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Vem aí soja com altos teores de ácido oleico
Da Redação | 26 de junho de 2026 - 00:43
Por Décio Luiz Gazzoni
A soja com alto teor de ácido oleico — denominada HOSB, do
inglês high-oleic soybean — apresenta teor de ácido oleico, que supera 70–75%
nas cultivares comercialmente disponíveis nos Estados Unidos. Essa composição é
quase a mesma do azeite de oliva, o mais apreciado pelos consumidores.
Nas cultivares convencionais, a composição de ácidos graxos
inclui 20- 23% de ácido oleico, que é monoinsaturado, ou seja, na sua fórmula
existe apenas uma ligação entre átomos de carbono com liga dupla. Também contém
50- 53% de ácido linoleico e 8 – 10% de ácido linolênico, que são
poli-insaturados, com duas ligas duplas entre átomos de carbono. A presença de
duas ligas duplas torna esses ácidos mais facilmente oxidáveis
Assim, a elevação do teor de ácido oleico, associada à
redução das concentrações de linoleico e linolênico, aumenta significativamente
a estabilidade oxidativa do óleo. Dessa forma, ao reduzir a taxa de oxidação,
reduz substancialmente a formação de compostos que geram aromas e sabores
indesejáveis.
Bases genéticas e desenvolvimento de cultivares
A chave genética da HOSB está em dois genes codificadores da
enzima delta-12 desaturase de ácidos graxos: FAD2-1A e FAD2-1B. Mutações nesses
dois genes, quando combinadas em homozigose, elevam o teor de ácido oleico para
75% a 85%, comparado aos 20% típicos da soja convencional. Mutações em apenas
um dos genes produzem aumentos modestos, insuficientes para uso comercial,
sendo obrigatória a combinação das duas versões mutantes para viabilizar a
característica alto-oleico de forma estável e expressiva
Esse mecanismo genético relativamente simples — duas
mutações em genes amplamente conhecidos
— permite tanto rotas biotecnológicas (transgenia e edição gênica) quanto o
melhoramento convencional não-OGM. Linhas não-transgênicas, com até 85% de
ácido oleico já foram desenvolvidas por melhoramento convencional, utilizando
marcadores moleculares para acelerar o processo, sem a necessidade dos
processos regulatórios custosos associados às cultivares transgênicas. No mercado
norte-americano, já estão disponíveis três cultivares transgênicas, juntamente
com a pioneira Soyleic® (da Universidade de Missouri), obtida por melhoramento
clássico, não-OGM.
Bom para a saúde!
O ácido oleico é um ácido graxo pertencente ao grupo
ômega-9, monoinsaturado, que é um redutor do teor do colesterol LDL
(considerado o “mau” colesterol), o que reduz o risco de acidentes
cardiovasculares, conferindo ao óleo de HOSB perfil nutricional superior ao do
óleo convencional. Há uma vantagem adicional do ponto de vista da saúde, porque
a maior estabilidade oxidativa do ácido oleico elimina ou reduz
substancialmente a necessidade de hidrogenação parcial durante o processamento.
É a hidrogenação que forma gorduras trans, consideradas
nocivas à saúde. Esse tipo de gordura é citado na literatura médica como
responsável pelo aumento do risco de doenças cardiovasculares, acidentes
vascular-cerebral, diabetes tipo 2 e resistência à insulina, síndrome
metabólica e obesidade, além da inflamação orgânica crônica. Assim as
cultivares HOSB respondem diretamente à demanda dos consumidores e às
crescentes exigências regulatórias, relativamente à redução ou eliminação de
ácidos graxos trans em alimentos industrializados.
A estabilidade térmica também é notavelmente superior. O
óleo HOSB suporta temperaturas de fritura por períodos significativamente mais
longos, sem degradação, o que reduz o consumo de óleo na cozinha, diminui a
formação de compostos de degradação oxidativa e resulta em produto final de
melhor qualidade sensorial e nutricional. Para redes de alimentação rápida e a
indústria de processamento de alimentos, esse ganho operacional representa
redução direta de custos e melhora da qualidade do produto final.
Biodiesel
O biodiesel derivado de óleo de soja convencional apresenta
dois problemas técnicos: baixa estabilidade oxidativa e propriedades
inadequadas de escoamento, em baixas temperaturas. O elevado teor de ácidos
graxos poli-insaturados — notadamente linoleico e linolênico — torna o
biodiesel de soja convencional suscetível à oxidação, resultando em aumento de
viscosidade, formação de gomas e entupimento de filtros e injetores,
necessitando de aditivos para atender às normas.
