Preservação de prédios históricos desafia municípios da região | aRede
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Preservação de prédios históricos desafia municípios da região

Recursos e necessidade de conciliar conservação e uso dos espaços estão entre os desafios apontados pelos municípios

Biblioteca Pública de Tibagi é um exemplo de ponto cultural fundado em 13 de outubro de 1965
Biblioteca Pública de Tibagi é um exemplo de ponto cultural fundado em 13 de outubro de 1965 -

Sara Dalzotto

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A preservação do patrimônio histórico vai além de manter uma construção antiga. O processo envolve recursos, projetos, mão de obra especializada e o equilíbrio entre a proteção das estruturas originais e a revitalização dos espaços. Nos Campos Gerais, esses fatores aparecem entre os principais desafios relatados pelos municípios de Ponta Grossa, Jaguariaíva, Lapa, Castro e Tibagi.

Em Ponta Grossa, a prefeita Elizabeth Schmidt afirma que a prioridade é fazer com que preservação, ocupação e desenvolvimento caminhem juntos. “Ponta Grossa possui um patrimônio extraordinário, formado por edifícios, estações ferroviárias, praças, igrejas, equipamentos culturais e paisagens. Queremos preservar sua história, garantir sua conservação e, sempre que possível, dar a ele uma função contemporânea e aproximá-lo da população”, destaca.

Em Jaguariaíva, o município reúne um patrimônio histórico, cultural e natural significativo, e a estratégia, segundo a Diretoria do Departamento de Cultura, é trabalhar todos esses aspectos. Em Castro, Lapa e Tibagi, os desafios apontados indicam a importância de conciliar a preservação com a dinâmica urbana e a articulação entre órgãos públicos e privados.

Ponta Grossa

Em Ponta Grossa, o foco envolve a dimensão do patrimônio protegido e a necessidade de garantir sua conservação. A cidade possui 83 bens tombados pelo Conselho Municipal do Patrimônio Cultural (COMPAC), além de bens protegidos pelo Estado e 17 manifestações culturais salvaguardadas.

Para a prefeita Elizabeth Schmidt, a educação patrimonial é um dos pontos a serem observados na estratégia de preservação. “Nossa visão é de uma cidade que não precise escolher entre preservar o passado e construir o futuro. O patrimônio pode fazer parte do futuro de Ponta Grossa”. Entre as iniciativas está a Escolinha do Patrimônio, criada para aproximar a população, especialmente as novas gerações, dos bens culturais do município

Na parte estrutural, a conservação dos imóveis municipais é realizada por meio do orçamento da Secretaria Municipal de Cultura. Para obras de maior porte, o município busca recursos externos, como a Estação Paraná, que tem prevista uma intervenção de R$ 1,6 milhão.

A necessidade de manutenção contínua também aparece na trajetória do Museu Campos Gerais (MCG), instalado no antigo prédio do Fórum da Comarca, que é tombado pelo Estado do Paraná. Segundo a Secretaria Municipal de Cultura, o imóvel demonstra como a falta de intervenções preventivas pode fazer com que problemas de conservação se transformem, posteriormente, em obras mais complexas.

A Secretaria Municipal de Cultura ainda ressalta que o tombamento não significa desapropriação: o proprietário continua responsável pelo imóvel, mas as intervenções precisam seguir a legislação.

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  • Museu Campos Gerais
    Museu Campos Gerais
  • Estação Paraná
    Estação Paraná
  • Sesc Estação Saudade
    Sesc Estação Saudade

Jaguariaíva

Em Jaguariaíva, o patrimônio histórico reúne diferentes momentos da formação do município, ligados ao tropeirismo, à industrialização e às antigas ferrovias. Entre os principais bens estão: o antigo Grupo Escolar Izabel Branco, de 1911; a Casa da Cultura Professor Doutor João Batista da Cruz, de 1918; o Condomínio Matarazzo e o Palacete Matarazzo, ambos de 1924; além da Estação Ferroviária Agente Durvalino de Azevedo, inaugurada em 1936.

Segundo Juliana da Silva Ribeiro Teixeira, diretora do Departamento de Cultura da Secretaria Municipal de Educação e Cultura, algumas estruturas já passaram por intervenções, enquanto outros demandam novas obras. O destaque em 2026 é o Museu Histórico Municipal Conde Francisco Matarazzo, instalado no Palacete Matarazzo, que está em processo de reforma com um investimento de mais de R$ 400 mil do Governo do Estado, por meio do Fundo a Fundo.

