Debates
O fígado e o coração
Da Redação | 09 de setembro de 2026 - 02:20
Por Mário Sérgio de Melo
Diz a sabedoria popular que o fígado é o órgão da raiva e da agressividade, o coração o órgão do amor e da paz. Esta divisão de nossos humores entre dois órgãos vitais traduz bem nossa natureza de seres tão ambíguos. Diz-se também que o íntimo de cada um de nós é habitado por um lobo voraz e um dócil cordeiro. Ora um, ora outro se manifesta, predomina aquele que alimentamos mais. Devemos crer que eles não se manifestem ao mesmo tempo. Se assim fosse, decerto o lobo devoraria o cordeiro. É preciso que o lobo se recolha para que o cordeiro assuma e o coração possa emanar bondade e compreensão.
Por sua vez, o cordeiro retira-se para que o lobo extravase os figadais humores de raiva, incompreensão e agressividade. Humores não necessariamente negativos. São eles, por exemplo, os responsáveis pela transgressão das normas vigentes, fazendo-nos evoluir. Quando é o cordeiro que se manifesta, pelos sentimentos do coração, ele transmite ao seu entorno a paz e a harmonia. Quando é o lobo que espicaça o fígado, ele dissemina não só o inconformismo, mas também a intolerância, a irracionalidade e o ódio. Guerra ou paz são os corolários previsíveis do predomínio do lobo ou do cordeiro, do fígado ou do coração.
Atualmente a população humana ultrapassa oito bilhões de almas, e acumulamos armas de destruição capazes de devastar o planeta várias vezes. Como nunca antes na história, é preciso cuidar de qual dos dois extremos estamos manifestando: o fígado ou o coração, o lobo ou o cordeiro. Esse dilema parece ser o desafio existencial que a natureza nos coloca, para a evolução decidir se fazemos jus às benesses que a providência nos concedeu, ao que tudo indica em caráter provisório, experimental.
A nós, seres humanos, de comprovarmos se merecemos ou não tais benesses. Se formos merecedores, sobreviveremos, evoluiremos, daremos um passo no rumo da compreensão do sentido da vida, da dimensão do universo e de nosso papel nele. Se não formos merecedores, talvez deixemos o exemplo de fracasso para outras espécies melhor adaptadas que nos sucedam. Nós mesmos já somos a tentativa de evolução resultante do fracasso de muitas espécies extintas que nos antecederam.
Ao refletirmos sobre as benesses da providência, que surpreendente paradoxo! O planeta Terra precisou de bilhões de anos para transformar-se e evoluir até tornar-se um lar milagroso, que nos protege, acolhe com afeto e generosidade, tudo nos provê. Já o “Homo sapiens” precisou de centenas de milhares de anos para evoluir até espalhar-se por toda a superfície do planeta, desenvolver incrível engenhosidade e capacidade de invenção, reflexão e sentimento. E é justamente essa extraordinária evolução que ameaça extinguir a espécie.
Se não soubermos balancear os humores do lobo e do cordeiro, do fígado e do coração, acabaremos por usar as bênçãos que a providência nos concedeu para nossa própria extinção. Oxalá os humores do lobo sejam bem empregados para nossa salvação, e os do cordeiro e do coração sejam nossa iluminação.
Mário Sérgio de Melo é Geólogo, professor aposentado do Departamento de Geociências da UEPG