Já o óleo de soja com alto teor de ácido oleico apresenta
estabilidade oxidativa significativamente superior, sendo valioso para
aplicações em combustíveis e produtos industriais, além de melhorar o
comportamento do combustível em baixas temperaturas. Para o Brasil, onde o óleo
de soja responde por aproximadamente 85% da produção nacional de biodiesel, e a
mistura obrigatória avança rumo ao B16, a adoção progressiva de cultivares
alto-oleico representaria ganho simultâneo em qualidade do combustível, redução
do uso de antioxidantes sintéticos e maior conformidade com as normas técnicas
internacionais (EN 14214), fortalecendo a competitividade do biodiesel
brasileiro nos mercados externos.
Aplicações industriais
A versatilidade do ácido oleico abre múltiplas frentes de
valorização industrial. O óleo de soja alto-oleico tem valor em diversas
aplicações industriais não alimentares, como lubrificantes de base biológica e
fluidos industriais, com produtos em desenvolvimento ou em fase de
comercialização por vários fabricantes. Sua viscosidade adequada em baixas
temperaturas, superior estabilidade termooxidativa e biodegradabilidade o
tornam atraente para lubrificantes de alto desempenho, óleos de correntes e
trilhos, fluidos hidráulicos e graxas — aplicações em que a soja convencional
se qualificava apenas com modificação química custosa
Na indústria oleoquímica, o segmento industrial beneficia-se
de sua utilização como lubrificante biodegradável e na produção de
oleoquímicos, diversificando a base de aplicações e atraindo investimentos
expressivos em pesquisa e desenvolvimento. Setores farmacêutico e cosmético
também se beneficiam, pois o óleo HOSB serve como veículo em formulações
farmacêuticas e ingrediente emoliente em cosméticos, graças à sua pureza,
estabilidade e compatibilidade cutânea.
Mercado e expansão
Aproximadamente 0,7 milhão de hectares (Mha) de HOSB foram
cultivados nos EUA em 2025, com projeção de 1,5 Mha até 2030, com avanços
expressivos ao longo da próxima década. Em média, os prêmios pagos ao produtor
variam entre US$0,50 e US$1,15 por bushel sobre a cotação da soja convencional,
dependendo da região e do comprador. O mercado global do óleo de soja
alto-oleico atingiu US$3,26 bilhões em 2024, com taxa de crescimento anual
composta de 8,1%, e projeta-se que alcance US$6,37 bilhões até 2030. O crescimento
é impulsionado principalmente pela indústria alimentícia, também avançando na
diversificação para aplicações industriais, farmacêuticas e cosméticas.
No Brasil, cultivares com perfil diferenciado de ácidos
graxos foram identificadas desde os anos 1990, como a EMBRAPA-4, com teor de
ácido oleico próximo a 40%. Contudo, o desenvolvimento de cultivares comerciais
com teor superior a 70% ainda está em estágio inicial no país. Considerando que
o Brasil deve produzir cerca de 180 milhões de toneladas de soja na safra
2026/27, com área plantada estimada em 50 Mha, mesmo uma participação modesta
de HOSB representaria um volume expressivo de óleo de alto valor no mercado
global. A implementação de cadeias de identidade preservada (IP), com
segregação da HOSB desde a colheita até o processamento, é pré-requisito para a
captura do prêmio de mercado — desafio logístico expressivo. No entanto é
superável, exigindo investimentos em infraestrutura e coordenação entre
produtores, cooperativas e processadores.
O crescimento do segmento de alimentos funcionais, a pressão regulatória sobre gorduras trans, a busca das indústrias alimentícia e dos demais setores por óleos estáveis para fritura, sem necessidade de hidrogenação, e a demanda crescente por insumos de base biológica em aplicações industriais e energéticas, posicionam a soja alto-oleico como um nicho de agregação de valor com potencial crescente, tanto nos mercados de exportação quanto no consumo doméstico brasileiro. Projetando-se o longo prazo, além da década de 2040, é possível que a soja HSOB seja dominante no mercado, pelas vantagens que apresenta.
Décio Luiz Gazzoni, engenheiro agrônomo, membro do Conselho
Científico Agro Sustentável (CCAS), do Comitê Estratégico Soja Brasil e da
Academia Brasileira de Ciência Agronômica