Debates
As pupilas do senhor reitor
Da Redação | 01 de setembro de 2026 - 02:12
Por Renê Francisco Hellman
Julio Dinis escreveu um romance de quem furtei o título para este meu texto. Nada do que direi aqui tem a ver com o romance de Dinis, apenas quis partir de uma referência literária para sublinhar o meu tema: falarei de um reitor literato. Miguel Sanches Neto assumiu a reitoria da Universidade Estadual de Ponta Grossa em setembro de 2018 e, após dois mandatos, encerra sua gestão em agosto de 2026. Oito anos (e uma pandemia) de grandes transformações no mundo e na universidade.
Poderia um poeta fazer uma boa gestão universitária? Houve quem duvidasse à época da chegada do então novo reitor. Cartas assombradas para a redação: “a UEPG é coisa nossa, não podemos entregá-la a um forasteiro sonhador”. Assim como descriam das capacidades administrativas do Sancho Pança de Cervantes, por suas poucas letras, duvidaram do romancista, por suas muitas letras.
O tempo e as ações comprovaram a capacidade. Observando em retrospectiva os oito anos da gestão Sanches Neto, é inegável que a UEPG se desenvolveu em várias frentes: a abertura de novos cursos, o aumento do número de alunos, a reforma dos dois campi para promoção da acessibilidade, a construção do primeiro Ambulatório Médico de Especialidades Universitário do país, a construção do Centro Especializado em Reabilitação, o projeto e o financiamento de mais de R$ 100 milhões para a nova torre do Hospital Universitário, a retomada e finalização de todas as obras que estavam paradas, só para citar alguns exemplos.
Navegar é preciso. Nenhum avanço foi gratuito. O custo foi alto e continua sendo. O Miguel de 2018 ainda contava com a cor original dos cabelos. As têmporas de 2026 já carregam o grisalho, que é prêmio do tempo, mas também dos carmas acumulados. Não se faz gestão pública com adesão unânime, ainda mais na fonte da diversidade que é a universidade. Adversários aos borbotões e até mesmo alguns inimigos aliaram-se às naturais dificuldades do cargo para aumentar o peso do tempo.
A abnegação à função de gestor público e a constante preocupação com a universidade consumiram o tempo do escritor, do pai, do marido, do filho, do irmão... Reitor em tempo integral. Viver não é preciso.
Resumir o legado do reitor Sanches Neto é tarefa difícil, mas para além das obras construídas um ponto precisa ser destacado: o caráter humano da empreitada. Para quem conhece, não soará como novidade o fato de Miguel Sanches ter cometido erros por decisões de rompante. O componente espanhol no sangue do paranaense de Bela Vista do Paraíso não permitiu vida sempre tranquila ao entorno da reitoria. Homem de afetos e desafetos, Miguel não se resguarda de polêmicas, ao contrário, move-se por elas, com elas e faz jus à antiode de Drummond ao tédio: “Que tristes são as coisas, consideradas sem ênfase”.
E foi também por isso que nesses últimos oito anos a UEPG assumiu-se mais colorida e diversificada, com a ampliação da política de cotas e com a regra de paridade de gênero para os cargos de gestão. Avanços significativos para corrigir erros terríveis no traçado da história. É o componente humano que se manifesta numa simbiose entre o erro e o acerto para dar o tom de uma gestão pública comprometida com os valores sociais sobre os quais o reitor construiu sua vida e obra desde os tempos de líder estudantil no Colégio Agrícola Estadual de Campo Mourão.
As conquistas e realizações de toda a comunidade acadêmica da UEPG foram conduzidas à cena pela habilidade do reitor romancista de azeitar as fricções entre as necessidades da universidade e os interesses que movem as ações da política.
E para não deixar de falar das pupilas e dos pupilos do senhor reitor, o legado de Sanches Neto na reitoria da universidade passa também pela construção de um novo grupo político, diverso como convém a um líder polemista e a um poeta. Miguel possibilitou que novas lideranças alcançassem seu lugar ao lado de lideranças históricas na estrutura de comando da universidade e é sobre este grupo em constante construção que recai a responsabilidade de honrar e consolidar o legado do reitor que agora passa a construir outros personagens. Viver e navegar é preciso.
Renê Francisco Hellman é professor e advogado