Debates
Neymar, o filho de um Brasil
Da Redação | 11 de agosto de 2026 - 01:41
Por Mário Sérgio de Melo
Sim, filho “de um” Brasil, e não filho “do” Brasil. Nosso país é campeão mundial de contrastes, desigualdades, segregações, injustiças. Traços funestos fruto de muitos fatores: colonização extrativista, extermínio dos nativos, demorada escravidão, elites oligárquicas, gananciosas e reacionárias, extensão e diversidade territorial, mistura de raças, religiões, culturas... O Brasil dos mapas inclui muitos brasis. Decerto cada um tem seu próprio filho.
A lista de brasileiros hoje com o maior número de seguidores nas redes sociais surpreende: os três primeiros nomes são de boleiros. Começa com Neymar, seguido de Ronaldinho Gaúcho e Marcelo, estes dois últimos já não profissionais. O número de seguidores de Neymar é maior que a população do Brasil! Ele é um ídolo não só em nosso país. O craque tem quatro vezes mais seguidores que a cantora Anitta, a única não futebolista entre os cinco primeiros. Somos mesmo o país do futebol, esse lúdico entretenimento que galvaniza as paixões nacionais, vencendo até a polarização ideológica.
Mas o que acontece com o futebol, e seu símbolo atual, Neymar? É evidente, ambos estão em crise. Exceto o meia atacante, que agoniza no Santos, já não temos craques de expressão. Não ganhamos uma copa há 24 anos, e nem mesmo outros títulos relevantes. E Neymar parece um ególatra ressentido, à beira de um ataque de nervos. Não dura num time, provoca a cizânia por onde passa. Amiúde lesionado, é ausência em jogos decisivos. Provoca e desacata adversários, colegas de time, árbitros e até mesmo o técnico e a direção do clube. Dá vergonha vê-lo em situações como o pênalti ao final do jogo perdido para a Noruega, ou a afronta a jogadores do Remo no jogo pela Copa do Brasil em Belém do Pará. O que acontece com Neymar e com o futebol que um dia nos salvou do complexo de vira-lata?
O craque, como tantos brasileiros, é filho de família humilde, que teve de lutar para sobreviver, vencer preconceitos e melhorar de vida. Um início não muito diferente de outro já celebrado “filho ‘do’ Brasil”, um retirante pobre, o metalúrgico que se tornou um dos estadistas mais respeitados no mundo atual. Mas que não é reconhecido em nosso país como o é no restante do mundo democrático. O que aconteceu com Neymar? O que suas centenas de milhões de seguidores esperam de um ídolo, de um líder, e do país?
Num país racista e desigual como é o Brasil, ter o talento futebolístico que tem Neymar é uma forma de vencer a pobreza. Mas há no presente e no passado recente muitos craques brasileiros que fizeram de sua fama um exemplo de superação, de apoio, de solidariedade com os mais marginalizados. Por que, ao invés de financiar megaprojetos que são um ultraje ao cuidado social e ambiental, Neymar não dedica seu enorme sucesso financeiro a causas que ajudem a emancipar e a incluir tantos sem oportunidades?
O talento de Neymar faz pensar nos talentos do Brasil. Que o desequilíbrio do craque nos faça refletir sobre as possibilidades, e riscos, a respeito de nosso futuro.
Mário Sérgio de Melo é Geólogo, professor aposentado do Departamento de Geociências da UEPG