Editorial
O desafio de modernizar o trânsito sem prejudicar a segurança
Da Redação | 26 de maio de 2026 - 02:12
A decisão da Prefeitura de Ponta Grossa de retirar ou readequar lombadas e travessias elevadas irregulares representa mais do que uma simples intervenção viária. Trata-se de uma mudança de conceito sobre mobilidade urbana, segurança no trânsito e planejamento da cidade. Durante muitos anos, a instalação de lombadas ocorreu quase como uma resposta automática às reclamações da população e às solicitações de vereadores. Em diversos bairros, bastava um pedido político ou a pressão de moradores para que um redutor de velocidade fosse implantado, muitas vezes sem estudo técnico aprofundado.
O resultado desse modelo pode ser visto até hoje em vários pontos da cidade: lombadas instaladas próximas de curvas, em aclives, perto de rotatórias ou fora dos padrões estabelecidos pelas normas de trânsito. Em vez de aumentar a segurança, algumas acabaram se tornando fator de risco, provocando freadas bruscas, danos mecânicos, congestionamentos e até acidentes. Motoristas passaram a conviver com um trânsito irregular, marcado por interrupções constantes do fluxo, enquanto motociclistas e ciclistas enfrentaram situações ainda mais perigosas.
O Termo de Ajuste de Conduta firmado entre a Prefeitura e o Ministério Público surge justamente para corrigir distorções acumuladas ao longo de anos. A retirada de dispositivos inadequados não significa abandonar a preocupação com a segurança, mas sim substituí-la por soluções mais eficientes e compatíveis com os novos conceitos de mobilidade urbana. O trânsito das cidades modernas não pode ser organizado apenas por obstáculos físicos espalhados pelas vias. Hoje, o planejamento exige integração entre engenharia, fiscalização, sinalização e tecnologia.
Nesse contexto, os investimentos em radares de última geração representam uma transformação importante. Diferentemente das lombadas, que penalizam todos os motoristas indiscriminadamente, os equipamentos eletrônicos conseguem identificar apenas quem realmente ultrapassa os limites de velocidade. Além disso, mantêm o fluxo viário mais uniforme, reduzem o desgaste dos veículos e permitem maior controle sobre pontos críticos da cidade. Em avenidas de grande circulação, por exemplo, a fiscalização eletrônica se mostra muito mais eficiente do que sucessivas barreiras físicas.
É evidente que parte da população ainda associa lombadas à sensação imediata de segurança. Muitos moradores acreditam que, sem elas, os motoristas irão abusar da velocidade. Essa preocupação é legítima, especialmente em regiões residenciais e próximas de escolas. Porém, o debate precisa amadurecer. Segurança viária não depende apenas de lombadas, mas de um conjunto de medidas permanentes, incluindo sinalização adequada, educação no trânsito, fiscalização constante e projetos urbanos bem planejados.
A própria expansão desordenada de Ponta Grossa contribuiu para o problema. A cidade cresceu rapidamente, muitas vezes sem um planejamento viário capaz de acompanhar o aumento da frota e das demandas de mobilidade. Nesse cenário, as lombadas acabaram sendo usadas como solução emergencial para problemas estruturais. Agora, o município tenta reorganizar esse sistema, corrigindo excessos e adaptando a cidade às exigências técnicas atuais.
A retirada ou readequação desses dispositivos certamente provocará debates e resistência em alguns pontos da cidade. Entretanto, a modernização do trânsito exige decisões técnicas e não apenas políticas. O desafio da Prefeitura será equilibrar fluidez e segurança, garantindo que a eliminação de lombadas irregulares venha acompanhada de fiscalização eficiente e melhorias urbanas. Mais do que retirar obstáculos das ruas, o município precisa construir uma nova cultura de mobilidade, capaz de tornar o trânsito mais seguro, inteligente e compatível com a realidade de uma cidade que continua crescendo.