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Terra rara para quem? O risco de o Brasil perder o bonde da nova geoeconomia
Da Redação | 03 de fevereiro de 2026 - 02:11
Por Thomas Gautier
Enquanto EUA e Europa correm para reduzir a dependência de
terras raras da China – que impôs, recentemente, novos controles de exportação
em meio a disputas comerciais – o Brasil parece hesitar diante de uma
oportunidade extraordinária de reposicionamento global. Embora debruçado sobre
a segunda maior reserva desses minerais no planeta, o país corre o sério risco
de ser simples espectador diante da próxima onda tecnológica.
As terras raras sustentam setores estratégicos, a exemplo
dos chips, imprescindíveis à liderança digital. Inserido nessa cadeia de forma
competitiva, o Brasil poderia ajudar a reduzir a concentração de fornecedores e
surgir como alternativa ao risco de desabastecimento, em caso de agravamento
das tensões geopolíticas. Sem contar que sua matriz energética possibilita a
produção com menor custo ambiental de itens como baterias elétricas, turbinas
eólicas e sistemas de defesa.
De acordo com números da Agência Nacional de Mineração
(ANM), divulgados no portal do Senado, as autorizações a empresas para
pesquisas de elementos em terras raras brasileiras saltaram de 40 em 2015 para
mais de 1.300 em 2024. A maior parte concentrada nos estados de Bahia, Goiás e
Minas Gerais. Trata-se de um avanço importante, porém, insuficiente.
A extração brasileira ainda gira em torno de 20 toneladas
anuais, contra 270 mil toneladas na China. Mesmo países como EUA, Índia,
Myanmar, Nigéria e Vietnã já operam em volumes mais altos que o nosso. E aqui
surge um dos maiores gargalos. O Brasil poderia acelerar seu avanço, caso se
libertasse da lógica de exportação primária.
E como fazer isso? Com investimentos em atividades que
agreguem valor às matérias-primas, como separação, processamento químico e
manufatura avançada, em que o valor econômico dos produtos se multiplica.
Transformar minerais em componentes de alta tecnologia é o que vai diferenciar
nações que lideram os novos tempos das que permanecem como exportadoras de
minério barato.
O contraste será cada vez mais evidente. A demanda global
por minerais críticos deve crescer de duas a oito vezes até 2040, segundo o
Ministério das Minas e Energia. Em paralelo, o Instituto Brasileiro de
Mineração (Ibram) projeta mais de R$ 10 bilhões em investimentos no setor de
terras raras entre 2025 e 2029, quase 50% acima do período anterior, entre 2024
e 2028.
Em um momento de redesenho das cadeias globais de
suprimento, é urgente que esses investimentos ajudem o país a se adaptar às
novas demandas. Desenvolver cadeias desses minerais críticos pode gerar
milhares de empregos e reduzir intensamente a dependência de importações de
peças, por exemplo, para veículos elétricos ou híbridos, deixando o mercado
nacional menos sujeito ao humor do cenário externo e fortalecendo a indústria
local.
E existe um obstáculo ainda maior: a logística. Um país que
transporta 25% mais carga do que há dez anos usando praticamente a mesma
infraestrutura, como aponta o Instituto de Logística e Supply Chain (Ilos),
terá enorme dificuldade de competir globalmente. Sem estratégias adequadas e
digitalização da estrada para reduzir custos, não basta extrair e processar
minerais.
Estamos, portanto, diante de um momento único, em que o mundo vive um rearranjo importante. Se o Brasil não reduzir seus gargalos de logística e de tecnologia industrial, poderá perder uma janela histórica, que talvez nunca mais se repita. Seremos mais do mesmo, ou vamos transformar o futuro?
Thomas Gautier tem duas décadas de experiência em grupos
internacionais e assumiu como CEO do Freto em 2021. O executivo iniciou sua
carreira na França e tornou-se CFO da Repom, no Brasil, em 2013. Em 2017, virou
diretor-geral da Repom e, em 2018, passou a ser Head de Logística do Grupo
Edenred, quando, em sua gestão, o Freto nasceu.