Cota chinesa esgotada não deve baixar o preço da carne no Brasil
Menor oferta de animais, retomada de embarques e consumo aquecido no fim de ano afastam perspectiva de queda nas prateleiras

O anúncio da Administração-Geral de Alfândegas da China (GACC) sobre o atingimento de 100% da cota de salvaguarda de 1,106 milhão de toneladas de carne bovina prevista para 2026 levantou dúvidas sobre uma eventual queda nos preços da proteína no mercado brasileiro. Embora o esgotamento do limite crie o potencial de elevar a oferta interna, dado que novas remessas enviadas ao país asiático este ano passarão a pagar sobretaxa de 55%, a tendência não deve se traduzir em alívio para o consumidor doméstico, segundo análise da Datagro Pecuária divulgada pelo Globo Rural.
De acordo com João Figueiredo, analista da consultoria, o movimento do mercado pode caminhar na direção oposta. A combinação entre menor oferta de gado para abate, a preparação do setor para a próxima janela de compras chinesas e o aumento sazonal do consumo no Brasil no último trimestre tende a sustentar os preços elevados. O analista esclarece que a cota foi virtualmente preenchida entre o fim de julho e o início de agosto, considerando os prazos de transporte e liberação alfandegária, fazendo com que a indústria já direcione os novos embarques de outubro e novembro para internalização a partir de 1º de janeiro de 2027.
Essa dinâmica já reflete no preço da arroba do boi gordo, que no início de outubro atingiu o patamar de R$ 365,40, próximo do recorde histórico de R$ 367 registrado em maio de 2026. A expectativa do setor é que o pico do volume de compras direcionado ao mercado chinês ocorra em meados de novembro, embora o valor final pago pelos importadores asiáticos ainda vá ditar a intensidade da valorização.
Além da pressão do comércio exterior, a Pecuária brasileira enfrenta um ciclo de restrição na oferta de animais para o abate. Após períodos seguidos de forte abate de fêmeas, o setor entrou em fase de retenção de matrizes, reduzindo a disponibilidade de gado. As projeções apontam uma queda de 5,3% na oferta de animais em 2026 e uma redução adicional de 8% em 2027, confirmando a entrada do mercado em um ciclo de alta de preços por restrição de oferta.
O abastecimento do mercado interno também sofre concorrência direta do câmbio e da concorrência pelas peças. Conforme a indústria frigorífica intensifica os envios para o exterior, o mercado doméstico fica menos abastecido. O analista ressalta ainda o impacto do dólar na formação de preços e recorda que oscilações anteriores na cotação da arroba já causaram forte retração no consumo da população. Unida ao aquecimento tradicional das vendas no fim de ano, a conjuntura limita qualquer margem para desvalorização da carne no país.
LEIA ABAIXO UM RESUMO DA NOTÍCIA
- O esgotamento da cota de exportação para a China não reduzirá os preços da carne bovina no Brasil devido à retenção de oferta e ao aquecimento do consumo no fim de ano.
- A indústria já prepara novos embarques em outubro e novembro para liberação na China a partir de janeiro de 2027, mantendo a arroba do boi gordo próxima de recordes históricos (R$ 365,40).
- A oferta de gado no Brasil deve recuar 5,3% em 2026 e 8% em 2027, consolidando um ciclo de alta no setor pecuário.



