Debates
Violência contra a mulher também é assunto de homem
Da Redação | 12 de março de 2026 - 01:09
Por Janguiê Diniz
Os casos recentes de violência e abusos contra mulheres e
meninas no Brasil voltaram a escancarar uma realidade que, infelizmente, ainda
insiste em se repetir. Notícias de feminicídios, agressões domésticas, estupros
e diferentes formas de violência de gênero surgem com frequência alarmante,
lembrando-nos de que o problema está longe de ser resolvido. No entanto, há um
ponto que precisa ser cada vez mais enfatizado nesse debate: combater a
violência contra a mulher também é responsabilidade dos homens.
Durante muito tempo, esse tema foi tratado como uma pauta
tida como feminina. As mulheres, com razão, lideraram movimentos de denúncia,
conscientização e transformação social. Mas a violência de gênero não pode ser
combatida apenas por quem sofre suas consequências. Ela nasce, em grande parte,
de comportamentos, valores e estruturas que também envolvem homens, e, por
isso, exige a participação ativa deles na mudança. Não basta que um homem diga
que não é machista. É preciso agir contra o machismo sempre que ele se
manifesta. Isso significa reconhecer que a violência de gênero não começa
apenas nos crimes mais graves, mas em atitudes aparentemente pequenas e
banalizadas no cotidiano. Piadas que diminuem mulheres, comentários que
objetificam seus corpos, desrespeito às suas escolhas ou a tentativa de
deslegitimar suas vozes fazem parte de uma cultura que normaliza desigualdades
e cria terreno fértil para agressões mais graves.
Quando essas atitudes são toleradas em rodas de conversa,
ambientes de trabalho ou grupos de amigos, cria-se uma cadeia silenciosa de
validação. Muitas vezes, quem presencia essas situações prefere o silêncio para
evitar desconfortos. No entanto, a omissão também tem peso moral. Quando não se
confronta o desrespeito, acaba-se, ainda que involuntariamente, contribuindo
para que ele continue existindo. É nesse ponto que a participação masculina se
torna essencial. Homens têm um papel importante na desconstrução de
comportamentos e mentalidades que historicamente sustentaram a desigualdade de
gênero. Isso passa por atitudes simples, mas significativas: contestar
comentários ofensivos, apoiar vítimas, promover ambientes de respeito e educar
novas gerações com valores de igualdade e empatia.
A educação, aliás, é um dos pilares dessa transformação.
Famílias e escolas precisam trabalhar juntas para formar meninos e meninas que
compreendam o valor do respeito mútuo desde cedo. Ensinar que mulheres não são
propriedade, que consentimento é indispensável e que relações devem ser
baseadas em dignidade e igualdade é fundamental para quebrar ciclos de
violência que se perpetuam há décadas.
Entretanto, educação e conscientização precisam caminhar
lado a lado com respostas firmes do sistema de justiça. O Brasil avançou ao
criar legislações importantes, como a Lei Maria da Penha e a tipificação do
feminicídio, mas ainda há um longo caminho a percorrer. Muitas vítimas
enfrentam dificuldades para denunciar, encontram barreiras institucionais e
convivem com a sensação de impunidade em diversos casos. E leis eficazes
precisam ser acompanhadas de aplicação rigorosa. A punição consistente de agressores
tem efeito pedagógico para a sociedade e transmite uma mensagem clara: a
violência contra mulheres não será tolerada. Além disso, é legítimo discutir o
aprimoramento das legislações e o endurecimento de penas para crimes de
violência doméstica e sexual, garantindo que a proteção às vítimas seja cada
vez mais efetiva.
Outro ponto fundamental é o acolhimento às vítimas. Muitas
mulheres ainda enfrentam medo, vergonha ou descrédito ao denunciar agressões. É
responsabilidade do Estado e da sociedade garantir estruturas de apoio,
proteção e acompanhamento psicológico e jurídico adequados. Uma sociedade
verdadeiramente comprometida com a justiça não pode permitir que vítimas se
sintam desamparadas.
A mudança cultural exige tempo, mas começa com escolhas individuais e é urgente. Cada comentário questionado, cada atitude de respeito e cada posicionamento contra a violência ajudam a transformar mentalidades. Combater o machismo não é apenas uma pauta social; é um compromisso ético com a dignidade humana. Por isso, é importante afirmar com clareza: violência contra a mulher não é um problema apenas das mulheres, mas de toda a sociedade, e os homens precisam fazer parte da solução. Ficar em silêncio diante da injustiça nunca foi neutralidade. É, muitas vezes, uma forma silenciosa de conivência.
Janguiê Diniz é fundador e Presidente do Conselho de
Administração do grupo Ser Educacional, Fundador da JD Business Academy,
Presidente do Instituto Êxito de Empreendedorismo e da ABMES - Associação
Brasileira de Mantenedoras de Ensino Superior