Debates
O Magnetizer do Dr. Fujiyama
Da Redação | 14 de outubro de 2026 - 02:40
Por Giovani Marino Favero
Quando eu era adolescente, sofri com aquelas dores do crescimento, coisa comum quando se passa por um estirão. Em uma dessas crises, eu estava na casa dos meus avós, e meu avô me apresentou o Magnetizer. Ele dizia que o aparelho era patenteado em seis países e havia sido inventado por um gênio do Japão.
Ligaram o equipamento para mim e coloquei um pé sobre ele por dez minutos, recebendo uma espécie de choque relaxante na sola do pé. Depois, troquei de pé e mais dez minutos de sessão. Pronto. Melhorei. Consequentemente, meu avô emprestou o aparelho para que minha família também pudesse fazer uso dele, sempre acompanhado de suas explicações e, principalmente, do manual. Nele havia uma infinidade de doenças que o aparelho, segundo o texto, curava ou auxiliava no tratamento.
O tempo passou. Mais de três décadas depois, em uma visita à casa de uma de minhas tias, comentei que gostaria de saber com quem havia ficado o Magnetizer.
Minha tia, sem hesitação, respondeu:
— Comigo. Você quer ver? Acho que nem funciona mais.
O equipamento estava na mesma maleta original, acompanhado do manual e da figura do Dr. Fujiyama. Para minha feliz surpresa, ela me ofereceu o aparelho. Eu aceitei na hora.
Comentei sobre o Magnetizer com meus irmãos, e meu irmão mais velho fez uma indagação interessante:
— Imagina o vô no interior de Santa Catarina. Aí aparece um vendedor na porta, com um aparelho diferente daquele, feito no Japão, com a foto do doutor que o inventou, prometendo cura para todo tipo de doença. Será que esse doutor existe mesmo? Ou era papo de vendedor? Como ele iria saber se aquelas informações procediam em 1968?
A pergunta ficou na minha cabeça.
Acabei arrumando a extensão e o adaptador e, hoje, fiz uma sessão de vinte minutos, dez em cada pé, enquanto lia o manual. Realmente, é um texto interessante sobre o poder do magnetismo sobre a água do corpo: “Os raios ultralongos do Magnetizer não provocam nenhuma dor, são constituídos de ondas eletromagnéticas de corrente alternada de 50 ciclos e 6 milhões de metros de comprimento.”
Outra coisa que me chamou muito a atenção foi o fato de meu avô anotar para quem havia emprestado o equipamento e por quanto tempo. As datas, no final dos anos 1960 e início dos anos 1970, registram uma pequena história paralela. Entre os nomes, alguns são especialmente curiosos, como o Sr. Antônio Sapateiro, em outubro de 1970.
É curioso pensar que aquele aparelho circulou pela vizinhança, entrando na casa das pessoas, acompanhando suas dores e suas esperanças. Meu avô não apenas emprestava o Magnetizer. Ele registrava seus empréstimos, como quem cuidava de algo que considerava importante.
Como vivemos em um período de informação instantânea, fui em busca de informações sobre o Magnetizer na internet. Talvez fosse melhor não ter procurado.
As respostas, em vários locais de busca, seguem mais ou menos o mesmo padrão: “Dr. Fujiyama” seria uma figura comercial e fictícia usada para promover e dar credibilidade ao aparelho eletroterapêutico Magnetizer, especialmente ao antigo modelo de “Onda Ultra Longa”, lançado na década de 1960.
Outra informação me chamou a atenção: “no mercado de terapias alternativas das décadas de 1960 a 1980, era extremamente comum o uso de nomes e sobrenomes que remetessem ao Monte Fuji, como Fujiyama.”
Realmente, meu irmão estava certo.
Parei as buscas por aí.
Vou continuar usando o Magnetizer, “patenteado em seis países”, obra do Dr. Fujiyama. Afinal, ele ajudou inúmeras pessoas, como mostram as anotações do vô Marino. Funcionou para mim na adolescência e, quem sabe, funcionará novamente agora.
Se não funcionar, pelo menos continuará fazendo aquilo que talvez seja sua função mais importante: me levar de volta à casa dos meus avós, ao meu avô Marino, às histórias de uma época em que um vendedor podia chegar ao interior de Santa Catarina carregando uma maleta, um aparelho japonês, um manual cheio de promessas e a fotografia de um doutor.
Giovani Marino Favero é professor associado do Departamento de Biologia Geral da UEPG.