrutura ferroviária à competitividade dos Campos Gerais e aponta que investimentos industriais, centros de distribuição e novos negócios dependem de segurança, capacidade, confiabilidade e previsibilidade no longo prazo.
Nesse contexto, a possibilidade de combinar uma ferrovia mais eficiente com maior capacidade aeroportuária pode ampliar as alternativas de conexão do município.
A própria manifestação destaca que a solução da interferência entre ferrovia e aeroporto não deve ser tratada como questão exclusivamente municipal. A proposta é incorporá-la à estratégia de infraestrutura da nova concessão da Malha Sul, em articulação com os estudos e projetos aeroportuários.
O resultado esperado, portanto, não se limita à redução de um conflito físico entre duas estruturas. O objetivo é criar condições para que Ponta Grossa utilize sua posição logística para fortalecer a economia regional.

O impacto sobre o território
Uma eventual reorganização da infraestrutura ferroviária também pode alterar a relação entre a cidade e os espaços ocupados atualmente pela ferrovia.
O Conselho aponta que a redução da circulação ferroviária de passagem em áreas urbanizadas poderia diminuir ruídos, vibrações e emissões decorrentes da operação ferroviária e ampliar a flexibilidade do planejamento urbano.
Ao mesmo tempo, a retirada de determinados fluxos pode criar condições para a requalificação futura de áreas hoje condicionadas pela ferrovia, sempre dependendo das condições dominiais, regulatórias e ambientais.
A questão urbana, contudo, é apenas uma parte da equação. A proposta apresentada à ANTT relaciona a reorganização ferroviária também à produtividade, à logística e à atração de investimentos. É nesse ponto que o projeto passa a ser tratado como uma agenda de desenvolvimento regional.
Potenciais ganhos apontados
Segundo o documento, a reestruturação da infraestrutura pode contribuir para:
- reduzir conflitos entre ferrovia e sistema viário;
- aumentar a velocidade média dos trens;
- diminuir paradas, manobras e tempos de travessia;
- reduzir riscos de acidentes;
- diminuir custos logísticos;
- melhorar a mobilidade urbana;
- ampliar a previsibilidade da operação ferroviária;
- criar condições para expansão urbana planejada;
- fortalecer a conectividade aeroportuária;
- aumentar a atratividade de Ponta Grossa e dos Campos Gerais para novos investimentos.
Uma governança para projetos de décadas
Diante da dimensão dos projetos, o Conselho também propõe a criação de uma instância técnica permanente de articulação.
A sugestão envolve ANTT, Ministério dos Transportes, Infra S.A., Governo do Paraná, Município de Ponta Grossa, entidades representativas do setor produtivo, FIEP, órgãos responsáveis pela infraestrutura aeroportuária e a futura concessionária.
A ideia é acompanhar a atualização dos estudos, avaliar alternativas, definir responsabilidades, identificar fontes de financiamento e garantir transparência na evolução dos empreendimentos.
Essa estrutura seria importante especialmente porque os projetos não necessariamente serão executados de uma única vez. O próprio Conselho admite a possibilidade de etapas sucessivas de estudos, validação, projeto, licenciamento e execução.
Quem precisa participar?
A proposta de governança apresentada pelo Conselho reúne:
- Poder federal: ANTT, Ministério dos Transportes e Infra S.A.
- Poder estadual: Governo do Paraná
- Poder municipal: Prefeitura de Ponta Grossa
- Setor produtivo: entidades empresariais e FIEP
- Infraestrutura aeroportuária: órgãos responsáveis pelo aeroporto
- Concessão ferroviária: futura concessionária da Malha Sul.
Uma oportunidade para os Campos Gerais
A manifestação institucional enviada à ANTT procura colocar Ponta Grossa dentro de uma discussão mais ampla sobre o futuro da infraestrutura do Paraná.
A defesa do Conselho é de que a nova concessão da Malha Sul não seja limitada à manutenção ou ao aumento da capacidade atualmente existente. A proposta é aproveitar o momento para reorganizar a infraestrutura e enfrentar gargalos que, na avaliação da entidade, condicionam a mobilidade, a logística e o desenvolvimento econômico.
O Contorno Ferroviário aparece como uma das principais peças dessa estratégia. Já a solução da interferência ferroviária no Aeroporto Santana é apresentada como outro componente capaz de contribuir para ampliar a conectividade regional.
Os dois projetos, entretanto, ainda dependem de estudos, avaliações de engenharia, questões ambientais, definição de custos, desapropriações e decisões institucionais. O documento não estabelece uma solução técnica definitiva para a interferência ferroviária no aeroporto e defende justamente que as alternativas sejam estudadas e comparadas antes da decisão.
O que está em discussão, portanto, é a inclusão desses desafios na estratégia da futura concessão.
Para o Conselho de Desenvolvimento, o horizonte deve ser de décadas. A infraestrutura definida agora poderá determinar a capacidade de Ponta Grossa de aproveitar sua posição geográfica, integrar diferentes modais e ampliar a competitividade dos Campos Gerais.
A tese central da manifestação é que o custo de uma obra não pode ser analisado isoladamente. Também precisa entrar na conta o custo de manter gargalos estruturais e, principalmente, o potencial econômico de uma infraestrutura moderna, segura e integrada.



