Editorial
A ferrovia precisa voltar ter serventia a Ponta Grossa
Da Redação | 29 de julho de 2026 - 02:54
Ponta Grossa nasceu e se consolidou como um dos principais entroncamentos logísticos do Sul do Brasil graças à ferrovia. Durante décadas, os trilhos impulsionaram a economia, atraíram indústrias e ajudaram a transformar o município em um polo regional. No entanto, o crescimento urbano fez com que essa mesma infraestrutura passasse a representar um dos maiores entraves à mobilidade da cidade. Por isso, os pedidos apresentados pela prefeita Elizabeth Schmidt à Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) merecem atenção e apoio.
Não se trata de uma reivindicação isolada ou de um projeto
de governo. Trata-se de uma pauta estratégica para o futuro de Ponta Grossa. O
dossiê entregue durante a audiência pública da nova concessão ferroviária reúne
estudos técnicos e propõe intervenções capazes de enfrentar problemas que se
arrastam há décadas e que impactam diretamente milhares de moradores todos os
dias.
Os números ajudam a dimensionar a urgência. São 32 passagens
de nível distribuídas pelo perímetro urbano, muitas delas localizadas em
regiões que cresceram de forma acelerada. Em horários de maior movimento,
cruzamentos registram fluxo de até dois mil veículos por hora, formando longas
filas, aumentando o tempo de deslocamento e comprometendo o atendimento de
serviços essenciais, como ambulâncias, viaturas policiais e equipes de
emergência.
Os reflexos vão além dos congestionamentos. O excesso de
cruzamentos em nível amplia o risco de acidentes, dificulta a integração entre
bairros, encarece o transporte de cargas e reduz a eficiência da mobilidade
urbana. Uma cidade que se destaca pela força industrial, pelo agronegócio, pela
educação e pelos serviços não pode continuar convivendo com gargalos que
limitam seu próprio desenvolvimento.
As propostas encaminhadas à ANTT atacam justamente os
principais problemas. A construção de viadutos e trincheiras eliminará pontos
críticos de conflito entre veículos e trens. A retirada do pátio ferroviário do
Rio Verde reduzirá manobras que hoje paralisam o trânsito. O contorno
ferroviário e o rebaixamento da linha em áreas mais adensadas permitirão uma
convivência mais harmoniosa entre cidade e ferrovia. Já a adequação do traçado
nas proximidades do Aeroporto Sant'Ana abre caminho para a ampliação da pista,
fortalecendo também a logística aérea do município.
É importante compreender que essas obras não representam
apenas melhorias viárias. Elas criam condições para ampliar investimentos,
reduzir custos operacionais, valorizar áreas urbanas e elevar a qualidade de
vida da população. São intervenções com capacidade de produzir efeitos
positivos durante décadas.
Agora, a responsabilidade deixa de ser apenas municipal. A
nova concessão ferroviária representa uma oportunidade histórica para corrigir
distorções acumuladas ao longo do tempo. Ignorar as necessidades de Ponta
Grossa significaria desperdiçar um momento raro de planejamento de longo prazo.
Os trilhos continuarão sendo fundamentais para a economia
brasileira. Mas, para cumprir esse papel, precisam coexistir com uma cidade
moderna, segura e eficiente. O desenvolvimento não pode parar diante de uma
cancela fechada.