Para Juliana, a conservação de patrimônios históricos exige estudos, projetos específicos, mão de obra especializada e materiais adequados às características originais da edificação. “Um patrimônio histórico precisa ser preservado, mas também precisa estar integrado à vida da cidade”, afirma Juliana.

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  • Casa da Cultura Professor Dr João Batista da Cruz
    Casa da Cultura Professor Dr João Batista da Cruz
  • Condomínio Industrial Matarazzo
    Condomínio Industrial Matarazzo
  • Condomínio Industrial Matarazzo
    Condomínio Industrial Matarazzo
  • Estação Cidadã Durvalino de Azevedo
    Estação Cidadã Durvalino de Azevedo

Lapa

Na Lapa, os principais bens são: o Theatro São João, a Casa Lacerda, o Museu Histórico, o Museu de Armas, a Casa Vermelha, o Panteon dos Heroes, a Casa da Memória (Casa dos Cavalinhos), o Museu da Moda, o Santuário de São Benedito e a Igreja Matriz de Santo Antônio.

Segundo a secretária municipal de Cultura, Nara Skrzypietz, os espaços recebem ações de manutenção conforme a necessidade, a disponibilidade de recursos e as autorizações. “Um dos principais desafios é conciliar a preservação com os recursos disponíveis”, ressalta.

Além disso, Nara explica que cada imóvel possui suas responsabilidades, uma vez que possuem diferentes titularidades: “tem imóveis pertencentes ao Município, à União e a particulares, além de bens submetidos à proteção dos órgãos estaduais e federais de patrimônio”.

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  • Casa Vermelha
    Casa Vermelha
  • Museu Casa Lacerda
    Museu Casa Lacerda
  • Santuário de São Benedito
    Santuário de São Benedito
  • Theatro São João
    Theatro São João

Castro

Em Castro, o Centro Histórico é o principal conjunto patrimonial do município e reúne mais de 40 quadras tombadas pelo Estado. Os imóveis incluem: Museu do Tropeiro, Estação Ferroviária de Castro, Casa de Sinhara, Casa da Praça, Casa Praça Manoel Ribas nº 152 e nº 120, Casa da Cultura Emília Erichsen, Fazenda Capão Alto, Espaço Cultural Dr. Vicente Machado, Teatro Maestro Bento Mossurunga, Arquivo Público Municipal (Casa Marinha), Igreja Matriz de Sant’Ana e Casa Marianna (Sede da Secretaria de Cultura).

Segundo Cledson Soares da Silva, gestor público, o Plano Diretor de Castro determina que os recursos provenientes do instrumento da Outorga Onerosa sejam destinados à preservação de imóveis tombados ou de interesse de preservação, como ocorreu no Museu do Tropeiro e na Casa de Sinhara.

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  • Fazenda Capão Alto
    Fazenda Capão Alto
  • Casa da Cultura Emília Erichsen
    Casa da Cultura Emília Erichsen
  • Igreja Matriz de Sant'Ana
    Igreja Matriz de Sant'Ana

Tibagi

Os principais patrimônios históricos de Tibagi incluem: o Museu Histórico, a Biblioteca Municipal, a Caixa d’Água, a Casa da Cultura, além de praças, igrejas e o Palácio dos Diamantes, onde atualmente funciona a Prefeitura.

Segundo o prefeito Rildo Leonardi, o Palácio passará por uma grande reforma, com investimento de mais de R$ 2 milhões, que prevê a restauração das características originais do imóvel, incluindo a construção de uma base de concreto. Além disso, o prefeito destacou que o Museu e o Teatro Municipal já passaram por reformas nos últimos anos, mas ainda demandam manutenção.

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  • Caixa dÁgua
    Caixa dÁgua
  • Cânion Guartelá
    Cânion Guartelá
  • Biblioteca Pública de Tibagi
    Biblioteca Pública de Tibagi
  • Museu Histórico de Tibagi
    Museu Histórico de Tibagi

Historiadora aponta desvalorização do patrimônio público

De acordo com a historiadora e membra da Associação de Preservação do Patrimônio Cultural e Natural (APPAC) de Ponta Grossa e dos Campos Gerais, Letícia Leal de Almeida, o patrimônio histórico vem sendo constantemente desvalorizado em Ponta Grossa. “Perdemos muitos exemplares de imóveis nos últimos anos, devido ao descaso e à especulação imobiliária”, aponta.

