Debates
Motorista apressado
Da Redação | 20 de junho de 2026 - 01:49
Por Mário Sérgio de Melo
O motorista apressado amiúde tem um carro bem grande, uma
SUV ou camionete parruda. Há os apressados com carros menores, mas são raros. O
tamanho grande nem sempre é por motivo prático. Parece ser mais uma precisão
psicológica: além de rápido e possante, o veículo deve intimidar os demais
motoristas, como uma arma. Os apressados parecem querer compensar com a pressa
e com o tamanho do veículo um complexo de pequenez e lerdeza que não conseguem
superar em si mesmos. São criaturas guiadas pela compulsão de ultrapassar o
outro, na via, na vida.
A conduta de muitos motoristas apressados de carros grandes
lembra-me um desenho animado que via na década de 1960. Era com o personagem
Pateta de Walt Disney. No dia a dia ele era uma pessoa comum, mas ao volante
transformava-se num psicopata. Naqueles idos de mais de sessenta anos atrás o
motorista que usava o carro como uma arma já era figura notória. Mas Pateta,
antes de virar o psicopata ao volante, era um cidadão dócil, quase submisso. É
possível que a mudança fosse justo para resgatá-lo de um mundo no qual se
sentisse frustrado e reprimido.
Hoje, há diferenças nos motoristas apressados. Vejo-os com
frequência, ou nas ruas da cidade, ou nas rodovias. Seus veículos são
verdadeiras armas. Creio que sejam a causa de muitos acidentes com vítimas nas
estradas. Eles vêm céleres, piscando os faróis desde longe para que saiamos da
frente, mesmo quando estamos ultrapassando outro veículo, ou estamos retardados
por outro mais lento à frente. Quando os veículos por algum motivo seguem em
fila indiana, ultrapassam pela direita e enfiam-se com violência no espaço de
segurança que deixamos à frente. Parecem bárbaros em uma batalha, os inimigos a
serem vencidos são os outros motoristas. Não conseguem discernir quem são os
verdadeiros inimigos, razão de suas frustrações.
Há quem diga que os apressados o são porque estão atrasados
na vida, ainda têm muito o que percorrer. Tentam compensar o tempo perdido,
deveríamos ser compreensivos com eles, apoiá-los no esforço de remissão. Será?
Observando-os, seja transfigurados ao volante, ou quando estão em tratativas
cotidianas fora de seus veículos-arma, vejo personagens diferentes do simplório
Pateta de Walt Disney. Os apressados de hoje em dia sempre querem ultrapassar.
Mas é na estrada que estão cobertos pelo anonimato inimputável que mascara os
motoristas agressivos.
Creio que os motoristas apressados, transformados em
psicopatas, são só uma das muitas manifestações patológicas de hoje. Depois de
séculos de apologia do egoísmo, competição, ambição desmedida e anseio de
supremacia, as pessoas já não têm consciência de como extravasam suas
frustrações. Veículos grandes e possantes são só um tipo de ferramenta usada
para isso. Outros são o poder dos recursos, o uso da retórica e do engodo, o
falseamento da verdade... Cada vez há mais formas de catarse impune, à nossa
disposição.
Enquanto não fizermos a psicanálise de nossa sociedade, cidadãos psicopatas serão cada vez mais comuns.
Mário Sérgio de Melo é Geólogo, professor aposentado do Departamento de Geociências da UEPG