Debates
Aos vencedores, a propaganda travestida de Carnaval
Da Redação | 20 de fevereiro de 2026 - 01:46
Por Katia Magalhães
A purpurina perdeu seu brilho, as fantasias retornaram ao
mofo de seus depósitos, os carros alegóricos foram devolvidos ao anonimato dos
barracões, e a bateria se calou. O que foi vendido como espetáculo de euforia
vai se tornando uma triste recordação esmaecida e a arrogância dos ídolos de
barro substituída pela rotatividade das manchetes midiáticas. Porém, o lodo
subjacente à farsa segue cada vez mais nauseabundo, emporcalhando nossa triste
republiqueta.
No domingo de carnaval, o desfile das escolas de samba no
Rio foi marcado por uma propaganda antecipada de Lula, pré-candidato à próxima
corrida presidencial. A descrição da trajetória de político vivo e em plena
atuação como saga heroica, o uso do estribilho do longevo jingle de campanha
como refrão do samba-enredo, a apresentação do “homenageado” como um boneco
gigante, o destaque escancarado à marca mista da sigla partidária (letras e
figura da estrela) e o louvor a políticas públicas supostamente implementadas
por Lula transformaram o que deveria ter sido um desfile em indisfarçável ato
de campanha. Isso sem falar no abuso de poder econômico caracterizado pelo
desvio de recursos públicos para a irrigação dos cofres da escola e no abuso de
poder político configurado pelo gesto do “faz o L” (símbolo maior do império
lulista devolvido ao poder), pela presença do próprio Lula na avenida e pela
escolha, por parte do casal presidencial, dos atores encarregados da
mise-en-scène. Contudo, nem só da idolatria ao lulopetismo se alimentou a
escola de Niterói.
Logo no carro abre-alas, o carnavalesco fez questão de
brindar seus prosélitos com a representação da prisão de Bolsonaro, levando-os
a um delírio orgíaco. Em plena Sapucaí, um palhaço mostrado como um
Bozo-Coringa era capturado por um careca togado e trancafiado na masmorra. Não
se tratava ali de insinuação ou mensagem subliminar; ao contrário, era um brado
de louvor ao aliado disfarçado de juiz, cujo “feito” maior havia consistido
precisamente no sequestro do arqui-inimigo político do homenageado. Não à toa,
a cena de encarceramento do “malévolo” palhaço sucedia a da subida da rampa por
Lula em 23, em um indicativo, na linguagem teatral, de uma nítida relação de
causa e efeito entre os eventos. Tanto na vida quanto na arte cênica, o
petista, cuja corrupção havia sido desnudada por três instâncias judiciais,
precisou aniquilar seus oponentes para garantir a própria sobrevida no
Planalto. E, para tanto, contou com os ótimos préstimos de um magistrado dado a
prisões fora do devido processo legal, à censura e aos demais decretos de morte
civil contra todos aqueles que ousassem questionar o arbítrio dos donos do
poder.
Enfatizando o seu êxtase diante do modus operandi da atual
composição do STF, a escola ainda apresentou outro carro retratando o mesmo
Bozo-Coringa em sua jaula, de tornozeleira eletrônica, e destacou na letra do
samba a expressão “sem anistia”, bandeira da esquerda brasileira e de todos os
defensores dos abusos togados. O espetáculo degradante na Sapucaí ultrapassou
em muito a esfera já reprovável de uma campanha antecipada; o desfile não
apenas confessou, como idolatrou todas as violações protagonizadas por togados
desde a instauração do inquérito das fake news. Não foi apenas a propaganda de
um indivíduo, mas de um regime autoritário protagonizado por figurões do
judiciário, que pisotearam o primado da Constituição e das leis para
implementarem o império de seus próprios caprichos. Confiantes na impunidade
reinante entre nós, os organizadores do evento incorreram em sincericídio ao
levarem à avenida a representação de um binômio vencidos-vitoriosos, onde a
vitória não foi definida por razões jurídicas, mas pelo emprego da violência
pura e simples. Sem o arsenal das forças de defesa, é certo, mas graças às
armas de uma polícia federal servil ao autoritarismo judicial.
“Ao vencido, ódio ou compaixão; ao vencedor, as batatas”.
Poucas vezes a conclusão da filosofia de Quincas Borba, personagem-título da
obra machadiana, me pareceu tão ilustrativa da realidade quanto no desfile dos
niteroienses. Lá estava Bolsonaro, vencido em sua jaula gradeada e alvo da ira
da turba petista ou, na melhor das hipóteses, de um ou outro olhar compassivo
diante das feições ridículas do palhaço; lá estavam Lula e Alexandre de Moraes,
os vencedores do butim do campo de batatas ou, em português mais claro, do
poder desenfreado entre nós. Na era dos juízes despóticos, o humanitismo de
Quincas vem sendo aplicado a um país onde a “paz” é a destruição das
instituições e das garantias constitucionais, e onde a guerra a pretensos
“golpistas” é a conservação do establishment. Ou alguém ainda haverá de duvidar
da adoção, nos últimos anos, de uma lógica beligerante por parte de togados que
se vangloriaram da “derrota” ao bolsonarismo ou do “combate” a um pretenso
extremismo?
A depender de seus cálculos politiqueiros, juízes eleitorais
até podem vir a excluir Lula da disputa de 26. No entanto, não é crível que
nossos senadores venham a tomar todas as medidas legais cabíveis contra Moraes
e seus pares abusivos. Em um cenário povoado por uma massa política nada
confiável, que renunciou à própria autonomia em arranjos promíscuos com
togados, é possível e até provável que eventuais mudanças venham a ser
engendradas a partir de conflitos entre clãs de togados em guerra pela repartição
do butim. Talvez somente a partir do confronto entre interesses nada
institucionais possam surgir revelações ainda mais aterradoras sobre os
intestinos da nossa republiqueta, tornando inviável a manutenção de certas
figuras em seus postos de mando.
Até que as “batatas” venham a ser desfrutadas pelo povo, do qual deveria emanar todo o poder, ainda teremos de acompanhar os saques de poderosos a vários campos e, mais grave ainda, a proibição às investigações sobre possíveis ilícitos incorridos na aquisição de extensos “batatais”. Até lá, nossos donos do poder seguirão protagonizando as mais grotescas folias institucionais, e nossas liberdades continuarão a perigo. Que tenhamos coragem para desnudar e enfrentar um Humanitas cada vez mais faminto e mais avesso à ética.
Katia Magalhães é advogada formada pela Universidade Federal
do Rio de Janeiro (UFRJ), e MBA em Direito da Concorrência e do Consumidor pela
FGV-RJ, atuante nas áreas de propriedade intelectual e seguros, autora da
Atualização do Tomo XVII do “Tratado de Direito Privado” de Pontes de Miranda,
e criadora e realizadora do Canal Katia Magalhães Chá com Debate no YouTube.