Paraná nunca teve governador reeleito que elegesse sucessor
Requião e Ratinho Junior são os casos mais recentes de governadores que venceram a reeleição, mas não conseguiram manter seu grupo político no Palácio Iguaçu

A eleição de Sergio Moro (PL) para o Governo do Paraná, no primeiro turno das Eleições 2026, ampliou um histórico que atravessa quase três décadas na política estadual: nenhum governador reeleito, desde que a possibilidade de um segundo mandato consecutivo passou a existir, conseguiu eleger seu sucessor.
Moro recebeu 3.127.911 votos, o equivalente a 50,10% dos votos válidos, e derrotou Sandro Alex (PSD), candidato apoiado pelo governador Ratinho Junior, que terminou a disputa com 25,37%. Requião Filho (PDT) ficou em terceiro, com 23,47%. Com isso, Ratinho encerra o segundo mandato sem conseguir transferir o comando do Estado para um nome de sua escolha.
Requião tentou manter o grupo no poder
Um dos principais exemplos ocorreu após os dois mandatos consecutivos de Roberto Requião. Ele governou o Paraná entre 2003 e 2006 e foi reeleito naquele ano para permanecer no cargo até 2011. Seu vice nos dois mandatos foi Orlando Pessuti, que assumiu definitivamente o Governo em abril de 2010, após Requião renunciar para disputar uma vaga no Senado.
Pessuti tentou disputar a eleição daquele ano para permanecer no Palácio Iguaçu, mas enfrentou dificuldades dentro do próprio grupo político. Parte do PMDB demonstrava preferência pela candidatura de Beto Richa, enquanto o partido acabou compondo a aliança em torno de Osmar Dias.
Na eleição de 2010, entretanto, quem venceu foi Beto Richa (PSDB), com 52,44% dos votos válidos, contra 45,63% de Osmar Dias (PDT). O resultado encerrou a tentativa de continuidade do grupo de Requião no Executivo estadual.
Ratinho repete o cenário 16 anos depois
O caso de Ratinho Junior guarda semelhanças com o de Requião. Eleito em 2018 e reeleito em 2022, o governador chegou às Eleições 2026 com a intenção declarada de preservar o projeto político construído durante seus dois mandatos.
Depois de desistir de uma possível candidatura à Presidência da República, Ratinho afirmou que concentraria esforços na construção de uma candidatura capaz de dar continuidade à sua administração. Sandro Alex, do PSD, acabou escolhido como o nome governista para a sucessão.
Durante a campanha, Sandro contou diretamente com o apoio de Ratinho Junior. A estratégia, contudo, não foi suficiente para superar Sergio Moro. Com 100% das urnas apuradas, Moro terminou a eleição com 50,10% dos votos, contra 25,37% de Sandro.
O resultado significa que o grupo político de Ratinho Junior deixará o Palácio Iguaçu ao final de 2026, apesar da elevada aprovação atribuída ao governo e da força eleitoral do governador. A derrota de Sandro, portanto, representa uma derrota específica do projeto de sucessão, e não necessariamente uma avaliação direta sobre toda a gestão Ratinho.
Histórico também inclui Lerner e Beto Richa
O fenômeno não é exclusivo de Requião e Ratinho. Jaime Lerner, eleito governador em 1994 e reeleito em 1998, também não conseguiu fazer seu sucessor. Na eleição de 2002, Lerner apoiou Beto Richa, mas o tucano não chegou ao segundo turno, que foi disputado por Roberto Requião e Álvaro Dias.
Mais tarde, Beto Richa conseguiu a própria reeleição em 2014, com 55,67% dos votos válidos. Em 2018, após deixar o cargo para disputar o Senado, seu grupo apostou na então vice-governadora Cida Borghetti (PP), que concorreu à reeleição com o apoio do ex-governador.
Cida, porém, não conseguiu permanecer no cargo. Ratinho Junior foi eleito governador ainda no primeiro turno, em 2018, interrompendo a tentativa de continuidade do grupo de Richa.
Reeleição é diferente de sucessão
O histórico paranaense produz uma situação curiosa: os governadores que disputaram a própria reeleição conseguiram vencer, mas nenhum deles conseguiu eleger o candidato que apresentou como continuidade do governo.
O levantamento considera os quatro governadores que tiveram a possibilidade de disputar um segundo mandato consecutivo desde a mudança constitucional que permitiu a reeleição: Lerner, em 1998; Requião, em 2006; Richa, em 2014; e Ratinho Junior, em 2022. Todos foram reeleitos. Na eleição seguinte, porém, seus grupos foram derrotados.
O resultado de 2026 reforça, portanto, uma característica da política paranaense: a força eleitoral demonstrada por um governador para conquistar a própria reeleição não se traduz automaticamente em capacidade de transferir votos para um sucessor.
No caso de Ratinho Junior, a dificuldade ganhou peso adicional porque Sandro Alex foi derrotado ainda no primeiro turno por Moro. O próximo governador, portanto, será de um grupo político adversário, repetindo o movimento observado em 2010, quando Beto Richa sucedeu o ciclo de Requião, e em 2018, quando Ratinho Junior encerrou o período de Beto Richa no comando do Paraná.
RESUMO
Vitória de Sergio Moro: Sergio Moro (PL) foi eleito governador do Paraná no primeiro turno das Eleições 2026 com 50,10% dos votos, derrotando Sandro Alex (PSD), candidato apoiado por Ratinho Junior.
Tabu histórico de sucessão: Há quase três décadas, nenhum governador reeleito no Paraná consegue fazer o seu sucessor (padrão que já ocorreu com Jaime Lerner, Roberto Requião, Beto Richa e agora Ratinho Junior).
Transferência limitada de votos: O resultado confirma que a popularidade necessária para um governador se reeleger não garante a capacidade de transferir votos para um aliado político.



