"Dark Horse": produtora comprou SUV em dinheiro vivo e gerou alerta no Coaf
Decisão de Flávio Dino mostra que pagamento integral em espécie motivou comunicação obrigatória à Unidade de Inteligência Financeira; compra aparece dentro do relatório que ajudou a PF a mapear a rede investigada

A compra de um SUV por R$ 102.190 pagos integralmente em dinheiro vivo pela empresária Karina Ferreira da Gama, dona da produtora responsável pelo filme "Dark Horse", entrou nos relatórios de inteligência financeira analisados pela PF (Polícia Federal) e pelo STF (Supremo Tribunal Federal) na investigação que resultou na operação desta quarta-feira (10).
O episódio aparece na decisão do ministro Flávio Dino, que autorizou buscas e apreensões contra investigados do caso. O documento mostra que a aquisição do veículo gerou uma comunicação ao Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras), mas o contexto é importante: a comunicação foi uma obrigação legal da concessionária e não significa, por si só, que houve crime ou irregularidade na compra.
Segundo a decisão, Karina adquiriu o veículo no dia 13 de janeiro de 2025 por R$ 102.190. O pagamento total foi feito em espécie.
É justamente esse tipo de operação que a legislação obriga empresas do setor a comunicar ao Coaf. Revendedoras e concessionárias podem vender veículos pagos em dinheiro, mas, quando a quantia em espécie ultrapassa o limite previsto na norma — R$ 30 mil para esse tipo de operação — a comunicação ao órgão de inteligência financeira é obrigatória.
O objetivo é alimentar o sistema de prevenção à lavagem de dinheiro e permitir que operações relevantes sejam analisadas pelas autoridades, sem que isso represente, isoladamente, qualquer conclusão sobre a origem dos recursos ou a prática de crime.
No caso de Karina, a comunicação feita pela instituição financeira ou pelo setor obrigado passou a integrar o Relatório de Inteligência Financeira nº 146088, um dos três documentos produzidos pelo Coaf e posteriormente encaminhados à Polícia Federal.
A decisão registra ainda que, durante a investigação, a PF identificou Karina como proprietária de um BYD Song Plus híbrido, modelo 2025, veículo cuja referência na tabela Fipe utilizada pelos investigadores era de R$ 184.858.
A compra do SUV não foi analisada isoladamente.
Ela integra o Relatório de Inteligência Financeira, que reúne comunicações financeiras relacionadas a Karina Gama, ao deputado federal Mário Frias (PL-SP), à produtora Go Up Entertainment, ao ICB (Instituto Conhecer Brasil) e a outras pessoas e empresas investigadas.
Segundo a decisão de Dino, a Polícia Federal iniciou o intercâmbio de informações com o Coaf justamente para reunir comunicações existentes sobre os principais envolvidos e verificar se os dados poderiam corroborar ou afastar as hipóteses criminais investigadas.
Foram produzidos três relatórios. O primeiro concentrou informações sobre o núcleo ligado a Karina, Mário Frias, Go Up e Instituto Conhecer Brasil. Os outros dois reuniram comunicações envolvendo empresas, fornecedores e pessoas que também aparecem na investigação.
Em vez de funcionarem como prova definitiva, os relatórios permitiram à PF visualizar um panorama das movimentações financeiras, identificando repasses sucessivos entre entidades e empresas, transferências para empresas relacionadas, depósitos e saques em espécie e conexões financeiras entre diferentes investigados.
É justamente essa leitura conjunta que embasou parte das diligências autorizadas pelo STF.
Instituto Conhecer Brasil aparece como principal captador
Outro ponto que chama atenção na documentação é a forma como os investigadores descrevem o fluxo financeiro da rede analisada.
De acordo com a decisão, a análise dos RIFs indicou que o Instituto Conhecer Brasil aparecia como o principal captador de recursos entre as entidades examinadas.
A partir daí, os investigadores passaram a reconstruir o caminho percorrido pelo dinheiro recebido pela instituição, observando transferências para empresas que surgem repetidamente nas comunicações do Coaf.
A investigação não afirma que todas essas operações sejam ilícitas. O que a PF buscou demonstrar ao STF foi a existência de uma rede de relações financeiras que merecia aprofundamento por meio de documentos bancários, fiscais, contábeis e contratuais.
É por isso que a própria decisão ressalta que os relatórios de inteligência financeira são instrumentos de apoio à investigação e precisam ser confrontados com outras provas ao longo do inquérito.
Produtora movimentou R$ 19 milhões em menos de dois meses
Além da compra do veículo, o RIF 146088 também registra uma movimentação considerada relevante envolvendo a Go Up Entertainment, produtora de Dark Horse.
Segundo a decisão, entre 10 de novembro e 30 de dezembro de 2025, as contas da empresa movimentaram R$ 19.033.071.
Foram R$ 8,9 milhões em créditos e R$ 10 milhões em débitos em um intervalo inferior a dois meses.
Entre as operações mencionadas pelos investigadores está uma transferência de R$ 750 mil realizada pela empresa NTT Brasil em uma única transação.
Essas informações passaram a integrar o conjunto de elementos financeiros analisados pela Polícia Federal para compreender as relações entre empresas e pessoas investigadas.
O que é investigado
A operação desta quarta-feira foi autorizada pelo ministro Flávio Dino dentro do inquérito que apura possíveis irregularidades na destinação de recursos públicos provenientes de emendas parlamentares.
Entre os focos da investigação está o repasse de R$ 2 milhões em emendas destinadas ao Instituto Conhecer Brasil, entidade ligada à empresária Karina Ferreira da Gama.
A Polícia Federal investiga suspeitas de que recursos públicos tenham sido direcionados de forma irregular para empresas contratadas e busca esclarecer se houve efetiva prestação dos serviços previstos nos contratos analisados.
Os crimes investigados incluem peculato, falsidade documental, lavagem de dinheiro, organização criminosa e infrações relacionadas a licitações.
A decisão de Dino autorizou medidas de busca e apreensão contra diversos investigados e também permitiu a apreensão de dinheiro em espécie, veículos e outros bens de alto valor que eventualmente apresentassem relação com os fatos apurados.
No centro da investigação, porém, está justamente o trabalho de inteligência financeira que começou com comunicações obrigatórias enviadas ao Coaf e terminou servindo de base para o mapeamento de fluxos de recursos, conexões empresariais e novas diligências da Polícia Federal.
A decisão do STF não conclui que a compra do SUV tenha sido ilegal. O documento registra que o pagamento integral em espécie motivou uma comunicação obrigatória ao Coaf, dentro das regras de prevenção à lavagem de dinheiro aplicáveis ao setor de venda de veículos, e que essa informação passou a compor um relatório de inteligência financeira posteriormente analisado pela Polícia Federal no contexto da investigação.
Com informações: CNN Brasil



