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O modo de jogar importa tanto quanto o resultado

Imagem ilustrativa da imagem O modo de jogar importa tanto quanto o resultado

Por Adrienne Galvão Silveira Gomes

Muito além de notas e avaliações, existe uma questão central na educação atual: estamos, de fato, preparando os alunos para viver em sociedade? Em meio a conteúdos e metas acadêmicas, essa pergunta precisa ser feita com mais frequência. Nesse contexto, o futebol — tão presente no cotidiano brasileiro — pode ser mais do que um jogo: pode se tornar uma ferramenta pedagógica para desenvolver empatia, ética e cidadania. E em ano de Copa do Mundo, essa oportunidade está ainda mais próxima de pais e educadores.
O futebol mobiliza emoções, exige decisões rápidas e envolve o coletivo. No entanto, quando não há mediação, ele também pode reforçar comportamentos problemáticos, como competitividade excessiva, exclusão, agressividade e desrespeito às regras em nome da vitória. É justamente aí que reside sua potência educativa: transformar o jogo em uma oportunidade consciente de aprendizagem.
O conceito de fair play (jogo justo) ajuda a orientar esse processo. Ele não se limita a cumprir regras. Envolve reconhecer o outro como legítimo participante, lidar com frustrações e agir com integridade, mesmo sem supervisão. Quando um estudante ajuda um colega após uma falta, admite um erro ou aceita a derrota com respeito, está praticando valores que vão muito além do esporte.
Na adolescência, esse tipo de experiência ganha ainda mais relevância. É uma fase de construção de identidade, busca por pertencimento e desenvolvimento moral. Os jovens testam limites, questionam regras e oscilam entre impulsividade e reflexão. Por isso, experiências concretas — especialmente quando mediadas pela escola — têm grande potencial formativo.
Casos emblemáticos reforçam essa ideia. Há jogadores que abriram mão de vantagens claras em nome da ética, como quando Miroslav Klose admitiu um gol irregular ou quando Robbie Fowler recusou um pênalti indevido. São atitudes raras, mas poderosas, que mostram que o jogo pode ensinar mais do que técnica: pode ensinar caráter.
Em escolas, projetos colocam alunos como árbitros, ensinando-os a decidir com justiça e a lidar com pressão. Em outras iniciativas, equipes são avaliadas não apenas pelo desempenho técnico, mas também pelo comportamento ético. Essas experiências mostram que é possível romper com a lógica do “ganhar a qualquer custo”.
Mas é preciso reconhecer um ponto crítico: sem intencionalidade, a escola perde essa oportunidade. O futebol pode acabar reforçando desigualdades, excluir alunos menos habilidosos e legitimar atitudes agressivas. Educar por meio do esporte exige planejamento, acompanhamento e coerência entre o que se ensina e o que se pratica.
Além disso, há a influência de uma cultura que valoriza resultados acima de processos. Muitos jovens estão expostos a exemplos em que vencer parece justificar qualquer atitude. Se a escola não se posiciona, acaba reproduzindo essa lógica. Trabalhar o fair play é afirmar que o modo de jogar importa tanto quanto o resultado.
Quando esse trabalho é bem conduzido, os resultados são consistentes. Os estudantes desenvolvem autonomia, aprendem a regular seus comportamentos e se tornam mais conscientes de suas ações no coletivo. Aprendem a dialogar, negociar e respeitar diferenças — competências essenciais para a vida em sociedade. Também fortalecem o senso de responsabilidade e de pertencimento.
Talvez o maior desafio esteja em tornar intencional aquilo que já acontece no cotidiano. O futebol já está presente, assim como os conflitos. A questão é: estamos usando esses momentos para educar?
Se quisermos uma educação que faça sentido, precisamos olhar com atenção para esses espaços. É no dia a dia, com mediação consciente, que surgem aprendizagens profundas. O futebol pode deixar de ser apenas um jogo e tornar-se um verdadeiro campo de formação humana.

*Adrienne Galvão Silveira Gomes é mestre em Educação, agente de Integridade do Grupo Positivo e orientadora educacional do Colégio Santo Ivo.

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