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Imagem ilustrativa da imagem Maranhão 1966

Só aos vinte e dois anos conheci as obras de Glauber Rocha. Nessa época, eu estava fazendo mestrado na Faculdade de Medicina da USP e, de maneira aleatória, vi um cartaz próximo à entrada do Restaurante Universitário da Escola de Saúde Pública sobre um festival de filmes gratuitos no Cine Sesc, incluindo duas obras de Glauber.

Eu tinha um experimento para fazer, com quatro horas de espera, tempo suficiente para ir até a Rua Augusta e ver um filme desses. Para minha felicidade, a película era Terra em Transe. Ver essa maravilha em tela grande foi impactante. Voltei para os afazeres vidrado no que tinha acabado de assistir. Me organizei e, nos dias seguintes, consegui ver Deus e o Diabo na Terra do Sol. Mais uma maravilha.

Após essa imersão, fui atrás de conhecer mais de sua vida e obra. Algum tempo depois, fui ao Rio de Janeiro e incluí a visita ao Cemitério São João Batista para ver o túmulo dele.

Acredito que, até hoje, seja o maior cineasta que o Brasil já teve. Se você ainda não viu algum filme dele, veja.

Resolvi escrever sobre Glauber não apenas por sua obra, mas também por um fato que, para mim, é um bom exemplo de como podemos ser iludidos com a política brasileira. No ano de 1966, o cineasta tinha esperanças em um político em ascensão, o jovem José Sarney, que, com apenas 35 anos, se tornava governador do Maranhão. Sarney estava ligado à UDN e, posteriormente, à ARENA, partidos associados à direita brasileira, e o cineasta tinha uma posição contrária.

Faça um favor para você, leitor: veja o filme. Tem apenas 11 minutos e é uma coisa única, pois, ao invés de entregar o filminho oficial que Sarney esperava, Glauber Rocha ligou o modo subversivo. Usando a estética do Cinema Novo, ele pegou o discurso pomposo de posse e jogou por cima de imagens brutais de favelas, fome e hospitais caindo aos pedaços. O contraste foi tão violento que a voz do político virou um sussurro fantasmagórico, completamente perdido na miséria real do Maranhão. O soco no estômago foi tão grande que o próprio Sarney tentou engavetar o filme depois. (https://www.youtube.com/watch?v=hDRtFYjOtCY)

Glauber morreu cedo demais para assistir ao restante dessa história. Nós não tivemos esse privilégio. Vimos o jovem Sarney envelhecer na política, vimos sua família ocupar espaços de poder e acompanhamos, por décadas, os desdobramentos daquela esperança depositada em 1966.

Você, assim como eu, já deve ter depositado esperança em um político em ascensão, seja pelo carisma, discurso ou persuasão. Talvez por isso esse filme seja tão importante hoje. Não apenas pelo cinema de Glauber, que já seria motivo suficiente, mas porque ele registra um instante em que ainda era possível acreditar que o futuro seria diferente. E, olhando para trás, talvez seja justamente isso que mais nos impressione: perceber como, na política, o futuro quase sempre parece muito mais bonito quando ainda não chegou.

Giovani Marino Favero é professor associado do Departamento de Biologia Geral da UEPG.

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