Debates
Sustentabilidade
Da Redação | 30 de junho de 2026 - 01:55
Por Mário Sérgio de Melo
“Sustentabilidade” é a harmonia natureza-sociedade-economia.
Uma harmonia que assegure que a atividade humana seja sensata, garantindo que
nossa civilização seja durável, sustente-se através dos tempos, sem crises nem
colapsos. A simplicidade da definição é só aparente. Qual a amplitude da
natureza, do meio ambiente que faculta a vida no planeta Terra? Ela vai desde
os micro-organismos que fertilizam o solo até a atmosfera que nos protege da
radiação solar. E sociedade engloba a crescente complexidade da nossa
civilização, sobretudo diante das revolucionárias novas tecnologias. E quando
tratamos de economia, damo-nos conta do vil sistema econômico, que promove o
hiperconsumismo, a insana depredação dos recursos naturais, a competição e a ambição,
concentra riqueza e dissemina pobreza?
A palavra “sustentabilidade” tem sido vulgarizada, para ser
um enganoso verniz em produtos, ações e ideias concebidos dentro do insano
sistema econômico, que não é nada sustentável. Na questão ambiental, os exemplos
de crise são o aquecimento global, a degradação de ecossistemas, a extinção de
espécies, a pandemia. Na sociedade, temos crescente criminalidade e
intolerância, efeito da injustiça social, a vitória da mentira sobre verdade, a
falência da ética e da política, o belicismo entre nações, os temores com a subversão
da inteligência artificial, a educação para o emburrecimento, o risco de novas
pandemias... São evidências de que a sociedade não está sustentável. Hoje o que
é gasto com armas seria suficiente para resolver os problemas mundiais de
alimentação, saúde, emprego e moradia dignos, educação para a emancipação,
cultura, lazer... Os gastos com armas são a mais clara evidência da
insustentabilidade atual.
Não é só a palavra “sustentabilidade” que está divorciada de
seu real significado. Outras fazem companhia a ela: “Deus”, “Cristo”, “fé”, “família”,
“pátria” são algumas. O aviltamento destas palavras e de seu sentido nos impõe
uma reflexão, se buscamos mais clareza para nos situarmos nesta crescente
desarmonia do mundo em que vivemos. Implica a psicanálise do ser humano e da
sociedade atual, que decide movida por pulsões, e não pela razão e
sensibilidade.
O entendimento que temos destas vulgarizadas palavras não é
mais fruto de um sentimento legítimo, pessoal, refletido: é fruto de uma
massificação irrefletida, que é a principal tática de preservação dos oportunistas
que se aproveitam do aviltamento do valor do trabalho para locupletar-se. Eles
investem tudo que podem para que a sociedade continue se confundindo. O povo
ignorante e desunido é mais fácil de ser logrado.
Desde que o reflexo condicionado foi estudado, a repetição
da mentira até parecer verdade tem sido poderoso aliado do embuste do povo. O
ser humano prefere aceitar uma afirmação alheia pronta do que ter de refletir
para compreender a complexa realidade.
Se não refletirmos e escutarmos a própria consciência,
continuaremos sendo bucha de canhão daqueles que enriquecem com a
insustentabilidade.
Mário Sérgio de Melo é Geólogo, professor aposentado do Departamento de Geociências da UEPG