Para ela, apesar do município possuir uma legislação atualizada e uma fiscalização constante, há descaso e desinformação sobre o assunto, principalmente nas redes sociais.

Segundo a historiadora, o tombamento de um imóvel permite o acompanhamento do COMPAC e que a estrutura não seja descaracterizada ou derrubada. No entanto, “os proprietários dos imóveis também precisam se conscientizar da importância do patrimônio para a cidade e para a memória das futuras gerações”, destaca

Letícia Leal de Almeida, historiadora, pesquisadora e membra da Associação de Preservação do Patrimônio Cultural e Natural (APPAC)
Letícia Leal de Almeida, historiadora, pesquisadora e membra da Associação de Preservação do Patrimônio Cultural e Natural (APPAC) |  Foto: Divulgação.

Fiscalização é essencial para garantir preservação, aponta MPPR

O Ministério Público do Paraná (MPPR) aponta que condições inadequadas de conservação de bens tombados estão entre os principais problemas relacionados ao patrimônio histórico. Segundo o promotor de Justiça, Dr. João Conrado Blum Júnior, a responsabilidade pela conservação do bem tombado é, em regra, do proprietário, que deve seguir as determinações da legislação e do COMPAC. Porém, em caso de descumprimento, o município pode executar obras necessárias e cobrar posteriormente os custos do responsável.

O promotor também destaca que o tombamento estabelece um regime de proteção, mas a legislação também prevê fiscalização e acompanhamento pela Secretaria de Cultura. Diante de abandono ou falta de fiscalização, o MPPR pode expedir Recomendação Administrativa, firmar Termos de Compromisso de Ajustamento de Conduta ou, caso as medidas anteriores sejam insuficientes, propor ação civil pública.

Atualmente, tramitam na 6ª Promotoria de Justiça de Ponta Grossa, procedimentos que apuram as medidas de preservação de bens tombados no município, dentre eles, a Locomotiva Maria Fumaça, a Estação Paraná e o Jockey Clube.

Promotor de Justiça Dr. João Conrado Blum Júnior
Promotor de Justiça Dr. João Conrado Blum Júnior |  Foto: Divulgação.

Patrimônio histórico movimenta turismo e economia nos Campos Gerais

Prédios históricos são vetores de desenvolvimento econômico a partir do turismo, cultura e identidade dos municípios; estrutura também gera renda e oportunidades de empregos

Se a preservação do patrimônio histórico exige recursos para manter estruturas, o turismo entra como possibilidade para gerar economia local e ampliar o uso dos espaços pela população.

Para Juliana da Silva Ribeiro Teixeira, diretora do Departamento de Cultura de Jaguariaíva, o patrimônio pode ser um vetor de desenvolvimento econômico. “Preservar um prédio, uma antiga estrutura ou um espaço de memória não significa apenas conservar algo do passado; significa criar possibilidades para o presente e para o futuro”, afirma. A recuperação e inclusão desses espaços em roteiros estimula o comércio, a gastronomia, a hotelaria, o artesanato e a economia criativa.

Segundo a prefeita de Ponta Grossa, Elizabeth Schmidt, o patrimônio precisa ser preservado, mas também vivido. “Um imóvel restaurado e permanentemente fechado produz pouco impacto sobre a dinâmica da cidade. Quando esse mesmo patrimônio recebe exposições, visitas, gastronomia e programação cultural, passa a gerar circulação de pessoas”, destaca.

Patrimônio como turismo e desenvolvimento econômico

Em Jaguariaíva, a estratégia é integrar os atrativos naturais aos espaços históricos e culturais. Segundo Juliana, quem chega ao município em busca das belezas naturais também é incentivado a conhecer locais de memória por meio de roteiros turísticos e atividades culturais.

Em Tibagi, a estratégia também busca conectar o patrimônio através da natureza. O Centro Histórico integra os roteiros oficiais e seus prédios são divulgados em redes sociais, mapas, materiais promocionais e campanhas. Entre as iniciativas está a visita noturna ao local.

