Orkut de volta? Fundador publica carta e pede uma internet mais humana
Engenheiro lançou uma petição online e criticou algoritmos, publicidade e conteúdos gerados por inteligência artificial

O engenheiro de software Orkut Büyükkökten, criador da antiga rede social Orkut, voltou a chamar a atenção dos internautas após publicar uma carta aberta no site oficial da plataforma. No texto, ele critica os rumos das redes sociais e lança uma petição online para mobilizar usuários em defesa de ambientes digitais voltados à interação humana.
Intitulado “Uma internet mais gentil é possível”, o manifesto questiona o modelo de negócios adotado pelas principais plataformas digitais nas últimas duas décadas. Segundo Büyükkökten, a busca por manter os usuários conectados pelo maior tempo possível transformou as pessoas em alvos de publicidade e de mecanismos de engajamento que podem contribuir para o isolamento e a ansiedade.
Críticas aos algoritmos e à inteligência artificial
Conforme a CNN, o desenvolvedor também chama a atenção para os desafios associados ao avanço da inteligência artificial, como a disseminação de bots, deepfakes e conteúdos sintéticos. Na avaliação dele, a lógica empresarial resumida pela expressão “aja rápido e quebre coisas” prejudicou a autenticidade das relações no ambiente digital.
Büyükkökten defende uma mudança na forma como as redes sociais são desenvolvidas e administradas, com prioridade para conexões genuínas entre pessoas, em vez de estratégias voltadas principalmente à retenção de usuários e à geração de receita publicitária.
Criador relembra proposta de 2022
A nova iniciativa retoma uma movimentação iniciada em abril de 2022, quando o endereço orkut.com voltou ao ar após anos de inatividade. Na época, o fundador afirmou que trabalhava em um novo projeto com foco no combate ao ódio e à desinformação e disponibilizou um espaço para que interessados cadastrassem seus e-mails.
Na carta recente, o engenheiro destaca a importância das comunidades, um dos recursos mais conhecidos da antiga rede social. Para ele, os grupos temáticos permitiam que pessoas com interesses em comum encontrassem espaços de pertencimento e trocassem experiências diretamente.
A proposta contrasta com os feeds organizados por algoritmos, que priorizam a seleção e a recomendação automatizada de publicações. O manifesto busca mobilizar antigos usuários e outros internautas em torno da ideia de uma internet mais centrada nas relações humanas.
Leia íntegra
Oi de novo.
Sou eu, o Orkut.
Fiquei em silêncio por um tempo, mas preciso falar com você. O trabalho de toda minha vida tornou-se algo urgente como nunca imaginei. Há mais de duas décadas, criei algumas das primeiras redes sociais. E vi, junto com você, as redes sociais tomarem o rumo errado.
Você lembra de quando a internet era humana? De quando receber uma mensagem de alguém em outro continente parecia mágica? Outra pessoa tinha atravessado o mundo para compartilhar um pedacinho de si. Talvez a conexão durasse só um instante, mas era emocionante porque era real.
O que aconteceu? Vinte anos otimizando tudo para capturar a sua atenção. Feeds construídos em torno do engajamento, não da conexão. Uma geração de crianças entregue a algoritmos que as viciaram, dividiram e as venderam para anunciantes. Não é de surpreender que tenham crescido solitárias e ansiosas.
Eu ainda amo esta indústria, mas é desesperador ver o que ela se tornou. “Aja rápido e quebre coisas”, dizia o lema. Pois bem: as coisas estão quebradas. E agora as máquinas chegaram. A inteligência artificial é uma tecnologia extraordinária, mas está dissolvendo a única premissa que tornou as redes sociais especiais e dignas de serem construídas: a de que havia uma pessoa do outro lado.
Quando as pessoas me contam do que mais sentem falta no orkut.com, elas sempre falam das comunidades. Pessoas que consertavam a mesma moto. Pessoas que pegavam a mesma linha de ônibus. Pessoas que odiavam segunda-feira. Num feed, você é plateia; numa comunidade, você é membro. Esse era o ponto.
Você já viu o que a IA está fazendo com as redes sociais: bots, lixo de IA, deepfakes, agentes autônomos descontrolados, conteúdo sintético. Sabe o que a IA não consegue criar?
Alegria. Esperança. Gratidão. Encanto. Diversão. Inspiração. Amor. É isso que faz uma vida valer a pena. Cheguei a este mundo sozinho e sem nada, e de alguma forma acabei com tanto. Cada pedacinho disso veio do amor. Então, encontre-o. Dê de presente. Segure firme. Faça crescer. A vida passa rápido, e as máquinas não vão dar mais dela a você.
Vejo um futuro diferente para a internet, construído em torno de pessoas reais, com um ser humano do outro lado de cada mensagem. Um futuro que não gira em torno de algoritmos, olhos capturados e otimização de tempo na tela. A próxima geração merece um mundo melhor, onde suas comunidades recompensem a gentileza, a curiosidade, a amizade, a confiança e a conexão.
Eu quero viver nesse mundo. Sei que você também quer.
Eu sei como chegar lá: vamos reconstruir a internet pela qual nos apaixonamos. Aquela com pessoas autênticas, conexão real e pertencimento genuíno. Mas não consigo construí-la sem você.
Peço que você se junte ao movimento. Entre em orkut.com e adicione seu nome. Depois, pense em uma pessoa que você gostaria de ter lá com você e envie seu cartão de apoiador para ela. Diga por que pensou nela. Lembre a ela por que você se importa.
Um algoritmo não consegue fazer a vida valer a pena. Mas um amigo consegue. Uma comunidade consegue. Então, vamos parar de otimizar para capturar a atenção e começar a otimizar uns para os outros. E vamos fazer isso do jeito que tudo de bom na minha vida aconteceu: com amor, e juntos.
Vamos tornar a internet humana de novo, juntos!



