OMS cobra conclusão de tratado global sobre pandemias ainda em novembro
Diretor-geral da organização cita surtos recentes de ebola e hantavírus para defender a cooperação internacional; negociações estão paralisadas desde 2025

O diretor-geral da Organização Mundial da Saúde (OMS), Tedros Adhanom Ghebreyesus, pediu nesta segunda-feira (2) que os países finalizem o acordo internacional sobre pandemias ainda em novembro. Para ele, surtos recentes de doenças graves, como o ebola na República Democrática do Congo, reforçam a urgência de ampliar a cooperação entre as nações diante de emergências sanitárias.
O apelo foi feito durante a abertura da nona reunião do Grupo de Trabalho Intergovernamental (GTI), em Genebra. O encontro segue até 13 de novembro e tem como objetivo concluir as negociações sobre o documento.
Durante o discurso, Tedros destacou a necessidade de proteger a população mundial e alertou que doenças infecciosas podem ultrapassar fronteiras e representar riscos para diferentes países. “Uma ameaça patogénica, onde quer que surja, pode tornar-se uma ameaça para todos, para as populações de todos os países”, afirmou.
Para ilustrar o alerta, o diretor-geral citou episódios recentes. Em abril, um surto de hantavírus provocou três mortes em um navio de cruzeiro. Já o surto de ebola, anunciado em maio, ultrapassou 10 mil casos e registrou quase 5 mil mortes, principalmente na República Democrática do Congo, conforme os números apresentados.
Na avaliação de Tedros, os episódios demonstram a importância de aprimorar os mecanismos internacionais de prevenção e resposta a novas crises de saúde.
Impasse nas negociações
Em maio de 2025, os países integrantes da OMS aprovaram o acordo internacional sobre pandemias. O documento estabelece diretrizes para melhorar a preparação e a resposta a futuras emergências sanitárias, a exemplo da pandemia de covid-19.
No entanto, uma questão importante ficou pendente e passou a ser discutida em negociações posteriores. Desde julho de 2025, o grupo de trabalho realizou oito reuniões, mas ainda não conseguiu chegar a um consenso.
O principal ponto de divergência envolve o Sistema de Acesso a Patógenos e Partilha de Benefícios (PABS).
A proposta prevê regras para o compartilhamento de patógenos com potencial pandêmico e busca definir como os países terão acesso aos benefícios gerados pelas pesquisas, como vacinas, testes e tratamentos.
As divergências entre países desenvolvidos e nações em desenvolvimento sobre a aplicação dessas regras continuam impedindo um entendimento.
Por isso, a definição do anexo referente ao PABS é considerada fundamental para concluir o processo e permitir a entrada em vigor do acordo. “O PABS é a última peça que falta no nosso quebra-cabeça”, declarou Tedros.
Lições da pandemia de covid-19
Tedros também relembrou os desafios enfrentados durante a pandemia de covid-19, especialmente as desigualdades na distribuição de vacinas.
Segundo o diretor-geral, a crise demonstrou que nenhum país consegue enfrentar sozinho uma ameaça sanitária dessa dimensão.
Embora os laboratórios tenham desenvolvido imunizantes em tempo recorde, o acesso às vacinas ocorreu de forma desigual. Enquanto algumas nações acumularam doses acima de suas necessidades, outras tiveram dificuldades para garantir a vacinação da população.
Para Tedros, essa disparidade prejudicou a resposta internacional e aumentou os riscos à saúde pública. “Esta desigualdade custou vidas, prolongou a pandemia e aumentou o risco de surgimento de novas variantes”, afirmou.
Diante desse cenário, o diretor-geral defendeu que o novo tratado estabeleça mecanismos mais eficientes de cooperação e amplie o acesso a recursos médicos durante futuras emergências.
A conclusão das negociações, segundo ele, representa uma oportunidade de evitar a repetição dos problemas registrados durante a crise da covid-19.
Tedros classificou a etapa final do tratado como “a chave que abrirá as portas para um futuro mais seguro”.



