Editorial
A proposta de concessão e a realidade dos trilhos em PG
Da Redação | 18 de julho de 2026 - 01:02
A inclusão de Ponta Grossa no eixo da nova concessão da Malha Sul representa uma notícia que merece ser comemorada. Não apenas pelo expressivo volume de recursos previstos — R$ 53 bilhões entre investimentos e operação ao longo de três décadas —, mas, principalmente, porque recoloca a cidade no centro de uma discussão estratégica para o futuro da economia paranaense. Afinal, poucos municípios reúnem condições tão favoráveis para se consolidarem como um dos maiores polos logísticos do Sul do Brasil.
A posição geográfica privilegiada, a força da indústria, o agronegócio, a expansão do setor de serviços e a conexão com importantes rodovias transformaram Ponta Grossa em um dos principais pontos de distribuição de cargas do Estado. Esse protagonismo, entretanto, convive há muitos anos com um paradoxo difícil de explicar: enquanto a cidade cresce, a infraestrutura ferroviária permanece limitada por gargalos históricos que comprometem a eficiência logística.
É justamente nesse ponto que a nova concessão pode representar um divisor de águas. A proposta apresentada pela Federação das Indústrias do Paraná acerta ao defender que os recursos gerados pelo corredor Paraná-Santa Catarina sejam reinvestidos prioritariamente na própria malha regional. Também faz sentido insistir em obras estruturantes capazes de ampliar a capacidade ferroviária e eliminar estrangulamentos que há décadas travam o desenvolvimento.
No caso de Ponta Grossa, a discussão vai além do transporte de cargas. Os trilhos que cortam o município deixaram de ser apenas corredores logísticos. Em muitos trechos, tornaram-se barreiras físicas para a expansão urbana, dificultando a mobilidade, provocando congestionamentos, aumentando o risco de acidentes e limitando novos projetos de desenvolvimento. Não são poucos os pontos onde a convivência entre ferrovia e cidade já não atende às necessidades de uma população que cresce e de uma economia cada vez mais dinâmica.
Por isso, qualquer debate sobre a nova concessão precisa olhar para essa realidade. Modernizar a ferrovia significa aumentar a competitividade da indústria, reduzir custos logísticos e fortalecer a ligação com os portos de Paranaguá e São Francisco do Sul. Mas significa, igualmente, encontrar soluções definitivas para os conflitos urbanos provocados pelos trilhos que atravessam Ponta Grossa.
A cidade não pode ser lembrada apenas como um importante entroncamento ferroviário. Precisa ser tratada como prioridade dentro de uma política de infraestrutura que compreenda sua importância econômica e seu potencial de crescimento. O desenvolvimento exige planejamento, investimentos e coragem para enfrentar problemas antigos.
A audiência pública promovida pela ANTT abre uma oportunidade rara de corrigir distorções acumuladas ao longo de décadas. Cabe ao poder público, às entidades empresariais e às lideranças políticas manterem uma atuação firme para que Ponta Grossa não apenas participe da concessão, mas seja efetivamente contemplada com intervenções capazes de transformar a ferrovia em uma aliada do desenvolvimento — e não mais em um obstáculo ao crescimento da cidade.