Polilaminina é aplicada pela primeira vez nos Campos Gerais no HU-UEPG
Medicamento pode mudar a forma de tratamento de lesões medulares e foi utilizado de maneira inédita no Hospital da Universidade Estadual de Ponta Grossa (HU-UEPG)

Histórico: um medicamento que pode mudar a forma de tratamento de lesões medulares foi utilizado de maneira inédita no Hospital da Universidade Estadual de Ponta Grossa (HU-UEPG) em 23 de setembro. A polilaminina, substância experimental, é estudada para estimular a regeneração de tecidos e conexões nervosas em lesões agudas da medula espinhal.
A polilaminina foi desenvolvida pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) em parceria com o Laboratório Cristália e está em fase de uso compassivo, conforme a RDC Anvisa nº 38/2013, o que significa que sua utilização é decidida caso a caso. Quem explica como funciona a substância é o médico neurocirurgião especialista em cirurgia de coluna Marco Aurélio Braz de Lima, pesquisador responsável pela aplicação do medicamento no HU-UEPG, em conjunto com o médico Rui Tamoyo Vendas Rodrigues Neto.
Chefe da neurocirurgia do Hospital Estadual Azevedo Lima (Niterói) e do Hospital Municipal de Maricá, ele coordena o ensino de cirurgia de coluna no Hospital Souza Aguiar e ajudou a definir os critérios de aplicação em humanos e foi o primeiro neurocirurgião a aplicá-la em medula lesada.
Segundo ele, depois de uma lesão, a medula espinhal tem muita dificuldade de se regenerar, porque as células nervosas perdem o “caminho” para se reconectar. “A laminina é uma proteína que existe naturalmente no nosso corpo e funciona como um ‘andaime’, guiando o crescimento dessas células. A Polilaminina é uma forma dessa proteína, desenvolvida pela professora Tatiana Coelho-Sampaio, da UFRJ, e aplicada diretamente na lesão para estimular a regeneração”, explica. Ele disse ainda que os estudos partiram de animais (roedores e cães) e chegaram à autorização da Fase 1 em humanos em janeiro de 2026, principalmente em casos de lesões medulares graves.
“A aplicação da Polilaminina no HU-UEPG representa um momento de grande relevância para a instituição e para a saúde pública dos Campos Gerais”, destaca a diretora-geral dos Hospitais, professora Fabiana Mansani. Para ela, como hospital universitário exclusivamente SUS, o HU-UEPG tem a missão de unir assistência, ensino, pesquisa e inovação. “Participar de uma iniciativa dessa natureza demonstra a capacidade da instituição de estar inserida nos avanços científicos e tecnológicos da área da saúde, oferecendo à população atendida pelo SUS a possibilidade de acesso a uma terapia inovadora dentro de um ambiente hospitalar público e universitário”, completa.
Para ela, o significado dessa iniciativa é enorme e motivo de muito orgulho, tanto para os hospitais da UEPG quanto para o SUS, porque uma instituição pública tem uma responsabilidade que vai além da assistência. “Também deve ser um espaço de produção de conhecimento, formação de profissionais e incorporação responsável de novas tecnologias. A experiência com a polilaminina reforça exatamente esse papel. É resultado do trabalho conjunto de profissionais de diferentes áreas, pesquisadores, residentes, gestores e equipes de apoio, todos comprometidos com uma assistência qualificada e com o desenvolvimento da ciência”, garante.
Segundo o diretor técnico dos HU-UEPG, o médico Marcelo Young Blood, o maior beneficiado é o paciente, mesmo ainda o medicamento estando em um protocolo experimental. “Até mesmo o efeito psicológico que a aplicação pode trazer na recuperação do paciente. Ele imaginar que fez parte de uma medicação que pode melhorar o processo de reabilitação, isso já traz um otimismo e um ânimo novo”, afirma. Ele disse ainda que só foi possível realizar o procedimento porque as equipes do hospital e da 4ª Regional de Saúde atuaram até mesmo fora do horário de atendimento para viabilizar em tempo hábil as autorizações e o uso da medicação.
Quem acompanhou de perto toda a aplicação da Polilaminina foi o responsável pela neurocirurgia do HU-UEPG, o médico Fábio Viegas. Segundo ele, já era de conhecimento dele e da equipe das UTIs os critérios elegíveis para a aplicação do medicamento, porém faltava o contato com os responsáveis pelo estudo.
“Quando apareceu um paciente que se enquadrasse nos critérios, fizemos o contato com o laboratório Cristália, por intermédio do nosso diretor técnico, e de modo célere conseguimos a liberação deles para o uso da medicação, faltando apenas a autorização por parte da Anvisa. Esta também se deu maneira bem rápida, assim como a disponibilização da equipe, que veio do RJ para orientar e acompanhar o procedimento”, afirma. “Foi empolgante demais. Parecia um residente aprendendo uma técnica neurocirúrgica nova, que impactaria positivamente na vida do paciente. E na verdade, foi assim mesmo, tirando apenas o fato que não sou mais residente há uns bons anos”, brinca Viegas.
Quem pode receber a Polilaminina?
O médico Braz de Lima explica que os critérios de elegibilidade para o uso da Polilaminina são: lesão torácica; até 72 horas do trauma; déficit neurológico completo (escala ASIA grau A) e idade entre 18 e 72 anos. “Novos casos devem ser encaminhados diretamente ao laboratório, pela família e/ou pelo médico assistente, com relatório médico, exames de imagem e a data da lesão. Casos fora desses critérios só podem ser atendidos com autorização judicial”, comenta.
Viegas ressalta que a Polilaminina ainda é uma medicação experimental, que se encontra em uma fase primária de avaliação do seu uso em humanos, ainda que há mais de uma década vem sendo testada em laboratório e com resultados surpreendentes. “Ainda há um longo caminho a ser percorrido, mas a esperança de que conseguiremos melhorar ou até reverter um dos grandes males da Medicina, que são as sequelas de lesões neurológicas graves da coluna, é grande”, almeja. “Creio que o impossível, para esses casos, deixará de sê-lo muito em breve”.
“O paciente permanece sob acompanhamento da equipe assistencial especializada, com monitoramento contínuo de sua evolução clínica. Neste momento, é importante ter cautela na interpretação dos resultados”, finaliza a professora Fabiana. “A aplicação da Polilaminina representa uma etapa de um processo que exige acompanhamento clínico e avaliação criteriosa ao longo do tempo”.



