'Mobilidade acessível em PG é dignidade, não favor', avalia conselheiro de Saúde | aRede
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'Mobilidade acessível em PG é dignidade, não favor', avalia conselheiro de Saúde

Conselheiro do Grupo aRede, Mário Montemór Netto compara problemas estruturais da cidade a um quadro clínico de má circulação e exclusão social

Mário Rodrigues Montemor Netto é conselheiro na área da Saúde
Mário Rodrigues Montemor Netto é conselheiro na área da Saúde -

Lilian Magalhães

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O conselheiro da área da Saúde do Grupo aRede, Mário Rodrigues Montemor Netto, avalia que os problemas de acessibilidade e mobilidade urbana em Ponta Grossa representam um grave desafio à qualidade de vida da população.

Para ele, a precariedade das calçadas, a falta de estrutura adequada e as dificuldades enfrentadas por pessoas com deficiência revelam um cenário de “isquemia urbana”, no qual o direito de ir e vir acaba comprometido pela ausência de planejamento inclusivo.

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Confira o quadro do diagnóstico clínico urbano feito por Mário Rodrigues Montemor Netto sobre a reportagem especial "Cidade de obstáculos: os desafios da acessibilidade e mobilidade urbana em PG". | Autor: Colaboração/aRede.

Confira abaixo a opinião na íntegra de Mário, que é médico, Diretor de Saúde da ACIPG, presidente da AMPG, professor do curso de Medicina da UEPG e conselheiro de Saúde do Portal aRede:

"Ponta Grossa e seu Diagnóstico Clínico: Isquemia Urbana e a Trombose do Direito de Ir e Vir

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Assista à opinião completa de Mário Montemor Netto no Portal aRede. | Autor: Colaboração/aRede.

Como conselheiros de saúde, nosso papel é observar o espaço urbano por uma lente vital. Para nós, a infraestrutura de um município não é um aglomerado inerte de concreto, asfalto e decretos; a cidade é um organismo vivo. Suas ruas e ciclovias são artérias; seu transporte público é o sistema circulatório ; seus cidadãos são as células que oxigenam o corpo ; e o planejamento urbano é a homeostase — o equilíbrio sistêmico que garante a sobrevivência e o bem-estar de todo o conjunto.

O diagnóstico recente trazido pelo Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano (Iplan) acende uma luz vermelha na UTI de Ponta Grossa: cerca de 84% das calçadas do município não possuem acessibilidade. Os dados são alarmantes: apenas 15% do total é considerado em boas condições, enquanto impressionantes 26% são classificados como péssimos. Sob a ótica da fisiologia humana, estamos diante de um quadro grave de esclerose urbana e má circulação. O sangue (nossa população) está impedido de fluir e o tecido social sofre de isquemia — sendo privado de movimento, de autonomia e de dignidade nas calçadas.

A Anatomia da Doença: O Infarto da "Viagem Completa"

Na medicina urbana moderna, a mobilidade de uma pessoa com deficiência ou mobilidade reduzida não pode ser tratada de forma fragmentada. O conceito da "Viagem Completa" (Complete Trip) estabelece que a verdadeira acessibilidade depende da continuidade ininterrupta de todas as etapas do deslocamento de uma pessoa: desde o planejamento prévio e o acesso a tecnologias de informação, passando pela calçada, a chegada segura ao ponto de ônibus, a viagem a bordo do veículo, as transferências, até a chegada ao destino final. Se apenas uma dessas conexões falhar, ocorre uma interrupção sistêmica — o equivalente a um coágulo que bloqueia toda a artéria.

Quando analisamos os relatos dos moradores de Ponta Grossa, vemos esse "infarto" da viagem completa acontecer diariamente:

- Bloqueio Sensorial e Nervoso: O trajeto de Valcemir de Oliveira, estudante com deficiência visual, é rotineiramente ameaçado por calçadas irregulares e por um paisagismo desplanejado, cujos resíduos atuam como agentes agressores físicos ao pedestre. A ausência de semáforos sonoros e a obstrução do piso podotátil nos terminais, relatados por Antônio Jorge Ferreira de Lima, equivalem a uma severa lesão nas sinapses nervosas do município. Sem a sinalização adequada em formatos inclusivos, o organismo urbano fica "cego" para quem precisa se guiar pelo toque e pela audição.

- Paralisia Funcional: A falta de acessibilidade estrutural e institucional paralisa a autonomia de jovens como Meirielli Luz, forçando-a a depender exclusivamente de modos motorizados privados pela exclusão do espaço público. O mesmo diagnóstico se aplica ao estudante Pedro Augusto, cadeirante que, devido à infraestrutura inadequada e obras, é obrigado a disputar espaço diretamente com os carros na via. É a perfeita ilustração de um corpo em que o "músculo" do transporte motorizado individual esmaga a "articulação" essencial do pedestre.

