Debates
Euforia e risco: uso de álcool e drogas no Carnaval
Da Redação | 05 de fevereiro de 2026 - 03:34
Por Vitor Friary
O Carnaval é, todos os anos, um grande experimento social a
céu aberto. Corpo em movimento, calor intenso, multidão, música alta, pouco
sono, hidratação irregular e uma autorização interna muito audaciosa: “agora
pode, é carnaval”.
Nesse contexto, o uso de álcool em padrão de 'binge
drinking' e de drogas recreativas deixa de ser apenas uma escolha individual e
passa a ser fortemente moldado pelo que os outros estão fazendo. O problema não
é a festa em si, é quando a experiência entra no modo automático e o
autocuidado fica ausente.
Do ponto de vista psicológico, o Carnaval reúne alguns dos
principais ingredientes que aumentam o risco de uso descontrolado. Há o
contágio social, em que a percepção de que “todo mundo está fazendo” diminui o
freio interno; há a permissão moral temporária, em que o feriado parece
justificar comportamentos que, em outros dias, seriam evitados; e há um fator
menos falado, mas muito comum: a substância como estímulo emocional disfarçada
de diversão.
Para muitas pessoas, o álcool ou outras drogas funcionam
como um atalho para aliviar ansiedade social, insegurança com o corpo, solidão
ou dificuldade de se sentir pertencido. O alívio é rápido, e exatamente por
isso ao mesmo perigoso. O binge drinking, especificamente, traz riscos
importantes porque não se trata apenas de beber muito, mas de beber muito em
pouco tempo. Isso eleva rapidamente a concentração de álcool no sangue,
prejudica julgamento, coordenação e autocontrole e aumenta de forma significativa
a probabilidade de comportamentos de risco.
No Carnaval, esse padrão é potencializado por fatores
ambientais: longas horas na rua, calor, desidratação, mistura com energéticos,
pouca alimentação e pressão do grupo para “acompanhar o ritmo”. A conta quase
sempre chega depois, na forma de lapsos de memória, conflitos interpessoais,
exposição a violência, vulnerabilidade sexual, acidentes e uma ressaca
emocional que vai muito além da dor de cabeça.
Quando entram as drogas recreativas, o cenário fica ainda
mais imprevisível. O uso combinado de substâncias, muitas vezes de procedência
desconhecida, somado ao esforço físico, à desidratação e à privação de sono,
cria um terreno fértil para efeitos adversos. Estudos como o de Sodré (2022)
observam aumento do consumo de drogas ilícitas durante o período do Carnaval no
Brasil, o que reforça a necessidade de olhar para o tema não com moralismo, mas
com prevenção baseada em realidade.
Clinicamente, é importante dizer: perder o controle em
contextos como esse não é sinal de fraqueza de caráter. É resultado de um ciclo
bastante conhecido. Um gatilho como uma festa, um sintoma de ansiedade, uma
excitação, uma pressão social, pode sim levar ao uso como forma de intensificar
prazer ou aliviar desconforto. O alívio imediato reforça o comportamento. Em
seguida vêm excessos, consequências e culpa. Depois, promessas rígidas de
“nunca mais”, que não se sustentam porque não foram acompanhadas de estratégias
concretas. O ciclo pode acontecer poucas vezes por ano e, ainda assim, gerar
impactos importantes na saúde mental e nos vínculos. Por isso, prevenção no
Carnaval não passa por proibição, mas por planejamento.
Limites precisam ser concretos, não abstratos. “Vou beber
com moderação” é frágil; definir número de doses, horários, intervalos com água
ou decidir previamente não misturar substâncias cria uma estrutura que o
cérebro consegue seguir mesmo sob estímulo intenso. Também ajuda muito ter
respostas prontas para recusas, frases simples que evitam negociações longas no
calor do momento. Decidir antes é sempre mais fácil do que decidir sob pressão.
Outro ponto-chave é aprender a reconhecer pensamentos que funcionam como
gatilhos: “só hoje”, “eu mereço”, “sem isso não vai ser divertido”. Esses
pensamentos não precisam ser combatidos à força, mas respondidos com frases
âncora que reconectem com valores pessoais, como lembrar que diversão não
precisa custar o dia seguinte ou que pertencimento não depende de ultrapassar
limites.
Redução de danos
Nesse sentido, a abordagem de redução de danos se mostra
especialmente pertinente no Carnaval. Ela parte do reconhecimento de que o uso
pode acontecer, mas busca diminuir riscos concretos associados a esse uso. Isso
inclui medidas simples e eficazes, como alternar consumo com água, evitar o uso
em jejum, não misturar substâncias, respeitar intervalos entre doses, conhecer
minimamente os próprios limites e nunca usar sozinho. Também envolve combinar
previamente com amigos sinais de alerta e apoio mútuo, cuidar uns dos outros e
saber identificar quando alguém precisa sair da festa ou buscar ajuda. Redução
de danos não estimula o consumo, mas protege a vida, a saúde mental e os
vínculos, reconhecendo a complexidade das experiências humanas sem recorrer à
culpa ou à negação.
Pequenas pausas para respirar e trazer suavidade e calma
para o corpo, sair por alguns minutos da roda dos amigos, beber água, comer
algo durante as festividades e observar o próprio estado interno já reduzem
muito o risco de escalada. Cuidar do corpo no carnaval é cuidar da mente.
Alimentação, hidratação, sono e planejamento de retorno para casa não são
detalhes logísticos, são estratégias psicológicas de proteção. E talvez uma das
decisões mais importantes seja ter, desde o início, um plano de saída. Saber
que é possível ir embora sem transformar isso em fracasso é um dos maiores
fatores de prevenção ao uso descontrolado.
Também é importante notar a sua intenção dizendo para fazer
programas diferenciados, com mais contato com natureza e descanso, se for o
caso. Não ficamos menos interessante porque não aparecemos nos stories dando
closes fantasiados e com o copo na mão. Podemos honrar autocuidado quando
necessário ao invés de forçar a barra e negligenciar sinais para não sair nos
bloquinhos, principalmente se temos um histórico de binge e não temos redes de
apoio como um bom terapeuta para tratar essas questões.
O Carnaval pode ser intenso, alegre e libertador sem
precisar ser autodestrutivo. Quando há consciência, planejamento e respeito aos
próprios limites, a festa deixa de ser um apagão e passa a ser uma experiência
que termina inteira, no corpo, na mente e na memória.
Fonte de referência: Sodré, F. F., et al. (2022). Understanding Illicit Drug Use Trends
During the Carnival Holiday in Brazil. Frontiers in Analytical Science.
Vitor Friary é psicólogo, doutorando no Centro de Estudos
Internacionais do Instituto Universitário de Lisboa, formado em Psicologia
Clínica, fundador do Centro de Mindfulness no Brasil e autor de livros no
Brasil e nos Estados Unidos.