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Maranhão 1966
Da Redação | 30 de setembro de 2026 - 01:54
Só aos vinte e dois anos conheci as obras de Glauber Rocha. Nessa época, eu estava fazendo mestrado na Faculdade de Medicina da USP e, de maneira aleatória, vi um cartaz próximo à entrada do Restaurante Universitário da Escola de Saúde Pública sobre um festival de filmes gratuitos no Cine Sesc, incluindo duas obras de Glauber.
Eu tinha um experimento para fazer, com quatro horas de
espera, tempo suficiente para ir até a Rua Augusta e ver um filme desses. Para
minha felicidade, a película era Terra em Transe. Ver essa maravilha em tela
grande foi impactante. Voltei para os afazeres vidrado no que tinha acabado de
assistir. Me organizei e, nos dias seguintes, consegui ver Deus e o Diabo na
Terra do Sol. Mais uma maravilha.
Após essa imersão, fui atrás de conhecer mais de sua vida e
obra. Algum tempo depois, fui ao Rio de Janeiro e incluí a visita ao Cemitério
São João Batista para ver o túmulo dele.
Acredito que, até hoje, seja o maior cineasta que o Brasil
já teve. Se você ainda não viu algum filme dele, veja.
Resolvi escrever sobre Glauber não apenas por sua obra, mas
também por um fato que, para mim, é um bom exemplo de como podemos ser iludidos
com a política brasileira. No ano de 1966, o cineasta tinha esperanças em um
político em ascensão, o jovem José Sarney, que, com apenas 35 anos, se tornava
governador do Maranhão. Sarney estava ligado à UDN e, posteriormente, à ARENA,
partidos associados à direita brasileira, e o cineasta tinha uma posição
contrária.
Faça um favor para você, leitor: veja o filme. Tem apenas 11
minutos e é uma coisa única, pois, ao invés de entregar o filminho oficial que
Sarney esperava, Glauber Rocha ligou o modo subversivo. Usando a estética do
Cinema Novo, ele pegou o discurso pomposo de posse e jogou por cima de imagens
brutais de favelas, fome e hospitais caindo aos pedaços. O contraste foi tão
violento que a voz do político virou um sussurro fantasmagórico, completamente
perdido na miséria real do Maranhão. O soco no estômago foi tão grande que o
próprio Sarney tentou engavetar o filme depois. (https://www.youtube.com/watch?v=hDRtFYjOtCY)
Glauber morreu cedo demais para assistir ao restante dessa
história. Nós não tivemos esse privilégio. Vimos o jovem Sarney envelhecer na
política, vimos sua família ocupar espaços de poder e acompanhamos, por
décadas, os desdobramentos daquela esperança depositada em 1966.
Você, assim como eu, já deve ter depositado esperança em um
político em ascensão, seja pelo carisma, discurso ou persuasão. Talvez por isso
esse filme seja tão importante hoje. Não apenas pelo cinema de Glauber, que já
seria motivo suficiente, mas porque ele registra um instante em que ainda era
possível acreditar que o futuro seria diferente. E, olhando para trás, talvez seja
justamente isso que mais nos impressione: perceber como, na política, o futuro
quase sempre parece muito mais bonito quando ainda não chegou.
Giovani Marino Favero é professor associado do Departamento
de Biologia Geral da UEPG.