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A jactância da flatulência

Imagem ilustrativa da imagem A jactância da flatulência

Por Mário Sérgio de Melo

Assusta ver quantas pessoas, no Brasil e no mundo, jactanciam-se da própria flatulência: são negacionistas, odeiam a ciência, não leem livros, só acreditam na própria verdade, não questionam nada, não dão bola para a tolerância, o diferente. São pessoas facciosas, que só têm alguma empatia com outros iguais a elas. Desdenham da cultura popular, aquela que revigora a sensibilidade, o lúdico, a arte que é da lide dos simples. Mas amam o BBB, as mentiras nos celulares, as novelas, as bets... São os ressentidos – ou os medrosos – de um arranjo social perverso, que dissemina a exploração e a frustração. Acreditam que a salvação seja ainda mais flatulência.

Reconhecer a própria flatulência seria catastrófico para a autoestima. O mundo não perdoa os flatulentos. Ou não perdoava. Agora eles querem controlar o mundo. Unem-se, mobilizam-se para isso. Não perceberam que sua flatulência os faz presa fácil de poderosos, nada flatulentos, que os manipulam para que nada mude: o mundo continue sendo o mesmo, os poderosos sempre poderosos, os flatulentos sempre flatulentos, empobrecida massa de manobra a produzir com o trabalho explorado a riqueza do milionário sagaz cada vez mais rico, cada vez mais explorador do flatulento e controlador de quem vai ou não ser um flatulento.

Analistas dizem que essa massa ignara é fruto desta civilização que muito prosperou em conhecimento e tecnologia, e retrocedeu em ética, equidade, justiça, solidariedade e espiritualidade. Apesar do saber que acumulamos, a injustiça social nunca foi tão evidente, o mundo nunca esteve tão em risco de colapso climático, de guerras de aniquilação, de chantagens econômicas e militares, de lavagens cerebrais e doutrinações feitas por sofisticadas tecnologias de lawfares e guerras cognitivas. Este avanço do conhecimento e da tecnologia sem igual avanço da ética e da lucidez é um traço comum ao colapso de todas as civilizações da história. Estaremos nós à beira da falência de nossa própria civilização, a ascensão da flatulência e da jactância seriam só um dos muitos sinais?

O Homo sapiens mudou pouco desde que surgiu: ainda somos movidos mais por instintos de agressividade e reprodução, indispensáveis para a preservação da espécie, do que por sentimentos de compreensão e amorosidade, indispensáveis para a sobrevivência em uma sociedade com mais de oito bilhões de almas. Ainda reagimos como feras. O inusitado é que o conhecimento nos deu o poder de destruir o planeta. Antes de destruí-lo, decerto convulsionaremos o clima, dizimaremos florestas e a biodiversidade, poluiremos águas e ar, queimaremos livros, crucificaremos verdadeiros sábios e líderes, e sabe-se lá o que mais.

Reconhecer a própria flatulência não é fácil. Mesmo os afortunados que se emanciparam da massa ignara precisam exercitar o olhar para dentro de si mesmos, para enxergar suas próprias limitações. Talvez assim adiemos o colapso desta civilização.

Flatulência: equivale a violência, arrogância, prepotência, insolência, ignorância...

Mário Sérgio de Melo é Geólogo, professor aposentado do Departamento de Geociências da UEPG

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