Neurodiversidade desafia cidades a criarem espaços mais inclusivos, avalia conselheiro de Saúde
Mário Montemór Netto defende mudanças no ambiente urbano para acolher pessoas neurodivergentes

O conselheiro de Saúde do Grupo aRede, Mário Rodrigues Montemór Netto, aborda os impactos da neurodiversidade no planejamento e na estrutura das cidades, defendendo que espaços urbanos, serviços públicos, escolas, hospitais e empresas sejam adaptados às diferentes necessidades neurológicas da população.
No artigo, o médico destaca a importância da intervenção precoce, da inclusão no mercado de trabalho e de ambientes com maior previsibilidade e acessibilidade sensorial, propondo que as cidades desenvolvam sua própria “neuroplasticidade urbana” para acolher a população neurodivergente. A reflexão integra a editoria Conselho da Comunidade, do Grupo aRede.
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"A Era da Neurodiversidade e a Neuroplasticidade das Cidades
Por: Dr. Mário Rodrigues Montemór Netto
Conselheiro de Saúde do Grupo aRede, Diretor de Saúde da ACIPG, Presidente da Associação Médica do Paraná – Regional Ponta Grossa (AMPG) e Professor do curso de Medicina da UEPG.
Nos últimos 20 anos, a medicina, a arquitetura social e o urbanismo testemunharam uma mudança demográfica e clínica silenciosa, mas de impacto colossal: o número de diagnósticos de Transtorno do Espectro Autista (TEA) saltou cerca de 500%. Hoje, o Centers for Disease Control and Prevention (CDC) aponta que 1 em cada 36 crianças, aos 8 anos de idade, encontra-se no espectro.
Não estamos diante de um "pico passageiro", mas de uma realidade estrutural. A ciência atual consolida o conceito de Neurodiversidade, estimando que 15% a 20% da população global possua alguma forma de divergência neurológica. Diferenças no funcionamento cerebral não são "déficits" a serem curados, mas variações biológicas a serem respeitadas. Entramos, definitivamente, na "Era da Neurodiversidade".
Diante dessa estatística formidável, o "organismo urbano" — as nossas cidades e metrópoles contemporâneas — é convocado a um diagnóstico médico e arquitetônico urgente: o nosso metabolismo social, nossas escolas, hospitais e vias públicas estão preparados para absorver e acolher a mente neurodivergente?

A Etiologia: Genética, Meio Ambiente e a Saúde Única
A literatura médica mais rigorosa, atualizada neste início de 2025 (como as diretrizes do StatPearls / National Library of Medicine), é categórica ao desmistificar falácias perigosas: não existe nenhuma relação causal entre vacinas e o autismo.
O TEA é uma condição complexa com altíssima herdabilidade genética. No entanto, a genética não age no vácuo; ela frequentemente interage com gatilhos ambientais. Fatores como a exposição pré-natal a poluentes do ar, metais pesados, desequilíbrios metabólicos e toxinas agem como "modificadores" potentes do risco.
Aqui, o conceito global da OMS de Saúde Única (One Health) se funde ao Planejamento Urbano. Uma cidade que sofre com o crescimento desordenado, asfixiada pelo tráfego logístico pesado rasgando áreas residenciais e pela degradação ambiental, agride o seu ecossistema. Cuidar da resiliência verde e do distanciamento físico profilático em nossas cidades não é apenas uma bandeira ecológica; é, na prática clínica, fazer prevenção em saúde neurológica para as futuras gerações.
O Modelo SPACE e as "Artérias" Sensoriais das Cidades
Para uma pessoa neurotípica, a acessibilidade urbana costuma se resumir a rampas de concreto e calçadas niveladas. Para um autista, o grande desafio arquitetônico é a "rampa sensorial". Estímulos que a maioria ignora — a luz fluorescente agressiva de um pronto-socorro, o som caótico e desregulado das avenidas, a imprevisibilidade de um serviço de transporte público — podem causar dor física extrema e sobrecarga neurológica (meltdown ou shutdown).
A psiquiatria atual preconiza o modelo SPACE (Sensory, Predictability, Acceptance, Communication, Empathy) para o cuidado. É imperativo que arquitetos, urbanistas e gestores públicos apliquem este "prontuário" à infraestrutura das nossas cidades:
- Sensorial e Previsibilidade: Precisamos de espaços públicos, parques, clínicas e escolas construídos sob a ótica do "desenho universal invisível", oferecendo fluxos visuais previsíveis, acústica regulada e "zonas de descompressão" de baixo estímulo.
- Aceitação e Comunicação: Nossas equipes de segurança pública, educação e atendimento em saúde necessitam de treinamento estruturado para o acolhimento atípico. A deficiência, frequentemente, não reside no autismo, mas na arquitetura e no ambiente social hostis que não o compreendem.
Intervenção Precoce e Inclusão no Tecido Produtivo
O diagnóstico clínico é o mapa para a intervenção, e a literatura prova que o prognóstico evolui radicalmente com o suporte adequado. Contudo, o "sistema imunológico" de cuidado das nossas cidades — as redes públicas (SUS) e suplementares de saúde — sofre de grave atrofia. É uma epidemia nacional a escassez de terapeutas ocupacionais, fonoaudiólogos, analistas do comportamento e neuropediatras. Filas de espera por terapias baseadas em evidências amputam janelas preciosas de neuroplasticidade nas nossas crianças.
Por fim, o nosso metabolismo econômico — o setor produtivo e empresarial — precisa despertar para o poder da neurodiversidade. Inúmeras pessoas no espectro possuem habilidades formidáveis, foco hiperdirecionado, raciocínio analítico aguçado e extrema lealdade institucional. Um mercado de trabalho que fecha portas por puro estigma comete, ao mesmo tempo, um erro crasso de gestão corporativa e um desperdício inaceitável de capital humano.
O Prognóstico
Uma cidade verdadeiramente "Inteligente" não deve ser mensurada exclusivamente pelos seus quilômetros de asfalto, viadutos ou polos tecnológicos, mas por sua capacidade de adaptação humana e civilidade. As metrópoles contemporâneas precisam exercer a sua neuroplasticidade urbana.
Em vez de exigir que indivíduos neurodivergentes sofram e se mascarem solitariamente para tentar se encaixar em uma sociedade rígida, é o corpo da cidade — em suas leis, calçadas, edifícios e atitudes — que deve criar novas sinapses e se moldar a eles. Quando curamos a esclerose do nosso preconceito e abraçamos o conceito de neurodiversidade, preparamos o ambiente urbano para um futuro de inovação, onde todos os cidadãos podem pulsar por inteiro".
Conselho da Comunidade
Composto por lideranças representativas da sociedade, não ocupantes de cargo eletivo, totalizando 14 membros, a iniciativa tem o objetivo de debater, discutir e opinar sobre pautas e temas de relevância local e regional, que impactam na vida dos cidadãos, levantados semanalmente pelo Portal aRede e pelo Jornal da Manhã, com a divulgação em formato de vídeo e/ou artigo.
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