Editorial
BR-373 pede urgência e saúde regional exige ação pontual
Da Redação | 22 de agosto de 2026 - 01:13
A tragédia que matou 23 pessoas na BR-373, em Ipiranga, não pode ser tratada apenas como mais um acidente nas estatísticas das rodovias paranaenses. O episódio escancarou, de maneira dolorosa, dois problemas que há anos aguardam respostas concretas nos Campos Gerais: a falta de uma estrutura regional de saúde capaz de atender à população sem deslocamentos excessivos e a necessidade urgente de duplicação da BR-373 entre Ponta Grossa e Prudentópolis.
Entre as vítimas estavam 22 pessoas que viajavam em um
micro-ônibus da Secretaria Municipal de Saúde de Imbituva, em direção à Grande
Curitiba. Eram pacientes e acompanhantes que buscavam atendimento médico. O
destino, que deveria representar esperança de tratamento, terminou em uma
tragédia familiar e regional. A dimensão do acidente torna impossível ignorar a
relação entre a precariedade da infraestrutura rodoviária e a necessidade de
deslocamento para serviços de saúde.
A duplicação da BR-373 não pode continuar sendo uma promessa
distante. O contrato de concessão prevê a duplicação de 99,3 quilômetros entre
Ponta Grossa e Prudentópolis, com obras programadas para os próximos anos. No
trecho do acidente, estão previstos 29,1 quilômetros de duplicação, com entrega
contratual indicada para 2030. O governador Ratinho Junior, entretanto, afirmou
que o cronograma prevê o início das obras em 2027.
É preciso reconhecer que uma obra dessa dimensão exige
planejamento, licenciamento, projetos e investimentos. Mas também é necessário
reconhecer que segurança viária não pode esperar indefinidamente. Os dados da
própria concessionária mostram 54 colisões frontais na BR-373 desde o início da
concessão até a data da tragédia. Vinte desses acidentes tiveram vítimas
fatais. São números que justificam uma atuação mais firme das autoridades para
acelerar tudo o que for possível dentro das regras legais e contratuais.
O Estado, os municípios e os representantes da região
precisam transformar a indignação provocada pela tragédia em mobilização
permanente. Prefeitos, deputados, vereadores e entidades empresariais devem
atuar conjuntamente junto ao governo federal, à ANTT, ao Ministério dos
Transportes e à concessionária para acompanhar o cronograma, cobrar
transparência e buscar a antecipação das intervenções sempre que houver
condições técnicas e jurídicas.
Mas a duplicação da rodovia é apenas uma parte do problema.
A outra está dentro do sistema de saúde. Não é razoável que pacientes dos
Campos Gerais precisem percorrer centenas de quilômetros para realizar
consultas, exames, procedimentos ou buscar atendimento especializado que
poderia ser ofertado de maneira regionalizada.
Os municípios têm papel fundamental na atenção básica, mas
os atendimentos de média e alta complexidade dependem de uma organização
regional que envolve diretamente o governo estadual. É justamente nesse ponto
que o Paraná precisa avançar. Ponta Grossa, como cidade-polo, deve ter
condições de ampliar sua capacidade de atendimento e, ao mesmo tempo, outros
municípios precisam fortalecer suas estruturas para evitar que toda a demanda
seja concentrada em poucos centros.
A regionalização da saúde não significa apenas construir
hospitais. Significa organizar a rede, ampliar especialidades, descentralizar
consultas e exames, fortalecer os hospitais regionais, melhorar a regulação e
garantir que o paciente seja encaminhado para o serviço adequado no menor
deslocamento possível. Cada quilômetro que deixa de ser percorrido por um
paciente representa também menos exposição a riscos, menos custos para as
prefeituras e mais conforto para famílias que já enfrentam momentos de fragilidade.
É preciso, portanto, que o governo estadual apresente um
plano objetivo para reduzir esses deslocamentos nos Campos Gerais. Os prefeitos
também precisam assumir sua responsabilidade e, junto às Regionais de Saúde,
identificar quais serviços podem ser ampliados em cada município. Não basta
lamentar quando uma ambulância ou um micro-ônibus se envolve em acidente. É
necessário atacar a causa estrutural que obriga milhares de pessoas a viajar em
busca de atendimento.
A tragédia de Ipiranga precisa deixar uma lição. Estradas
mais seguras e saúde mais próxima não são demandas isoladas. Elas fazem parte
de uma mesma política de proteção à vida. Enquanto pacientes continuarem sendo
obrigados a viajar longas distâncias para conseguir uma consulta ou tratamento,
a segurança dessas viagens também será responsabilidade do poder público.
Os 23 mortos da BR-373 não podem ser lembrados apenas pela
dimensão da tragédia. Suas mortes precisam provocar mudanças. A duplicação da
rodovia deve ser tratada como prioridade regional, e a regionalização da saúde
precisa sair do discurso para se transformar em planejamento, investimento e
atendimento efetivo. Os Campos Gerais não podem continuar esperando que novas
tragédias aconteçam para que problemas antigos sejam novamente discutidos.