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O compromisso com o futuro e a dimensão moral da vida pública

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Por Luiz Bragança de Pina

Há momentos em que a política parece reduzida apenas ao barulho. A expansão das redes sociais acelerou o uso de frases rápidas, disputas instantâneas e slogans repetidos até perderem completamente o sentido. O debate público brasileiro, em muitos momentos, gira apenas em torno do conflito imediato, da reação permanente e da disputa emocional nas redes. Pouco amadurece por meio do diálogo de ideias. Talvez por isso algumas falas ainda causem estranhamento.

Recentemente, ao assistir a uma entrevista no YouTube, de uma rádio no Paraná, concedida pelo deputado federal e pré-candidato ao Senado Luiz Carlos Hauly, chamou-me a atenção, não propriamente a disputa eleitoral, mas a ideia de uma vida pública comprometida com a responsabilidade moral, o desenvolvimento do Paraná, as características de cada região e a presença de uma linguagem integrando economia, municipalismo, pertencimento regional e espiritualidade, sem parecer totalmente dissociada da realidade concreta, inclusive em algumas considerações do parlamentar sobre a dimensão moral da vida pública.

Não se trata de concordar integralmente com um político. A política não exige adesão absoluta a determinadas ideias e, nesse sentido, recordo uma observação de Russell Kirk sobre T. S. Eliot: o cuidado de não se tornar um “partidário complacente”.

Hauly fala do Paraná como quem fala de uma terra concreta, não como abstração eleitoral. Fala dos municípios, da arrecadação, do sistema tributário, da necessidade de crescimento econômico, da defesa do território paranaense e até dos royalties ligados ao mar territorial. Enquanto as redes sociais muitas vezes se transformam em territórios de idolatrias políticas, agressividade permanente e frases vazias, ainda existe algo significativo quando alguém fala do estado como projeto histórico.

Talvez isso explique por que o municipalismo ainda possua força simbólica em determinados setores da política brasileira. Carrego esse ideal desde minha participação em um seminário promovido pelo Instituto Brasileiro de Administração Municipal (Ibam), em 1992, no Rio de Janeiro. O município obriga a política a olhar para a vida concreta: a estrada, a escola, o posto de saúde, a produção agrícola, a arrecadação, a juventude deixando o interior, e pequenas cidades esquecidas, inclusive no Norte Pioneiro do Paraná, região onde moro. O municipalismo reduz a distância entre discurso e realidade.

Existe também outro elemento pouco comentado no debate contemporâneo, já citado anteriormente: a dimensão moral da vida pública.

Durante décadas, parte da política brasileira abandonou quase completamente qualquer ideia de transcendência, responsabilidade moral ou da própria vida pública enquanto dever humano e social. Em muitos casos, restaram apenas técnica administrativa ou cálculo eleitoral. Em outros, nem isso. A política passou a oscilar entre burocracia fria e espetáculo permanente.

Por isso, ainda chama a atenção quando um político fala de sua atividade como missão. Evidentemente, há risco de retórica, autoimagem e exagero. Toda política envolve construção de personagem, algo observado há séculos pela filosofia política. Ainda assim, seria simplista ignorar, ao menos em parte, a tradição brasileira e a noção do exercício de um cargo público sob uma responsabilidade histórica, ética e até espiritual.

Isso me recorda, em certa medida, políticos como Álvaro Valle, fundador do Partido Liberal em 1985. Não por identidade absoluta de pensamento com Hauly, mas pela tentativa de aproximar política, responsabilidade moral e visão de país, sem reduzir tudo ao pragmatismo imediato. Valle, ligado ao liberalismo social, procurava sustentar uma política preocupada não apenas com a administração do presente, mas também com a formação moral e civilizatória da sociedade.

O Brasil tornou-se um país onde quase tudo é discutido em estado de urgência permanente, mas pouco é pensado em profundidade. Tudo parece acontecer para hoje, agora. Nas redes sociais, propagam-se os conflitos; discute-se o escândalo do dia, a crise da semana. Enquanto isso, temas estruturais atravessam décadas: desenvolvimento regional, reforma do Estado, desigualdade federativa, crescimento econômico, educação pública, fortalecimento dos municípios, representação política e capacidade produtiva.

Quando Hauly fala da defesa do Paraná, da necessidade de crescimento, do papel econômico do estado e da importância de reformas estruturais, observo não apenas um discurso eleitoral, mas uma visão de país. Pode-se concordar ou discordar de partes dele. Ainda assim, resiste ali o compromisso com o futuro.

Uma sociedade perde algo importante quando deixa de revelar homens públicos capazes de enxergar além do ciclo imediato da disputa. Não apenas técnicos ou operadores eleitorais, mas pessoas capazes de relacionar território, economia, responsabilidade pública, formação humana e pertencimento histórico. Talvez Carlos Lacerda tenha sido um dos homens públicos mais próximos dessa representação, apesar das oposições suscitadas por sua trajetória.

Creio existirem vozes assim na política brasileira, mas, em meio à deterioração do debate público, ao excesso de escândalos e à velocidade emocional das redes, essas vozes, não raro, quase passam despercebidas.

Luiz Bragança de Pina é escritor, mentor, professor de roteiro cinematográfico e articulista.

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