PG é destaque nacional em ação contra o Covid-19

Município está no rol das poucas cidades de médio porte que até agora não registrou nenhuma morte de coronavírus

Ponta Grossa, no centro sul paranaense, é uma cidade curiosa. Nada a ver com as ilações marotas que fazem com o seu nome. Lá, vivem (de acordo com o IBGE), 353 mil pessoas.  No segundo turno das eleições de 2018, 73,75% dos ponta-grossenses optaram pelo nome de Jair Bolsonaro para ocupar o Palácio do Planalto. Até aí nenhuma novidade. Sob o ponto de vista político, seu eleitorado sempre se posicionou de maneira conservadora.

Ela está no rol das poucas cidades de médio porte que até agora não registrou nenhuma morte pelo Covid-19. As estatísticas do Ministério da Saúde informam que, até o dia 16/05, o novo coronavírus havia infectados 31 pessoas por lá.  Nenhuma delas foi a óbito. Mais da metade dos contaminados era de caminhoneiros vindos de São Paulo.

As autoridades sanitárias municipais de Ponta Grossa não entraram na conversa fiada dos bolsonaristas. Tão logo a Organização Mundial da Saúde (OMS) decretou a pandemia, em 11/03, o prefeito Marcelo Rangel Cruz de Oliveira, um jovem tucano, convocou seus secretários, arregaçaram as mangas e passaram adotar as medidas do isolamento social aliada a um planejamento estratégico para a ocupação dos leitos dos seus 10 maiores hospitais públicos e privados. Barreiras foram feitas nas rodovias e ferrovias que dão acesso ao município. Bem como, passaram a testar e controlar pessoas (mais de 500) com suspeita do vírus ou de qualquer outro sintoma de doenças respiratórias.

Resultado: Nesta semana, comércio de Ponta Grossa volta a funcionar em regime de rodízio, por quatro horas ao dia. A previsão é de que em meados de junho esteja normalizado. Desde o começo da pandemia, a utilização de máscara é obrigatória para quem desejava sair nas ruas. A falta dela poderá resultar numa multa salgada, de aproximadamente mil reais.

Tudo está acontecendo numa das cidades mais tradicionalistas do Brasil. Lá em Ponta Grossa, por exemplo, nasceu a deputada federal Joyce Hasselmann (PSL-SP). Até então era tida e havida como a princesinha do bolsonarismo. Cotada inclusive para ser a candidata do capitão à prefeitura de São Paulo.

O cenário mudou bruscamente. Hoje em dia, Joyce se virou em uma implacável algoz de seu antigo ídolo. Não só revelou para a Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) da Fake News como funciona o “Gabinete do Ódio”, no Palácio do Planalto, como também protocolou na Câmara Federal um dos 33 pedidos de impeachment contra Bolsonaro.

A ultradireitista Joyce Hasselmann trocou de mal com o bolsonarismo. Este não é o caso de Ponta Grossa. Os adeptos do presidente que vivem por lá continuam enaltecendo suas estripulias e seu desgoverno. Só que entre se divertir nas conversas dos bares da estreita Rua XV de Novembro, no Centro, e conduzir os destinos da cidade vai uma diferença muito grande.

É bem verdade que, esta cidade paranaense – tipicamente de classe média e temente a Deus – tem no agronegócio a sua principal fonte de renda e riqueza. Por isso, nunca deu muita bola para o que acontece, em Brasília. Seus olhos sempre estiveram voltados para Chicago, nos Estados Unidos, onde funciona a maior bolsa de grãos do mundo.

O ânimo e a alegria dos ponta-grossense são mensurados pelo o que acontece nos pregões da “CME Group”, como aquela entidade é conhecida. Com a soja a R$ 90,00 o saco de 90 quilos, como vem acontecendo nos últimos dias, Ponta Grossa é um sorriso só de orelha a orelha. Não há isolamento social que lhe tire o bom humor.  Este é um motivo mais do que oportuno para se comemorar com um animado churrasco de alcatra, o prato mais consumido na cidade.

Entusiasmo com Bolsonaro perde força

Irônicos obstinados, os ponta-grossenses adoram contar anedotas com o presidente ao qual entregaram a maioria de seus votos. Deve ter sido de lá que surgiu o chiste sobre o hipotético episódio ocorrido, em 17/04, na posse do já defenestrado ministro Saúde, Nélson Teich. Bolsonaro, narram os gozadores contumazes de Ponta Grossa, entrou no auditório, nos cascos. A um dos assessores teria dito: “se água e sabão matam esse vírus, por que vocês não fazem logo uma vacina de sabão?”

O entusiasmo pelo bolsonarismo perdeu a força por lá. Especialmente depois que as elites locais ligadas ao cultivo e ao processamento de grãos – soja, milho e trigo – tomaram conhecimento que os filhos e os ministros das Relações Exteriores e da Educação de Bolsonaro têm por hábito criar encrencas com os chineses.

No entender dos ponta-grossenses manifestações desastradas como essa não podem ser classificadas única e tão somente como “um tiro no pé”. Para eles é um tiro nos bolsos daqueles que vivem de plantar e colher soja. Atualmente, o país recebe dos chineses algo como 30 bilhões de dólares em soja anualmente

A China é a maior importadora dessa leguminosa. Cultivada, praticamente, nos estados do Paraná, Rio Grande do Sul e Mato Grosso do Sul. A região dos Campos Gerais, onde predomina Ponta Grossa, é uma das poucas do país, em que ainda se planta a soja orgânica, tão ao gosto dos asiáticos.

Ponta Grossa tem duas universidades públicas e três privadas. Sem contar um atuante centro de pesquisas agrícolas da Embrapa, onde foi desenvolvido o inovador método de cultivo de grãos chamado: “plantio-direto”, utilizado em quase todo o País. Não lhe falta massa crítica local.

Ao focar nas soluções de seus problemas, sem esperar que os iluminados da Esplanada dos Ministério em Brasília digam o que fazer, Ponta Grossa adotou medidas que permitirão que saia da quarenta antes do que o resto do País. Deixou um belo exemplo. Como ela existem milhares de outras cidades com qualidades parecidas. Talvez, encontre-se aí um dos muitos caminhos a serem seguidos pelo Brasil para depois que a pandemia for embora.


Arnaldo César é jornalista, ponta-grossense e colaborador do Blog Marcelo Auler

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