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Imagem ilustrativa da imagem Motorista apressado

Por Mário Sérgio de Melo 

O motorista apressado amiúde tem um carro bem grande, uma SUV ou camionete parruda. Há os apressados com carros menores, mas são raros. O tamanho grande nem sempre é por motivo prático. Parece ser mais uma precisão psicológica: além de rápido e possante, o veículo deve intimidar os demais motoristas, como uma arma. Os apressados parecem querer compensar com a pressa e com o tamanho do veículo um complexo de pequenez e lerdeza que não conseguem superar em si mesmos. São criaturas guiadas pela compulsão de ultrapassar o outro, na via, na vida.

A conduta de muitos motoristas apressados de carros grandes lembra-me um desenho animado que via na década de 1960. Era com o personagem Pateta de Walt Disney. No dia a dia ele era uma pessoa comum, mas ao volante transformava-se num psicopata. Naqueles idos de mais de sessenta anos atrás o motorista que usava o carro como uma arma já era figura notória. Mas Pateta, antes de virar o psicopata ao volante, era um cidadão dócil, quase submisso. É possível que a mudança fosse justo para resgatá-lo de um mundo no qual se sentisse frustrado e reprimido.

Hoje, há diferenças nos motoristas apressados. Vejo-os com frequência, ou nas ruas da cidade, ou nas rodovias. Seus veículos são verdadeiras armas. Creio que sejam a causa de muitos acidentes com vítimas nas estradas. Eles vêm céleres, piscando os faróis desde longe para que saiamos da frente, mesmo quando estamos ultrapassando outro veículo, ou estamos retardados por outro mais lento à frente. Quando os veículos por algum motivo seguem em fila indiana, ultrapassam pela direita e enfiam-se com violência no espaço de segurança que deixamos à frente. Parecem bárbaros em uma batalha, os inimigos a serem vencidos são os outros motoristas. Não conseguem discernir quem são os verdadeiros inimigos, razão de suas frustrações.

Há quem diga que os apressados o são porque estão atrasados na vida, ainda têm muito o que percorrer. Tentam compensar o tempo perdido, deveríamos ser compreensivos com eles, apoiá-los no esforço de remissão. Será? Observando-os, seja transfigurados ao volante, ou quando estão em tratativas cotidianas fora de seus veículos-arma, vejo personagens diferentes do simplório Pateta de Walt Disney. Os apressados de hoje em dia sempre querem ultrapassar. Mas é na estrada que estão cobertos pelo anonimato inimputável que mascara os motoristas agressivos.

Creio que os motoristas apressados, transformados em psicopatas, são só uma das muitas manifestações patológicas de hoje. Depois de séculos de apologia do egoísmo, competição, ambição desmedida e anseio de supremacia, as pessoas já não têm consciência de como extravasam suas frustrações. Veículos grandes e possantes são só um tipo de ferramenta usada para isso. Outros são o poder dos recursos, o uso da retórica e do engodo, o falseamento da verdade... Cada vez há mais formas de catarse impune, à nossa disposição.

Enquanto não fizermos a psicanálise de nossa sociedade, cidadãos psicopatas serão cada vez mais comuns.

Mário Sérgio de Melo é Geólogo, professor aposentado do Departamento de Geociências da UEPG

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