Trump não pretende apoiar Flávio como líder do Brasil, diz Reuters
Postura do governo Trump sugere que o presidente pode estar relutante em provocar uma nova crise nas relações com o Brasil que passaram por altos e baixos nos últimos meses

O governo do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, não pretende reconhecer o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) como líder legítimo do Brasil. Apesar de integrantes da administração norte-americana terem ajudado a organizar a entrada do parlamentar no país, autoridades afirmaram que não há planos atuais de apoiar suas ambições políticas.
As informações foram divulgadas pela agência Reuters nesta quinta-feira (29), com base em relatos de uma autoridade norte-americana e de outra pessoa familiarizada com o assunto, ambas ouvidas sob condição de anonimato.
Trump afirmou que a eleição brasileira de domingo pareceu “manipulada”, mas disse que não ofereceu apoio a nenhum candidato. O presidente norte-americano também declarou ter boa relação com Luiz Inácio Lula da Silva (PT), reeleito com cerca de 3,5 pontos percentuais de vantagem.
Segundo as fontes ouvidas pela Reuters, a postura do governo dos EUA indica uma possível resistência em provocar uma nova crise diplomática com o Brasil. Elas também ressaltaram que Trump ainda pode mudar de posição.
Flávio Bolsonaro deixou o Brasil após a eleição
Uma terceira autoridade norte-americana afirmou que a saída de Flávio do Brasil pode ter reduzido sua força política. Conservadores que esperavam que o senador liderasse a oposição nos próximos anos criticaram a viagem.
Flávio deixou o país acompanhado da esposa e das duas filhas. Segundo autoridades argentinas, a família atravessou uma ponte em direção ao norte da Argentina às 22h50 de terça-feira. Às 23h30, embarcou em um avião fretado com destino a Miami, nos Estados Unidos, com passagem pelo Equador.
Ainda não está claro como o senador percorreu os cerca de 1,3 mil quilômetros entre Brasília e a fronteira argentina, nem como deixou o Brasil sem o conhecimento das autoridades alfandegárias brasileiras.
Durante o deslocamento, Flávio manteve contato com autoridades norte-americanas. De acordo com uma das fontes, Jason Miller, assessor de Trump próximo à família Bolsonaro, ajudou a organizar o voo a partir da Argentina.
O secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, teria recomendado a Trump que autorizasse a entrada do senador e de seus familiares. O presidente aprovou a medida.
Entrada nos EUA ocorreu por autorização humanitária
Durante o voo, funcionários do Departamento de Estado discutiram com representantes do Departamento de Segurança Interna qual seria a alternativa legal para permitir a entrada da família nos Estados Unidos.
Ao final, foi concedida a chamada “parole humanitária”, uma autorização temporária destinada a pessoas em situações de urgência humanitária ou quando há interesse público significativo.
A Casa Branca encaminhou à reportagem um pedido de comentário ao Departamento de Estado, que não respondeu. O governo brasileiro e um representante de Flávio Bolsonaro também não se manifestaram.
Senador se declarou líder legítimo do Brasil
Na quarta-feira (28), Flávio publicou uma carta aberta na rede social X na qual se autoproclamou “o presidente eleito”. Posteriormente, apagou a publicação e divulgou uma nova versão, na qual passou a se apresentar como o “líder” legítimo do Brasil.
O senador deixou o país após o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), determinar a entrega de seu passaporte. A decisão atendeu a um pedido da Polícia Federal, que investiga Flávio por suspeita de lavagem de dinheiro e evasão de divisas.
O pedido da PF ocorreu minutos depois da confirmação da vitória de Lula. A sequência foi apontada por alguns conservadores como possível evidência de motivação política.
Aliados do governo Lula, por outro lado, destacaram que Eduardo Bolsonaro, irmão do senador e ex-deputado federal que vive nos Estados Unidos, havia sugerido publicamente, dias antes da eleição, que Flávio deixasse o Brasil caso fosse derrotado.
Eduardo foi condenado pelo STF em junho por tentar obter interferência do governo Trump no julgamento de seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, preso por tentativa de golpe de Estado após perder a disputa pela reeleição em 2022.
Trump evita novas críticas a Lula
A saída de Flávio ocorreu em meio a um período de tensão nas relações entre Brasil e Estados Unidos. Embora tenha questionado a condução da eleição brasileira, Trump evitou fazer críticas diretas a Lula.
“Gosto do Lula, me dou muito bem com ele”, disse o presidente norte-americano a jornalistas na segunda-feira. “Só acho que a eleição deixou uma péssima impressão.”
RESUMO
Governo Trump não pretende apoiar Flávio Bolsonaro como líder legítimo do Brasil, apesar de ter autorizado sua entrada nos Estados Unidos.
Senador deixou o Brasil com a família após a eleição e recebeu ajuda de aliados de Trump para organizar o voo até Miami.
Flávio se declarou inicialmente “presidente eleito” e depois “líder legítimo” do país. A viagem gerou críticas entre conservadores e repercussão política.



