Debates
Agenda da jornada de trabalho deve caminhar junto com produtividade e competitividade
Da Redação | 21 de fevereiro de 2026 - 00:33
Por Fernando Valente Pimentel
O debate sobre a redução da jornada, que voltou à agenda
nacional, merece ser tratado com a seriedade e a profundidade que um tema dessa
magnitude exige. Trata-se de uma discussão importante que envolve qualidade de
vida, saúde e equilíbrio entre trabalho e vida pessoal. No entanto, seus
impactos ultrapassam a esfera social, pois alcançam diretamente a
produtividade, a competitividade das empresas, a geração de empregos formais e
o futuro do desenvolvimento econômico do País.
É importante lembrar que o Brasil não parte de um cenário de
cargas horárias excessivamente elevadas. Dados recentes indicam que a jornada
média efetivamente trabalhada situa-se pouco acima de 39 horas semanais,
enquanto na indústria a média gira em torno de 40,2 horas. Ou seja, já existe,
na prática, um nível significativo de acomodação decorrente de negociações
coletivas, arranjos setoriais e organização produtiva das empresas.
Essa realidade reforça um ponto central: a diversidade
econômica e produtiva brasileira torna inadequadas soluções uniformes e
rígidas. Setores com operação contínua, forte sazonalidade ou elevada
competição internacional, como a indústria têxtil e de confecção, apresentam
dinâmicas distintas de atividades predominantemente administrativas ou de
serviços. O mesmo se aplica às diferenças regionais, que refletem realidades
econômicas, estruturais e sociais variadas.
Por essa razão, o melhor caminho para eventuais ajustes na
jornada de trabalho não é a imposição legal uniforme, mas sim a negociação
coletiva e os acordos entre trabalhadores e empregadores. Esse instrumento
permite acomodar especificidades setoriais e regionais, preservar empregos e
garantir soluções equilibradas entre produtividade, competitividade e bem-estar
dos trabalhadores. A experiência brasileira demonstra que, quando há espaço
para negociação, surgem soluções criativas e sustentáveis.
Outro aspecto essencial é reconhecer que reduções
sustentáveis da jornada de trabalho, observadas em economias avançadas,
ocorreram em contextos de aumento de produtividade, modernização tecnológica e
reorganização dos processos produtivos. Quando a redução ocorre sem ganhos
correspondentes de eficiência, o resultado tende a ser o aumento do custo por
unidade produzida, perda de competitividade, informalidade e retração do
emprego formal.
Nesse contexto, causa preocupação que propostas de redução
da carga semanal de trabalho e extinção do regime 6x1 avancem sem que se
inclua, na mesma medida, a discussão sobre a mitigação do “Custo Brasil” e dos
encargos que incidem sobre o emprego formal. Os ônus do trabalho no País
permanecem elevado quando considerados tributos, encargos sociais, energia e
custos logísticos e do capital. Alterações que elevem o valor unitário da
produção sem enfrentar esses fatores estruturais tendem a penalizar a indústria,
estimular a informalidade e ampliar a substituição por importados.
Além disso, uma discussão com impactos estruturais sobre o
custo do trabalho, a organização produtiva e a competitividade nacional não
deve ser conduzida de maneira açodada, especialmente em períodos eleitorais.
Temas dessa relevância exigem análise técnica aprofundada, diálogo amplo com os
setores produtivos e avaliação criteriosa de seus efeitos sobre crescimento
econômico, inflação, investimento e geração de empregos de qualidade.
O Brasil precisa avançar no seu desenvolvimento e, com isso,
proporcionar maior bem-estar à sociedade. Mas, esse avanço, para ser
sustentável, deve caminhar junto com produtividade, inovação e competitividade.
A negociação coletiva, o respeito às diferenças setoriais e regionais e a
construção gradual de soluções efetivas representam o caminho mais seguro para
equilibrar esses objetivos.
Tratar esse tema com responsabilidade é garantir que o País avance socialmente sem comprometer sua capacidade de produzir, competir e gerar oportunidades para milhões de brasileiros.
*Fernando Valente Pimentel é o diretor-superintendente e
presidente emérito da Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção
(Abit).