Editorial
As famílias precisam ser retiradas das áreas de risco
Da Redação | 11 de setembro de 2026 - 03:21
A morte de três pessoas soterradas dentro de uma residência, após o deslizamento de um barranco na região da Ronda, não pode ser tratada apenas como uma fatalidade provocada pela força da natureza. A chuva pode ser imprevisível em sua intensidade, mas os riscos que ela potencializa, muitas vezes, são conhecidos. E quando o poder público já sabe onde estão as áreas vulneráveis, a prevenção deixa de ser uma possibilidade e passa a ser uma obrigação.
Ponta Grossa possui, segundo levantamento apresentado ao
longo deste ano, 105 áreas de risco identificadas. Há locais sujeitos a
alagamentos, ocupações próximas a arroios, fundos de vale, Áreas de Preservação
Permanente e pontos com possibilidade de movimentação de terra. A própria
região da Ronda já estava entre os locais que exigiam atenção. Portanto, o que
aconteceu nesta quinta-feira não surgiu de um problema completamente
desconhecido.
A tragédia reforça a necessidade de que o município acelere
a retirada das famílias que vivem em pontos onde a permanência representa risco
à vida. Não se trata de simplesmente chegar às comunidades e determinar que
moradores abandonem suas casas. Há famílias que construíram sua história nesses
locais e que não possuem recursos para encontrar, por conta própria, uma
alternativa de moradia. A retirada precisa vir acompanhada de políticas
habitacionais, aluguel social, acolhimento e acompanhamento social.
Mas é igualmente importante que a sociedade compreenda que
determinadas áreas não podem continuar sendo ocupadas. A fiscalização precisa
funcionar antes da construção, antes da ampliação irregular e antes que novas
famílias sejam expostas ao perigo. Permitir que ocupações avancem sobre
encostas, fundos de vale e áreas ambientalmente protegidas significa transferir
para o futuro um problema que, em algum momento, poderá cobrar um preço muito
alto.
A prevenção também precisa estar no centro da política
urbana. Mapear nascentes, encostas e áreas suscetíveis a alagamentos é
fundamental, mas o mapa, sozinho, não salva vidas. É preciso acompanhar
permanentemente esses pontos, atualizar os diagnósticos, fiscalizar ocupações,
promover intervenções de drenagem e contenção quando forem tecnicamente
indicadas e recuperar áreas ambientalmente degradadas.
A aprovação de protocolos para situações de desastres
naturais pela Câmara Municipal representa um avanço, especialmente por prever
mapeamento, rotas de evacuação, pontos de encontro, obras preventivas e
relatórios periódicos. Agora, é necessário transformar essas diretrizes em uma
política permanente de proteção e defesa civil.
A sequência de chuvas prevista para os próximos dias aumenta
a urgência. Solo encharcado, encostas instáveis e rios em elevação formam uma
combinação que exige atenção redobrada. O momento é de agir, não apenas de
reagir.
O poder público tem a responsabilidade de proteger,
fiscalizar, planejar e oferecer alternativas dignas às famílias em situação de
vulnerabilidade. A sociedade, por sua vez, precisa colaborar, respeitar as
orientações da Defesa Civil e compreender que uma casa construída em área de
risco não é apenas uma questão de ocupação urbana, mas uma ameaça potencial à
própria vida.
A tragédia da Ronda precisa deixar uma lição. Ponta Grossa
não pode esperar o próximo deslizamento para voltar a discutir áreas de risco.
Os levantamentos já existem, os pontos críticos são conhecidos e as ferramentas
de prevenção estão disponíveis. O que falta, em muitos casos, é transformar
informação em ação.
Prevenir sempre será menos doloroso do que lamentar. E, diante de vidas perdidas, nenhuma obra, nenhum protocolo e nenhuma política pública poderá ser considerada mais importante do que agir a tempo.