O Relevo Não Pode Ser Desculpa para a Necrose Tecidual

Embora a topografia acidentada de Ponta Grossa seja uma característica intrínseca do nosso sítio geográfico, a verdadeira patologia é a nossa cultura rodoviarista. Como bem diagnosticou o conselheiro de urbanismo Henrique Wosiack Zulian, as faixas de rolagem de carros precisam diminuir de largura para dar espaço a calçadas maiores e mais humanas.

É um erro anatômico grave retirar o espaço público retilíneo das calçadas para instalar estacionamentos recuados em 45°, obrigando cadeirantes e pedestres a realizarem desvios perigosos no asfalto. A cura para essa macrocefalia viária está fundamentada na literatura global por meio do Desenvolvimento Orientado ao Transporte Sustentável (DOTS). Cidades saudáveis aproximam as pessoas de suas necessidades diárias — como saúde, habitação e comércio — por meio de distâncias caminháveis, ciclovias seguras e transporte coletivo universalmente acessível. Sem esse adensamento inclusivo e planejamento de uso do solo, o corpo urbano de Ponta Grossa sofrerá um colapso cardiovascular por congestionamento crônico, poluição e segregação socioeconômica.

O Tratamento Clínico: Leis, Atitudes e Desenho Universal

Aplicar o Desenho Universal — a concepção de espaços, programas e serviços para serem usados por todas as pessoas, na maior extensão possível, sem a necessidade de adaptação ou projetos especializados — deve ser a essência de todo projeto público e privado. A reabilitação urbana de Ponta Grossa precisa seguir três frentes terapêuticas imediatas, em total conformidade com as diretrizes do Programa Brasil Acessível do Ministério das Cidades:

1. Intervenção Cirúrgica na Infraestrutura Viária: O poder público não pode depender de "remédios paliativos" ou da assistência contínua de funcionários em estruturas mal projetadas, o que pune a autonomia do cidadão. O Iplan deve fazer valer vigorosamente as leis federais de acessibilidade (Leis nº 10.048/00 e nº 10.098/00), notificando e autuando irregularidades com rigor. Novas pavimentações devem integrar de forma mandatória guias rebaixadas, travessias elevadas e semáforos sonoros suaves.

2. Imunização Contra a Discriminação (Tratamento Atitudinal): Embora a concessionária do transporte afirme que todos os seus ônibus em operação possuem elevadores, os usuários — representados por Maria Liliane, presidente da ADFPG — denunciam elevadores frequentemente inoperantes, superlotação e falta de empatia de operadores e passageiros. Para garantir de fato o fluxo circulatório do sistema, é imperativo instituir treinamentos continuados e avaliações sensoriais de qualidade para motoristas e funcionários (como o projeto "Sentindo na Pele"), melhorando atitudes e mitigando as barreiras sociais no transporte coletivo.

3. Participação Popular como Oxigenação Coletiva: Nenhuma calçada ou política habitacional deve ser projetada sem a escuta ativa e equitativa de quem a utiliza. Reuniões públicas acessíveis e ferramentas digitais de participação de código aberto para mapear barreiras, como o Project Sidewalk ou o Wheelmap, podem engajar a juventude local e as universidades a coletarem dados técnicos sobre desníveis e buracos.

Uma cidade perfeitamente saudável é aquela onde nenhuma célula é deixada para trás por falta de oxigenação estrutural. Se uma parcela dos nossos cidadãos sofre de paralisia social ou isolamento forçado ao tentar sair de casa, Ponta Grossa inteira está enferma. Curar nossas calçadas e nosso transporte coletivo não é um favor orçamentário ou uma escolha cíclica; é a reabilitação da dignidade, a aplicação do direito constitucional e a retomada da saúde no coração da nossa gente".

Conselho da Comunidade

Composto por lideranças representativas da sociedade, não ocupantes de cargo eletivo, totalizando 14 membros, a iniciativa tem o objetivo de debater, discutir e opinar sobre pautas e temas de relevância local e regional, que impactam na vida dos cidadãos, levantados semanalmente pelo Portal aRede e pelo Jornal da Manhã, com a divulgação em formato de vídeo e/ou artigo.

Conheça mais detalhes dos membros do 'Conselho da Comunidade' acessando outras notícias sobre o projeto.

Leia um resumo da notícia

- Mário Montemór Netto avalia que a falta de acessibilidade em Ponta Grossa compromete o direito de ir e vir e afeta diretamente a qualidade de vida da população.

- O conselheiro compara os problemas de mobilidade urbana a um quadro de “isquemia urbana”, causado por calçadas precárias, falhas no transporte e ausência de planejamento inclusivo.

- O artigo defende mais fiscalização, infraestrutura acessível e participação popular para tornar a cidade mais segura e humana.

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