“Joguem esse lixo pela janela”: livro revela bastidores da prisão de Lula em Curitiba
Agente da Polícia Federal relata os 580 dias em que acompanhou o ex-presidente na carceragem da corporação, incluindo detalhes da chegada, rotina e segurança.

Um livro lançado nesta terça-feira (3) apresenta relatos dos bastidores da prisão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), em Curitiba, em abril de 2018. Em *Banho de Sol: os 580 dias da prisão de Lula*, o agente da Polícia Federal Jorge Chastalo Filho descreve episódios que presenciou durante o período em que acompanhou o ex-presidente na carceragem da instituição.
Publicado pela WMF Martins Fontes Editora, o livro tem 592 páginas e foi organizado em ordem cronológica, no formato de diário. Entre os relatos estão os preparativos para a chegada de Lula à sede da Polícia Federal, as condições da cela e os cuidados adotados pela equipe responsável pela segurança do então ex-presidente.
Um dos episódios descritos por Chastalo aconteceu durante o voo que transportou Lula de São José dos Pinhais até Curitiba, na noite de 6 de abril de 2018. Segundo o agente, tripulantes de outras aeronaves utilizaram a frequência de comunicação do helicóptero da PF para fazer manifestações de hostilidade.
Entre as frases ouvidas estavam “Joga esse lixo pela janela!” e “Não o soltem nunca mais!”, conforme trechos do livro obtidos pelo UOL. O comandante da aeronave pediu respeito ao trabalho da equipe e solicitou que a comunicação fosse utilizada apenas para assuntos essenciais.
A controladora de voo do Aeroporto do Bacacheri também interveio, lembrando que as conversas na frequência eram gravadas e poderiam ser utilizadas posteriormente.
Ao chegar à sede da PF, Lula foi recebido em meio a manifestações contrárias e favoráveis à sua prisão, além da presença de jornalistas e fotógrafos. Chastalo relata que o desembarque foi realizado rapidamente para evitar que o ex-presidente permanecesse em áreas descobertas. Segundo o agente, Lula chegou em silêncio e com a fisionomia abatida.
Preparativos e rotina na carceragem
De acordo com o livro, a preparação para a prisão começou três dias antes da chegada de Lula e envolveu quatro planejamentos de segurança diferentes. A equipe, segundo Chastalo, ainda tinha dúvidas sobre a concretização da ordem de prisão.
O agente relata que passou a dormir menos de quatro horas por noite durante os preparativos e chegava à superintendência antes das 7h para ensaiar o trajeto entre o aeroporto e a cela.
O espaço destinado a Lula tinha uma cama de solteiro, uma mesa de alumínio, uma cadeira e um armário antigo. As duas janelas eram gradeadas e permaneciam fechadas por correntes, com abertura de aproximadamente dez centímetros. Objetos como barbeador e cortador de unhas eram disponibilizados apenas quando solicitados.
Outro cuidado relatado pelo agente envolveu a alimentação. No segundo dia de prisão, ele decidiu encomendar uma marmita de um restaurante externo, em vez de utilizar a comida preparada na própria superintendência. A justificativa, conforme o livro, era evitar a possibilidade de alguém tentar envenenar a refeição.
O primeiro banho de sol de Lula ocorreu somente no quarto dia de detenção. O espaço utilizado foi comparado pelo próprio ex-presidente a uma jaula, segundo o relato de Chastalo.
Por que Lula foi preso e como ocorreu a soltura
Lula foi preso em 7 de abril de 2018, após condenações relacionadas ao caso do tríplex do Guarujá. A prisão ocorreu no contexto da Operação Lava Jato, após decisões judiciais em primeira e segunda instâncias e a manutenção da condenação pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ).
Em novembro de 2019, o Supremo Tribunal Federal (STF) decidiu que a execução da pena só poderia ocorrer após o trânsito em julgado, ou seja, quando não houvesse mais possibilidade de recursos. Com isso, Lula deixou a carceragem da Polícia Federal depois de 580 dias.
Em março de 2021, o ministro Edson Fachin declarou a Justiça Federal de Curitiba incompetente para julgar os processos contra o petista e anulou as condenações. No mês seguinte, o STF também confirmou a suspeição do então juiz Sergio Moro no caso do tríplex, por 7 votos a 4.
As decisões retiraram os efeitos das condenações que mantiveram Lula preso e permitiram que ele recuperasse os direitos políticos. O livro de Chastalo apresenta a perspectiva de um dos agentes que acompanharam o período de detenção, com registros sobre a rotina e os procedimentos adotados pela Polícia Federal.
Resumo
O agente da Polícia Federal Jorge Chastalo Filho lança o livro Banho de Sol: os 580 dias da prisão de Lula, com relatos dos bastidores da detenção do petista em Curitiba.
A obra descreve a chegada do ex-presidente à sede da PF, manifestações de hostilidade durante o transporte, condições da cela e cuidados de segurança.
Lula foi solto em novembro de 2019, após decisão do STF sobre a execução da pena, e teve as condenações anuladas em 2021.



