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Comprei um disco pela capa e encontrei muito mais que um morto agradecido
Da Redação | 14 de janeiro de 2026 - 01:10
Por Giovani Marino Favero
Em 1996, tive a oportunidade improvável de passar quase um mês nos Estados Unidos, com tudo pago. Eu tinha dezessete anos e havia sido contemplado em um concurso de redação em inglês que integrava um programa patrocinado por grandes empresas internacionais — Ralston Purina, Energizer, entre outras. A primeira etapa consistia em ficar hospedado na casa de uma família americana, para avaliar se o jovem tinha condições de participar da segunda fase: um acampamento de formação de líderes em uma cidade às margens do lago Michigan.
Na casa dos anfitriões, vivi uma espécie de iniciação cultural: assisti a um jogo de baseball do Cardinals, comi um hambúrguer no Hooters, fui ao zoológico, caminhei por shoppings e supermercados que pareciam infinitos. Quando entrei no Target — uma loja de departamentos gigantesca — fiquei genuinamente impressionado. Os preços eram bons, até para quem fazia as contas mentalmente comparando com o que lembrava dos valores no Brasil; afinal, naquela época, o dólar ainda era quase um para um, com o real.
Na seção de CDs encontrei muito do que já escutava: Nirvana, Pearl Jam, todo o grunge que embalava minha adolescência. Mas um disco em especial me paralisou. A capa era estranha e hipnótica: caveiras sorridentes, quase festivas, e um nome que soava como um enigma — Grateful Dead. Numa tradução seca e literal: Morto Agradecido.
Comprei poucos CDs, mas aquele estava entre eles. Eu nunca tinha ouvido uma música da banda, não fazia ideia de como soava. O anfitrião americano ficou visivelmente espantado. Havia ali uma contradição clara entre o grunge cru e desesperado que eu escutava e aquela banda mais antiga, quase mítica. Ele me perguntou se eu gostava mesmo de tudo aquilo, especialmente daquele disco. Eu, com a cara de pau típica dos dezessete anos, disse que já conhecia outros trabalhos da banda e que aquele era apenas para ampliar a coleção.
Voltei ao Brasil, coloquei o disco para tocar e, na primeira audição, confesso: não fui feliz. Aquilo não me capturou de imediato. Mas eu queria ser cool, queria entender o que havia ali, então insisti. Ouvi de novo. E de novo. Até que, sem perceber exatamente quando, algo se abriu. O som deixou de ser estranho e passou a ser familiar. Depois, necessário.
Curiosamente, Jerry Garcia, o coração criativo e principal líder do Grateful Dead, havia falecido em 1995, pouco antes da minha viagem. E agora, em janeiro de 2026, Bob Weir, um dos fundadores da banda e um dos últimos guardiões desse som singular, morreu aos 78 anos — o que me motivou a escrever este texto.
Desde então, o Grateful Dead nunca mais saiu de mim. Nas retrospectivas do Spotify de 2021, 2022 e 2023, a banda apareceu consistentemente entre as três que mais escutei. Aquele CD comprado pela capa atravessou décadas, mudanças de vida, perdas, amadurecimentos.
O nome da banda, descobri depois, não era apenas estiloso. Vinha de um antigo motivo do folclore europeu: o conto do Cadáver Agradecido. Nele, um viajante encontra um morto sem sepultura, esquecido por causa de dívidas. Movido por compaixão, paga o enterro. Mais tarde, em momentos de perigo, o espírito do morto retorna para ajudá-lo, retribuindo o gesto. A dívida moral atravessa a morte. Nada fica sem resposta.
Algumas escolhas feitas sem saber exatamente por quê — como um disco comprado pela capa — podem nos ajudar em alguns momentos da vida. Não como fantasmas, mas como companhia que atravessa o tempo.
Giovani Marino Favero é professor associado do Departamento de Biologia Geral da UEPG.