O prefeito de Tibagi, Rildo Leonardi, destaca que o patrimônio tem papel importante na estratégia turística do município. Segundo ele, a equipe mantida pela Secretaria de Turismo no Cânion Guartelá, por exemplo, é capacitada para apresentar a história local e orientar os visitantes a conhecerem a cidade.

Segundo Rildo, isso é possível a partir da Secretaria de Turismo de Tibagi, que desenvolve as ações. “Dessa forma, o patrimônio histórico deixa de ser apenas um bem cultural e passa a gerar oportunidades de emprego, renda e desenvolvimento para a comunidade, sempre aliado à sua preservação e valorização”.

Em Castro, o patrimônio também é utilizado para diversificar a oferta turística do município. O guia turístico Juliano José Roberto afirma que o resgate, a preservação e a valorização do patrimônio histórico e cultural são ativos estratégicos para ampliar as possibilidades.

Segundo Amélia Flugel Podolan, Chefe do departamento do Patrimônio Histórico de Castro, a atratividade turística do município envolve a herança tropeira e o legado das várias etnias que formaram a comunidade, entre elas a dos povos originários, dos africanos, dos europeus e asiáticos. A imigração holandesa acrescenta outra frente, com a Colônia Castrolanda, o Moinho De Immigrant e o Centro Cultural Castrolanda, que preservam a história dos imigrantes e também funcionam como atrativos.

Kasciano Roberto Morais, secretário de Indústria, Comércio e Turismo de Castro, afirma que o município lançou recentemente um mapa turístico. “A ideia é simples: patrimônio preservado vira dinheiro na mão do empresário e do trabalhador. Com o mapa turístico, os eventos nacionais e o turismo de negócios, mais gente visita a cidade, mais gente compra no comércio, mais empregos são gerados”, relaciona.

Na Lapa, o patrimônio histórico já ocupa papel relevante na atividade turística. Segundo o prefeito Diego Ribas, um destaque provém do turismo pedagógico, devido a alta procura das instituições de ensino para excursão pelos museus históricos.

Para a secretária de Cultura da Lapa, Nara Skrzypietz, os eventos culturais e turísticos do município fortalecem ainda mais a movimentação econômica, pois ampliam o fluxo de visitantes. “Além do impacto econômico direto, essas atividades contribuem para a valorização da identidade lapeana e para a divulgação do município como um importante destino histórico e cultural do Paraná”, completa.

Patrimônio preservado por gerar emprego

Para a historiadora Letícia Leal de Almeida, membro da Associação de Preservação do Patrimônio Cultural e Natural (APPAC), transformar a história em produto turístico já é uma estratégia utilizada por diferentes cidades. “Você imagina as cidades da Lapa e Morretes sem os patrimônios tombados? É a história local e regional que mantém essas cidades ativas, atraindo diferentes públicos”, exemplifica.

Em Ponta Grossa, o Museu Campos Gerais e a Estação Saudade são exemplos de imóveis utilizados para ampliar o turismo. No primeiro caso, o prédio restaurado passou a funcionar como espaço de memória e visitação. No segundo, o Sesc desenvolve atividades culturais e econômicas, inclusive, com um café no local. “Isso gera renda, economia criativa, turismo e trabalho para muitas pessoas”, afirma.

Leia o resumo da notícia

Preservação exige investimento e planejamento: municípios dos Campos Gerais, como Ponta Grossa, Jaguariaíva, Lapa, Castro e Tibagi, enfrentam desafios para manter imóveis históricos, que demandam recursos, projetos específicos, mão de obra especializada e fiscalização. Reformas importantes estão em andamento, como a do Palácio dos Diamantes, em Tibagi, com investimento superior a R$ 2 milhões.

Patrimônio precisa ser integrado à vida das cidades: além da conservação, gestores e especialistas defendem o uso dos espaços para atividades culturais, educação patrimonial e convivência com a população. A falta de manutenção preventiva e a especulação imobiliária são apontadas como ameaças à preservação.

Turismo transforma patrimônio em desenvolvimento: prédios, museus, igrejas e outros bens históricos são usados para fortalecer o turismo e movimentar comércio, gastronomia, hotelaria, artesanato e economia criativa. Municípios como Lapa, Castro, Jaguariaíva e Tibagi integram esses espaços aos roteiros turísticos, gerando emprego, renda e valorização da identidade local.

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