Debates
Agosto, Bukowski e meu pai
Da Redação | 03 de agosto de 2026 - 14:07
Poe Giovani Marino Favero
Eu havia prometido a mim mesmo que neste ano não escreveria sobre a morte do meu pai.
Não por falta do que dizer. Pelo contrário. Existem assuntos que, de tanto voltarem, começam a parecer preguiça do escritor. A morte de um pai corre esse risco. A gente escreve uma vez para entender, outra para suportar e, quando percebe, está apenas repetindo a mesma dor com palavras diferentes.
Resolvi deixar agosto passar em branco.
Agosto tem uma fama injusta. Culparam o mês por suicídios, presidentes, acidentes, crises econômicas e casamentos desfeitos. Como se os outros onze fossem administrados por algum santo padroeiro da boa sorte. Ainda assim, agosto sempre me encontra mais silencioso do que os demais meses. Talvez porque tenha aprendido a associar o calendário a certas ausências.
Quando a vontade de ler desaparece, faço sempre a mesma coisa. Volto aos escritores de confiança. Eles funcionam como aqueles bares em que o garçom não pergunta o pedido porque já conhece o freguês. Foi assim que apelei para o Bukowski.
Abri o livro sem procurar nada específico e fui parar justamente em A morte de meu pai. Há livros que escolhem seus leitores.
O texto do Bukowski é maravilhoso. Ele escreve sobre quadros, torradeiras, vizinhos, ferramentas de jardim, potes de geleia e um carro usado. Enquanto todos disputam os objetos deixados pelo velho, ele parece observar tudo com uma espécie de cansaço. No fim, restam uma cama, uma geladeira, um fogão e uma mangueira. Então ele rega as rosas.
Terminei de ler e fiquei pensando que a morte talvez seja isso. Não a cerimônia, nem o caixão. A morte acontece quando os objetos começam a perder o dono.
Lembrei do meu pai, não do hospital, nem do velório. Lembrei de uma chave inglesa cuja utilidade eu nunca aprendi, da maneira como ele descascava laranjas, do jeito que ele batia na porta de casa para que o seu neto soubesse que era ele. Descobri que a memória é uma péssima roteirista. Ela ignora os grandes acontecimentos e insiste em guardar detalhes absolutamente inúteis.
Nunca consegui recordar a última conversa que tivemos. Mas consigo lembrar perfeitamente da forma como ele segurava uma xícara de café.
Talvez seja assim com todo mundo.
A gente imagina que herdará ensinamentos profundos. Na verdade, herdamos pequenos gestos. Uma mania de assistir ao jogo do time do coração. Um jeito de cruzar os braços. O jeito de se emocionar. Uma expressão repetida sem perceber. Anos depois, alguém comenta: "Você fez exatamente como seu pai."
É nesse instante que entendemos que certas pessoas não desaparecem. Apenas mudam de endereço.
Bukowski terminou sua história regando rosas.
Eu lendo o texto dele.
E descobrindo, com algum constrangimento, que eu havia quebrado a promessa de não escrever sobre meu pai outra vez.
Na verdade, a culpa foi do Bukowski.
Ou talvez do agosto, que continua tendo o estranho hábito de abrir portas que eu jurava ter deixado fechadas.
Giovani Marino Favero é professor associado do Departamento de Biologia Geral da UEPG.